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Página do Juliano Dupont
Música não é matemática
18/07/2025
Artigo de Juliano Dupont reproduzido de sua página Negativo Operante
Lugares-comuns, chavões, clichês, bordões, pela infinita repetição, podem ser equivocamente entendidos como uma verdade incontestável ou evidente por si mesma. Na prática, instalam-se na grande conversa do mundo como uma obviedade.
Não o óbvio ululante, algo tão evidente mas invisível até que um Nelson Rodrigues traz à tona e revela a verdade nua que ninguém conseguia enxergar, apontando o dedo gritando que o rei está nu. Não, não é isso. O lugar-comum é a fossilização de uma ideia, um falso truísmo.
São inúmeras essas ideias que, como memes, como replicantes, entoamos em mantras. “Tudo é político”, por exemplo, é uma delas, além do “música é matemática”. Só faltaria, para prová-las, a barbadinha de definir o que é o “político”, a “música”, a “matemática”, e esse tal de “tudo”, e depois conferir se existe mesmo essa igualdade sugerida pelo maldito “é” que os transforma em sinônimos.
A falácia do apelo à autoridade é a primeira a ser brandida: Fulano (algum músico respeitado, cujo valor da obra ninguém contestaria) disse que “música é matemática”.
O problema é que autoridades erram, e o que é preciso para provar uma argumentação são evidências concretas fundamentando boas premissas que levem à conclusões válidas, e não de carteiraços. Especialistas também se equivocam, além do fato de que um bom artista não é necessariamente um bom filósofo da arte. Ao contrário, é muito comum que gênios em determinadas áreas não passem de quadrúpedes relinchantes quando se metem a dar opinião.
Já tive inúmeras vezes essa discussão com os amigos no bar, mas a alteração emocional provocada pelos eflúvios etílicos, somada aos miasmas derivados da excitação que qualquer debate apaixonado provoca, impediu o triunfo do bom-senso e a parcimônia necessária para a análise dos argumentos.
Como sou ressentido, rancoroso e vingativo, exponho aqui minhas observações, dentro de minhas possibilidades, com a relativa tranquilidade necessária para pensar o problema.
Música não é matemática
Se a frase “Música é matemática” estivesse formulada como “música tem propriedades matemáticas” ou “existe relação entre música e matemática”, não haveria nada a contestar. O problema está na equação sugerida pelo “é”: Música=Matemática.
Afirmações como “música é matemática” cometem um erro categorial: confundem propriedades compartilhadas com identidade essencial. O fato de que algo contenha particularidades matemáticas e de que possa ser analisado e compreendido sob uma perspectiva matemática não permite fazer uma afirmação deste tipo, em que uma coisa se torna sinônimo da outra, misturando propriedades com essências.
Quanto à música, a matemática descreve relações quantificáveis: as notas, as durações, os ritmos, as harmonias, as frequências. Os teóricos da música podem dispor da matemática para compreender a estrutura de uma composição; a música pode ser estudada pela teoria dos conjuntos, álgebra, teoria dos números e sei lá mais o quê. A escala musical (conforme estabelecida no Ocidente) é composta por sete notas principais, que seguem um padrão matemático de intervalos entre elas. O fato de que uma coisa contenha outra não permite, entretanto, a generalização de que sejam iguais como se afirma na equação “Música é matemática”.
Confundir estrutura com essência e correlação com identidade são duas formas conhecidas de falácia, e nem precisamos consultar livros de argumentação para isso, nem usar termos como ontologia e erro categorial. É um erro lógico evidente para quem der um passo atrás e pensar sobre o que está dizendo.
Por uma necessidade retórica, eu acho, a pessoa em vez de dizer que a música contém propriedades matemáticas, como na teoria dos conjuntos – A contém B mas não é igual a B -, o sujeito força o discurso e joga um música é matemática, acreditando dizer algo inteligente. Seria, no máximo, com muito boa vontade da nossa parte, uma meia verdade e, portanto, uma meia mentira.
Acrescenta-se também a falácia do reducionismo, ignorando outras dimensões da música, como a estética, emocional, cultural, biológica, antropológica, médica, terapêutica, social, e todas as outras dimensões e propriedades que podemos atribuir à música.
A descrição matemática de um acorde e suas frequências não explica as inúmeras reações emocionais que ele provoca, muito distintas conforme o contexto e a cultura, além das muitas variações perceptivas para cada indivíduo singularmente em diferentes tempos e ambientes.
A matemática não decodifica o significado de uma música: tristeza, alegria, ironia. Expressões e intenções diferem enormemente em contextos musicais variados, com percepções podendo ser alteradas em relação à mesma nota ou composição.
Existem propriedades matemáticas na música como existem propriedades matemáticas no meu sofá. Forma, tamanho, peso, volume, posição, enfim, as dimensões do meu sofá podem ser descritas, analisadas e compreendidas pela matemática. Mas a ninguém ocorreria afirmar que “Sofá é matemática”.
Se música = matemática, então os músicos são matemáticos e os matemáticos, músicos. Hermeto Pascoal seria um dos maiores matemáticos do século XX; Arquimedes, Euclides e Newton se inscreveriam entre os principais inventores musicais.
Força de expressão ou explicação pretensamente poética ou pseudo-filosófica, a redução da música à uma de suas propriedades – no caso a matemática – sugere uma forma de engrandecê-la (como se fosse preciso engrandecer a música). Chamar a música de matemática é, eu acho, um modo de espiritualizá-la.
Afirmar que tudo no universo – dos buracos negros ao amor, à amizade, à política – possa ser reduzido ou elevado à propriedades matemáticas é uma manifestação de puro idealismo. “Tudo é matemática” seria equivalente a dizer tudo é deus, tudo é amor, tudo é … (preencha com o seu idealismo de estimação).
Observa o paradoxo: a matemática explicaria as propriedades físicas da música, porém quando comparamos e igualamos algo à sua estrutura matemática, o que ocorre é uma pretensa elevação da matéria à uma linguagem de símbolos com sabor transcendente.
Foi Pitágoras o primeiro a estabelecer proporções numéricas para os intervalos musicais e foram os pitagóricos a desenvolverem a ideia da ‘música das esferas’, a crença de que o universo inteiro fosse regulado por princípios musicais matemáticos.
A música das esferas refletiu a procura por uma ordem ideal do universo, buscando proporções, enxergando “harmonia” em tudo. Como haviam descoberto a matemática da música, foram analogamente procurando as proporções matemáticas da música no cosmo, atribuindo notas musicais aos planetas a partir da distância entre eles, como entre as notas musicais.
A matemática era uma metáfora para essa idealizada ordem cósmica. Confundir uma metáfora com a realidade é a alucinação que acomete a todos os idealistas, que enxergam no mundo apenas aquilo que trazem dentro de si. É uma linda poesia se autoproclamando ciência, mas não passa de uma verdade subjetiva. E com isso ficamos muito mais longe da realidade, porque existem verdades objetivas no mundo além da nossa perspectiva individual e subjetiva.
Quando reduzimos – ou elevamos, segundo o espiritualismo pitagórico – a música à matemática, não apenas cometemos um erro lógico, mas também empobrecemos nossa compreensão de um fenômeno complexo.
A matemática é uma ferramenta da ciência para analisar aspectos da música, mas não a sua essência – ela não é a música.
O mapa não é o território. A música é o território, com tudo que ele contém. A matemática é apenas um dos mapas possíveis para tentar desvendar os mistérios da música e do universo.
Artigo de Juliano Dupont reproduzido de sua página Negativo Operante