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Página do Juliano Dupont
O amor é um luxo e no princípio não era o Verbo
17/09/2024
Artigo de Juliano Dupont reproduzido de sua página Negativo Operante
N’A Origem do Homem e a Seleção Sexual (1871), Darwin conjetura o canto dos pássaros como um protótipo de formas mais avançadas de música. A função principal das melodias criadas pelas aves seria o cortejo e o acasalamento. Nessa origem biológica estaria também a matriz da linguagem: a produção de sons e música antecedem a invenção da palavra. No princípio, então, não estava o Verbo divino, nem o verbo humano.
A origem da música não emana das esferas. Como tudo o que diz respeito à vida, liga-se à Evolução e aos imperativos de sobrevivência e procriação. Sexo e música disparam dentro de nós os mesmos hormônios, como a vasopressina, tendo uma história evolutiva comum entrelaçada. A intuição darwiniana foi ampliada, corrigida, complexificada através da biomusicologia, da neurociência, da musicologia evolucionista, da sociobiologia, entre outros ramos da ciência moderna.
Além do sexo, outra das funções primordiais da música é o de ser um poderoso agregador tribal, uma força galvanizadora de indíviduos em uma unidade coletiva. Observamos a sincronização dos corpos em qualquer lugar onde um agrupamento dance sob o mesmo ritmo (uma discoteca, uma reive, um CTG), mas principalmente podemos constatar o efeito congregador da música em sociedades primitivas, onde o tambor da guerra é o mesmo presente em outros rituais – em sua maioria, ritos de fertilidade.
Em povos tradicionais primitivos, em que a música serve a projetos coletivos como a guerra e a procriação, os indivíduos cantam e dançam em grupos, não em pares ou sozinhos. A dança de casais é um privilégio de sociedades afluentes. Só com excedente agrário podemos nos dedicar ao erotismo sofisticado, altamente culturalizado, de canções românticas.
Em contextos de escassez, os sentimentos privados cedem lugar às exigências coletivas de sobrevivência. Procriação e fertilidade são necessidades permanentes. O amor cortês, repleto de ternuras e sentimentalismos, é um luxo que podemos manter apenas em tempos e ambientes de fartura.
As narrativas de enamoramento entre índios ou aborígenes são criações mitopoéticas de europeus, projeções de uma cultura lírica com suas práticas de flerte e cortejamento. Afagos, carícias, e mesmo beijos, são raríssimos em sociedades de caçadores e coletores.
A riqueza excedente permite a culturalização suntuosa, à beira do supérfluo, desses fenômenos biológicos imperativos: do sexo ao erotismo, da nutrição de subsistência à gastronomia, da vestimenta à moda etc.
A maior quantidade de compositores de músicas românticas ao longo da história é de homens jovens, no pico de sua fertilidade. Não é uma coincidência fortuita, é um programa evolutivo. O impulso primário de cortejamento, de machos sobre fêmeas, sofistica-se quando estão garantidas as necessidades primárias de sobrevivência, permitindo o tempo da delicadeza, da suavidade, do carinho, da possibilidade de cantar os próprios sentimentos em público.
Depois das raras, mas pioneiras exceções, como Eheduanna (primeiro autor conhecido pela história) e Safo, a chegada em massa das mulheres à composição lírica é o apogeu da sofisticação artística permitida pela riqueza material.
A música tem, portanto, funções evidentes na história evolutiva da espécie, descartando algumas dúvidas da velha pergunta sobre qual seria sua utilidade. Outras vantagens biológicas permancem um tanto misteriosas, como em relação ao puro prazer fisiológico ou à contemplação psicológica que a prática de tocar e ouvir música engendra, uma série de efeitos individuais e coletivos que podem ou não possuir um télos, um fim específico, ultrapassando sua função evolutiva original.
É curioso o fato de que a canção romântica tenha perdido a preeminência que manteve ao longo de todo o século vinte. Deveria ser o contário, pela lógica do que tentei argumentar acima, porque a riqueza média das populações aumentou nas últimas décadas.
Segundo esta matéria da revista Billboard, os jovens do século XXI temem a intimidade que a dança romântica lenta proporciona. Preferem dançar sozinhos ou em grupos as danças que imitam o ato sexual, como o twerk, um rebolado em que a mulher dá as costas ao homem simulando o coito anal ou o vaginal por trás. No twerk, cujo equivalente brasileiro é o funk, homens e mulheres esfregam-se os genitais – mas não se olham no olhos.
As letras trocaram as insinuações eróticas pelo explícito. O sexo não mais infunde medo. O tabu agora é a intimidade e os sentimentos mais profundos. Marcuse conceituava isso como “dessublimação repressiva”. Pode ser.
Muito mais intensa que a mera redução do sexo aos genitais, a dança romântica lenta demanda uma relação afetuosa que implica o olhar do outro.
O olhar revela a alma, pensavam os antigos. Como a alma morreu no mundo ocidental, tudo o que somos hoje é um corpo reduzido ao estado de objeto.
Artigo de Juliano Dupont reproduzido de sua página Negativo Operante