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Página do Juliano Dupont
O Deserto dos Tártaros
12/08/2024
Artigo de Juliano Dupont reproduzido de sua página O Deserto dos Tártaros – by Juliano Dupont
Há livros que só com o título já nos excitam a imaginação. Ao ouvir essas palavras, O Deserto dos Tártaros, sentia a promessa jubilosa, o convite ao deleite narrativo, ainda que acompanhado pela música ventosa e gélida de um ignoto e quimérico deserto.
Obra-prima da literatura italiana publicada em 1940, O Deserto dos Tártaros de Dino Buzzati é uma daquelas obras que, mesmo que nunca mais vire ou consulte suas páginas, continuam vivas dentro de mim, fazendo-me companhia do mesmo modo que nos fazem companhia no caminhar da vida os poemas mais estimados, os filmes favoritos, as músicas prediletas. A leitura de Buzzati inseminou-se dentro de mim e O Deserto frutifica a sua poética em minha memória.
Otto Maria Carpeaux – luz inextinguível – resume o enredo do romance em forma adamantina:
“Il Deserto dei Tartari é o romance de um jovem oficial que passa a vida inteira, frustrado, numa fortaleza de fronteira, esperando o ataque de inimigos que talvez não existam.” 1
Só um gênio como Carpeaux conseguiria sumarizar assim, quintessencialmente, as pouco mais de duzentas páginas do livro. Ele, porém, dedicou apenas essas linhas ao romance de Buzzati. Como pretendo discorrer mais longamente, entrando em alguns pormenores que me interessam, preciso estender a sinopse.
O oficial Giovanni Battista Drogo, recém-nomeado segundo-tenente do exército imperial de uma nação não especificada, é designado para servir no Forte Bastiani, um posto avançado militar inacessível, onde uma numerosa guarnição tem a tarefa de proteger a fronteira desértica que separa o império de uma população misteriosa e ameaçadora: os tártaros.
Conta a lenda que os tártaros invadiram o reino em tempos remotos, chegados pelo deserto, e que a sua ameaça é uma constante através dos séculos. Drogo acredita que a nomeação ao Forte Bastiani é um golpe de sorte, estreando na carreira militar em uma fortaleza portentosa, de suma importância ao Império. Entretanto, desde a viagem de partida, depois de abandonar a casa materna e a aldeia onde fora feliz na juventude, Drogo vai descobrindo que o Forte não era uma promoção, mas um mero acaso ou, talvez, uma condenação.
O oficial rapidamente assimila os ritos que orientam diariamente os moradores do Forte, uma espécie de convento estóico. A austeridade dita os comportamentos e as relações entre os militares enquanto anseiam pelo acontecimento heróico: uma invasão, uma batalha que lhes poderia finalmente conferir prestígio e glória.

Drogo constata rapidamente que nada acontece no Forte Bastiani, exceto a rígida vida militar, regulada por uma burocracia excessiva destituída de propósitos, enredada em protocolos absurdos fundamentalmente destinados a coisa alguma. A vida ali não tem razão alguma de ser afora o temor das invasões tártaras, que teriam acontecido no passado distante, mas que talvez não passem de lenda e os “tártaros” sequer existam.
Incontornável é a lembrança do famoso poema de Konstantinos Kaváfis, À Espera dos Bárbaros
Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.
Os militares no Forte Bastiani esperam a invasão dos tártaros que nunca chegam. Seria uma solução, se chegassem, dando a oportunidade de finalmente viverem aquilo a que dedicaram suas vidas; como não chegam, estão condenados à esperança, empenhando suas vidas em uma ilusão.
Sem demora, já nos primeiros dias, Drogo decide abandonar Bastiani. Por inúmeros empecilhos administrativos e burocráticos, acaba ficando, ficando, e ali desperdiçará toda a sua vida, assim como todos os outros confinados no forte que se recusam a partir, seja porque se iludem sobre a importância de seu trabalho ou porque já desistiram, acomodando-se aos hábitos monacais da Fortaleza.
A fábula de Buzzati não tem uma geografia específica, a localização do deserto e da fortificação permanecem ignotos, ou melhor: são imaginários. Os tártaros do título indicam o povo multiétnico asiático, mas mesmo isso é bastante ambíguo – podem ser mongóis, turcomanos, siberianos, alguma coisa de vagamente asiático, centro-europeu e eslavo. No que não há dúvida é de que estamos em território da Europa ocidental, e um tanto de Europa central (a Mitteleuropa), porque os nomes dos personagens revelam diferentes nacionalidades, com sobrenomes franceses, espanhóis, portugueses, germânicos, italianos e eslavos, e seus uniformes e bandeira evocam o Império Austro-Húngaro.
Tal impressão de que estamos nas bordas do Império Austro-Húngaro, provavelmente em suas fronteiras orientais, é reforçado na magnífica leitura da obra realizada pelo diretor Valerio Zurlini.
Um dos grandes méritos de Zurlini foi descobrir, cinematograficamente, a fortaleza Arg-e Bam, por muito tempo considerado o maior edifício em adobe do mundo, tendo servido como importante cruzamento na Rota da Seda por mais de 1500 anos. Está localizado em Bam, cidade da província de Carmânia, no sudeste do Irã, conforme leio na wikipedia.

A primeira aproximação literária a O Deserto dos Tártaros, a mais óbvia, seria com obras de Kafka. Buzzati é de fato chamado o Kafka italiano, o que é um equívoco. O Deserto não me parece uma alegoria, uma representação de pensamentos, de ideias figuradas através de uma narrativa. No caso de Kafka, não apenas alegoria, mas alegoria parabolar, com sentido moral, de estirpe religiosa.
Há semelhanças, sim, mas de natureza essencialmente diferentes. A mais imediata que me ocorre é com O Processo, em particular o interlúdio no capítulo nove, conhecido como “Diante da lei”. É bastante famoso, mas recordemos:
Diante da Lei está um porteiro. Um homem se aproxima dele e pede que o deixe entrar na Lei. O porteiro diz-lhe que agora não pode deixá-lo entrar. O homem reflete e pergunta se poderá, então, entrar mais tarde. “É possível”, diz o porteiro, “mas agora não”. Como o portão da Lei se encontra aberto, e o porteiro se afasta, o homem se inclina e olha para dentro através do portão. Assim que o porteiro repara nisso, ri e diz: “Se te atrai assim tanto, experimenta então entrar, apesar da minha proibição. Mas repara: eu sou forte. E sou apenas o porteiro mais ínfimo. De sala para sala há, porém, outros porteiros, cada um deles mais forte do que o outro. Até eu próprio já não consigo suportar o aspecto do terceiro porteiro”.
O homem espera a vida toda. O porteiro reconhece que ele já está próximo do seu fim. Para alcançar o seu ouvido moribundo, berra: “Aqui mais ninguém poderia ser admitido, pois esta entrada era apenas destinada a ti. Agora vou-me embora e fecho-a.”
Há uma diferença fundamental, ontológica, entre os universos kafkiano e buzzatiano: Em Kafka não existe o livre-arbítrio, os personagens são vítimas de um sistema opressor, totalitário e determinístico, vivendo num mundo caótico incompreensível. Em Buzzati, o imobilismo do personagem é fruto de seu medo à liberdade: ele tem a opção de sair, de pedir remoção para outro posto militar – na verdade, ele sequer precisa fugir, bastaria apenas tomar a decisão de partir. Mesmo sendo livre, Drogo vai ficando, por medo, por costume, por afeição aos hábitos conhecidos.
Ao contrário de Josef K, ou outros personagens de Kafka, como Gregor Samsa, despossuídos de livre-arbítrio num universo determinista, opressor, totalitário, Drogo vive no que parece um ambiente republicano medianamente democrático, e onde existe liberdade de escolha.
Há semelhança com a obra de Borges, também, e por muito tempo pensei que O Deserto dos Tártaros poderia ser o único romance assinado pelo genial argentino. Foi uma ilusão literária, equívoco meu. Borges é, sim, realista em grande parte de sua obra: lembremos de O Homem da Esquina Rosada, e tantos outros contos e poemas em que, além da capital portenha, os arrabaldes de Buenos Aires ou a Argentina popular pampiana são palco de suas histórias. Ou seja, é falsa a ideia de um Borges exclusivamente aristocrático, elitista, criador de uma metaliteratura dedicada apenas a temas eruditos, ou, ainda pior, a ideia de um Borges criador de uma obra cosmopolita.
Borges desenvolveu sua poética e elaborou sua estética em muitos ensaios, tão saborosos quanto sua prosa ficcional. Todo escritor que escreve sobre outro com frequência está falando sobre si mesmo, tomando um autor admirado ou desprezado como uma maneira disfarçada de refletir sobre a própria obra.
No Evaristo Carriego, ou em O Idioma dos Argentinos, ou no seu estudo sobre Martin Fierro, e em muitos outros ensaios que tratam da obra de outros autores, Borges denuncia sua poética marcadamente localista. Em Carriego descobriu a Buenos Aires arrabaleira povoada por compadritos; em Hernandez, autor do maior poema latino-americano, o épico Martín Fierro, Borges descobria a pampa e o gaúcho, rematando um inventário de temas e ideias (topoi), tão originais quanto arcaicos, tão novos quanto arquetípicos. Nos antípodas de escritores que tentam apagar toda marca local criando um cosmopolitismo típico de provincianos, Borges revela o universal a partir do que está na vizinhança, em seu próprio quintal.
Porém em Borges quase sempre estamos no espectro bastante simbólico, mesmo que fundamentalmente realista – seus contos tem paixão e sangue (Emma Zunz, por exemplo) mas dentro de um esquadro racional, bem composto, parecendo gestados com um artifício lítero-algorítmco, equacional.
Borges é pítagórico: tenta decifrar o mundo em sedutoras equações literárias. Mesmo sendo um agnóstico, possivelmente um ateu, a obsessão com as ideias do bispo Berkeley e Schopenhauer – recorrentes na cosmovisão que fundamentam seus contos – traem sua nostalgia pelo absoluto. O mundo talvez seja uma ideia, parece sugerir Borges a cada trecho. O que aparentemente contradiria o que afirmei acima a respeito do realismo de Borges. Tal aparente contradição é uma síntese platônica – o mundo existe, mas é uma realidade de segunda categoria, uma decomposição do mundo das Formas.
Realista como escritor, Borges é muito idealista em sua filosofia mais profunda. Alguns diriam que mesmo o seu idealismo não passa de jogo literário, atribuindo-lhe a ironia com que o próprio Borges definia a teologia: “um ramo da literatura fantástica”. Mas não creio. Acho que Borges tem sim uma ambição transcendente, e transformou sua arte em uma religião vicária, apresentando-se, como escritor, com a máscara de um demiurgo irônico.
O que sentimos em Buzzati é de outra ordem, diferente de Kafka ou Borges: sentimos a ternura, o afeto em relação aos personagens, mais próximo do humanismo tchekoviano.
Além da Kafka, ou Borges, alguns o lêem como existencialista. Não vejo nenhuma relação, exceto coincidências cronológicas com A Náusea ou O Estrangeiro. Buzzati é radicalmente existencial, mas não existencialista. Não faz uma ilustração narrativa de ideias como a obra literária de Sartre, nem possui o moralismo filosófico de Camus, ambos engajados politicamente, autores de alegorias em romances ensaísticos.
Ainda que cheio de parentescos, Buzatti é um escritor único. O Deserto dos Tártaros é um conto de fadas para adultos, misturando o real e o fabuloso. Xerazade reencarna a cada tanto em alguns poucos escritores, e Buzzati é o contador de histórias autêntico: seu único compromisso é com o deleite do leitor e o encantamento da audiência. O narrador é um arqui-narrador sem filosofices, o enredo puro transcendendo e escapando a quaisquer interpretações mais restritas.
A obra de Buzzati é bastante numerosa, muito diversificada em gêneros também. Sendo artista plástico, e dos bons, Buzzati inventou coisas como o poema em quadrinhos

Contamos com poucos títulos traduzidos: o romance Um Amor, as coletâneas de contos Naquele Exato Momento e As noites difíceis, e mais um que outro título disperso em edições esgotadas. A obra-prima, opinião unânime entre leitores e críticos, é mesmo O Deserto dos Tártaros.
Conversei com algumas pessoas a respeito do livro, e todos que o leram interpretam-no como uma descrição da própria vida. A sensação inevitável é que vivemos, todos, de alguma forma, em nosso deserto dos tártaros particular, seja por permanecer onde não queremos estar, por covardia em partir e medo de mudar, ou pelo conforto que o desconforto costumeiro ilusoriamente nos dá, e ao invés de tentarmos uma arriscada mudança, terminamos por escolher o inferno conhecido ao inferno desconhecido.
Conto de fadas para adultos, O Deserto dos Tártaros é uma metáfora da vida, como só as grandes obras podem ser.
Artigo de Juliano Dupont reproduzido de sua página O Deserto dos Tártaros – by Juliano Dupont
1 Carpeaux, na sua nunca por demais louvada História da Literatura Ocidental (3 mil páginas absolutamente maravilhosas, que a editora do Senado disponibiliza gratuitamente em pdf ou por módicos 120 merréis aqui).