-
Página do Juliano Dupont
O Transe e o Êxtase
19/09/2025
Artigo de Juliano Dupont reproduzido de sua página O Transe e o Êxtase – by Juliano Dupont – Negativo Operante
Foi lendo O som e o sentido, de José Miguel Wisnik, que trombei pela primeira vez com a diferença entre o transe e o êxtase. Discutindo o conflito entre música pretensamente mais espiritual e religiosa, e outra mais corporal, rítmica, popular, Wisnik comenta rapidamente: “o transe é dinâmico, um zero mental que se transforma em movimento de corpo; o êxtase é estático, o corpo não se move”.
Êxtase, do grego ekstasis, originalmente designa um movimento para sair de si, o abandono do corpo em direção ao divino. Transe, do latim transire, significa cruzar, e refere-se a afecções que nos atravessam o corpo – como doenças e paixões -, e também à(s) divindade(s) e espíritos incorporados nos ritos de possessão.
As palavras portam no étimo a sua diferença. Diferença não apenas semântica, mas antropológica, cultural, filosófica. Mais telúrico e pagão, o transe é a divindade incorporada, ao passo que o êxtase representa uma evasão do mundo material, a libertação espiritual do corpo integrando-se ao divino.
A maneira mais rápida para definir êxtase seria chamá-lo de transcendência, e aqui já temos o étimo trans igualando os fenômenos, tornando-os sinônimos. E a inversa, qualificando de êxtase o estado de transe. É inevitável cair na circularidade das palavras para descreverem umas às outras.
O Houaiss, para escapar da sinonímia, usa de um artifício prestidigitador, evitando a palavra transcendente, substituindo-a por “transporte, transportado” ao descrever o êxtase: estado de abstração ou de exaltação de alguém que se sente transportado para fora de si e do mundo sensível. Com a mistura das definições, o êxtase seria o transe místico, qualificado assim para indicar um transe de caráter mais espiritual, igual a êxtase, ganhando com o adjetivo uma metafísica do além; e o transe, um êxtase corporal, arraigando no corpo a metafísica, trazendo o além ao aquém, dando imanência ao divino.
Aqueles que se apegam às origens etimológicas de uma palavra deveriam ir direto para o inferno, disse o gramático Cláudio Moreno numa palestra, anos atrás, no Centro Cultural Lupicínio Rodrigues em Porto Alegre.
Os fundamentalistas etimológicos são aqueles que, ao descobrirem que a palavra virtude deriva do étimo latino vir (s.m. – homem, varão, virilidade; pl. –os homens, o gênero humano), se revoltam contra o machismo, e se recusam a usar as palavras virtude, virtuosa e virtuosidade, para se referir à mulheres. Ou aqueles que rejeitam a palavra mulato, com pelo menos duas origens em disputa: de mula, animal híbrido, e de muwalad, mestiço em árabe. O identitarista rejeita o hibridismo e a mestiçagem como pejorativos. Para o fundamentalista etimológico, as palavras carregam no étimo o pecado original, um mal na raiz que, se fosse possível arrancá-lo, magicamente alteraria os aspectos da realidade que ele rejeita.
A invectiva de Cláudio Moreno tem, portanto, toda a minha simpatia: as palavras tomam rumos inesperados. Polissêmicas, não apenas passam a significar coisas diferentes e múltiplas, mas até mesmo contraditórias à acepção original, como no caso da expressão “pois não”, que denota exatamente o seu contrário, “sim, pois, sim”, um caso exemplar e extremo, onde “não” quer dizer “sim”.
A etimologia, mesmo que não deva – nem conseguiria – servir como justificativa para regular o uso dos falantes, que se apropriam e dão caminhos inesperados para os sentidos das palavras, pode, entretanto, desvelar a cosmovisão de um povo a respeito de determinados fenômenos, criando uma espécie de arqueologia do pensamento, possibilitando a descoberta das ideias subjacentes às palavras.
Palavras são ideias sobre as coisas, e a própria existência, ou inexistência, de palavras diferentes para matizar, classificar, diferenciar as coisas é um sintoma, ou um efeito, de concepções filosóficas específicas a respeito das coisas e dos fenômenos.
De modo que a etimologia de transe e êxtase desvela concepções e interpretações conflitantes, embora correlatas, sobre práticas espirituais de matrizes culturais diferentes. A distinção êxtase – imobilidade, divino – e transe – movimento, possessão corporal – não é exclusivamente europeia, ocorrendo nas formas do ascetismo oriental, por exemplo. No caso especificamente europeu, reflete o conflito dramático entre concepções filosóficas dualistas: a dicotomia entre razão e desrazão, idealismo e naturalismo, mente e corpo, espírito e matéria.
Numa perspectiva materialista, a pergunta inevitável é: Seriam o transe (divino no corpo) e o êxtase (abandono do corpo em direção ao divino) fisiologicamente a mesma coisa, apenas traduzidos culturalmente de maneira diferente?
Se forem a mesma coisa, da perspectiva dos fenômenos que ocorrem no corpo (incluindo a mente, que é corpo também), a diferença seria cultural e antropológica, não havendo diferença no nível físico entre o transe de um xamã ou de um babalorixá e o êxtase de um místico cristão ou oriental.
A segunda pergunta que me ocorre, antagonizando a primeira, seria: a prática cultural ou religiosa, sendo diferente, não resultaria em fenômenos fisiológicos distintos? Qual a diferença física, nos processos cerebrais e no corpo como um todo, entre um monge meditando e um dervixe rodopiante da tradição sufi? Que processos fisiológicos são disparados no corpo de um místico cristão ou de um iógue, durante as práticas ascéticas, e no corpo de um médium, no terreiro de candomblé? A predisposição cultural e a ideologia religiosa interferem e condicionam a experiência?
Outra pergunta: por que mesmo agnósticos e ateus, após uma experiência psicodélica, ou de grande intensidade emocional, usam da linguagem mística para descrevê-la? Limitação da linguagem? Permanência do poder da religião? Ausência de metáforas laicas para descrever o sublime?
A dicotomia corpo e espírito deriva, ou se origina, das concepções a respeito de êxtase e transe. A ideia de uma alma eterna que sobreviva à morte do corpo participa do falso antagonismo entre corpo e mente, cérebro e consciência, consciência e corpo.
Todo religião, e toda cultura, controla o corpo – por uma determinada forma de movimento ou por uma determinada forma de imobilidade. O cristianismo procurou o contemplativo imóvel, a estase no êxtase. O canto gregoriano é o exemplo histórico mais evidente (audiente), tentanto criar uma música sem ritmo aparente, um ritmo quase insensível, com baixa ancoragem corporal, buscando se distanciar do transe, através da imobilidade do corpo. No canto litúrgico, o único movimento buscado é aquele da alma em direção ao divino – a transcendência.
Nas religiões do transe, quem oficia e celebra os ritos é o xamã, palavra de origem siberiana para feiticeiro, médium e curandeiro, sinônimo de pajé, babalaô, pai-de-santo, feiticeiro, exorcista, esconjurador.
O dicionário Houaiss descreve o xamanismo assim: “em todas as sociedades humanas que apresentam formas de ritualismo mágico-religioso, indivíduo escolhido pela comunidade para a função sacerdotal, frequentemente em decorrência de comportamentos incomuns ou propensão a transes místicos, e ao qual se atribui o dom de invocar, controlar ou incorporar espíritos, que favoreceriam os seus poderes de exorcismo, adivinhação, cura ou magia”.
No orfismo encontra-se a origem dos rituais dionisíacos. Os músicos gregos, nesses rituais primitivos, celebravam sacrifícios, invocavam espíritos, promoviam curas. Os músicos eram curandeiros, feiticeiros e profetas – eram xamãs. Segundo o helenista E.R.Dodds, na obra Os Gregos e o Irracional, as flautas e os tambores eram “os instrumentos orgiásticos por excelência”, usados “provocar e curar a loucura”. Atentem para o “provocar” antes de curar.
Resistir a Dioniso é reprimir o que há de elementar na nossa própria natureza, e o castigo é o repentino e completo colapso das represas internas, quando o primitivo irrompe fazendo desaparecer a civilização.

Balançar a cabeça e sacudir os cabelos: símbolo universal do êxtase
O livro de Dodds é uma obra que trata de um assunto pouco estimado por helenistas, e iluministas de um modo geral: a permanência do irracional no ápice do chamado milagre grego, quando a Razão teria destronado a mitologia e o pensamento mágico.
Comentando o êxtase dionisíaco (eu chamaria de transe), Dodds destaca trechos d’As Bacantes de Eurípedes, onde ocorre “o balançar de cabeças e o sacudir dos cabelos”:
jogando seu longo cabelo para os céus; eu pararei de puxar seu cabelo para trás; lançando minha cabeça para frente e para trás como em um bacanal
De maneira semelhante e em outro lugar – acho que Dodds se refere a As Troianas – usa um excerto onde encontramos uma possuída Cassandra:
sacode seus cachos dourados quando de Deus sopra o vento imponente de uma segunda visão.
Tais descrições podem representar igualmente a ideia de transe ou de êxtase, sugerindo a igualdade, seja de transcendência ou de possessão. A distinção não interessa ao autor, sequer a menciona. Dodds prossegue:
O mesmo traço aparece em Aristófanes, na Lisístrata, e é constante em outros escritores, apesar de descrito de modo menos vivaz: as mênades ainda ‘sacodem suas cabeças’ em Catulo, Ovídio e Tácito.
O autor depois compara descrições de outras partes do mundo, estabelecendo “a cabeça balançando e cabelos sacudidos” como um símbolo universal do êxtase:
Vemos este ato de lançar a cabeça para trás e levantar a garganta em antigas obras de arte[…]. Mas o gesto não é uma simples convenção da poesia e da arte gregas; em todos os tempos e lugares ele caracteriza este tipo particular de histeria.
Dodds extrai citações, depois, de três descrições modernas independentes sobre o tema cabeça balançando, cabelos esvoaçantes:
- De um missionário sobre uma dança canibal na Columbia Britânica: “contínuo modo abrupto de lançar a cabeça para trás, fazendo o longo cabelo negro se retorcer, acrescentava muito à sua aparência selvagem”;
- um relato sobre a “dança sagrada de devoradores de bode” no Marrocos: “seu longo cabelo foi sacudido pelos rápidos movimentos da cabeça para frente e para trás”;
- Do relato clínico de histeria possessiva feita por um médico francês: “a cabeça era sacudida de um lado para o outro ou lançada bem para trás, acima da garganta inchada e protuberante”.
Quem frequenta ou já viu imagens de terreiros de batuque, umbanda ou candomblé, ou cultos evangélicos (que apesar do alegado preconceito incorporaram ritos de possessão dos terreiros), percebem o gestual do transe descrito por Dodds – balançar a cabeça e o sacudir os cabelos -, os mesmos que encontramos em shows de heavy metal (headbangers) ou reives (festa de música eletrônica/bate-estaca hipster).
Mircea Eliade definiu o xamanismo como uma técnica arcaica de êxtase (no sentido do que eu estou chamando de transe). Essas técnicas permanecem em inúmeras práticas sociais não-religiosas, no mundo laico já desencantado do divino. A música repetitiva talvez seja a principal técnica arcaica de êxtase oficiada pelo xamã.
Pesquisas em neurociência demonstram que ritmos repetitivos induzem a estados alterados de consciência: padrões sonoros contínuos promovem mudanças neuroquímicas no cérebro, efeito que se intensifica após aproximadamente oito minutos. É o que acontece nos rituais religiosos que praticam o transe.
A música pop e a canção popular, entretanto, foram historicamente limitadas a três minutos de duração devido às restrições técnicas dos suportes fonográficos no início do século XX. Para contornar essa limitação e produzir uma hipnose musical semelhante ao dos rituais indutores ao transe, os músicos e dj’s recorrem a estratégias como a transição ininterrupta entre faixas, mantendo as mesmas batidas constantes por horas, ou a extensão deliberada das canções em performances ao vivo. É a recriação contemporânea do efeito embriagante dos ritmos repetitivos usado em práticas religiosas ancestrais.
As religiões do transe controlam o corpo com a liberação do movimento, organizado por liturgias e cerimônias que atribuem significados às paixões e emoções imanentes que nos afetam fisiologicamente durante o ritual. A música pop usa das mesmas práticas de entorpecimento das religiões do transe, porém deslastradas do seu fundamento metafísico.
Repetição em música é a principal fonte de prazeres e emoções fisiológicas (não apenas espirituais, digamos), cujos poderes liberadores são ritualizados nas religiões do transe, mas não na cultura do entretenimento, que se apropria das técnicas arcaicas de êxtase, como as chamou Mircea Eliade.
Acho que Prince acertou em cheio ao batizar uma música como Joy in Repetition (Alegria na repetição), sintetizando a descoberta simples e verificável em qualquer contexto: a repetição é prazerosa, corporalmente prazerosa, com um erotismo – não necessariamente sexual – impulsionado por um padrão rítmico entorpecedor, cujo poder narcótico sobre o corpo é tão forte e imediato que dá muito mais trabalho resistir do que se submeter a ele.
É bastante significativo lembrar que obedecer venha do latim oboedire – escutar, ouvir. Um outro caso em que a etimologia desvela a verdade invisível sobre o som e a música: ao contrário do olhar, que pode se desviar do objeto indesejado, é impossível não ouvir ou desviar a audição. E o que é muito pior: ouvidos não tem pálpebras. Quem nos impõe um som nos impõe seu poder, diz Jacques Attali em Ruído: A Economia Política da Música (sem tradução em português). Quem obedece, escuta; quem escuta, obedece. Resistir ao som é mais exaustivo do que obedecer a um imperativo racionalmente expresso em palavras. A música possui os nossos corpos. Repetição é prazer, portanto, mas também tortura. A única saída é a entrega ou a fuga.
A percussão que induz ao transe é a mesma que sincroniza e estimula soldados no combate. O tambor da orgia é o mesmo tambor da guerra. O ritmo repetitivo pode ser uma forma de controle social e de organização militar, ou o fundamento estrutural do transe coletivo, podendo ser interpretado como liberador ou repressor, conforme o gosto político e estético do analista. O fato é: o ritmo constante faz o cérebro responder com disciplina, seja ao caminho da transcendência ou da obediência, podendo ser as duas coisas ao mesmo tempo.
Assim como o êxtase precisa da palavra transcendente para se explicar, as religiões não possuem outro meio exceto o corpo para buscar o divino, usando sempre de técnicas fisiológicas para chegar ao espiritual, nem que seja pela negação e tortura do corpo. Os quarenta dias de Jesus no deserto são um exemplo extremo do uso do corpo para atingir estados alterados de consciência, assim como as práticas de jejuns, drogas, ioga, meditação, danças.
A diferença é que os religiosos do êxtase, fundados na crença de uma alma distinta do corpo, creem no movimento puro do espírito, e não numa relação entre ambos, como os religiosos do transe. Os dois creem no sobrenatural – espíritos, almas -; os religiosos do êxtase, porém, tentam aniquilar o corpo, desincorporando-o, ao passo que os religiosos do transe entendem-no como essencial, integrando o corpo na sua metafísica, incorporando-o. Em suma: o êxtase, pretensamente incorpóreo e espiritual, é realizado com técnicas corporais, igual ao transe.
Há metafísica nas duas concepções, claramente. Uma metafísica transcendente para os extáticos, e uma metafísica imanente para os místicos do transe. Por metafísica entendo aqui uma concepção filosófica sobre o mundo e os seres do além e do aquém – uma cosmovisão, ou como queiram chamar.
A diferença entre o transe e o êxtase reflete em parte o cisma entre Apolo e Dionísio, conforme a famosa interpretação de Nietzsche. À estase apolínea chamaríamos de êxtase; à intoxicação dionisíaca, transe.
Essa dicotomia teria consequências culturais importantes, como o antagonismo entre uma música espiritual dançante (transe) e a música espiritual cujo pressuposto é a imobilidade do corpo, como na música clássica (êxtase).
O jazz talvez represente a síntese desse conflito no coração do ocidente, a fusão entre o transe e o êxtase. De suas origens africanas, mas não só, também da cultura popular, inclusive a europeia, vem a ideia de manter uma base rítmica constante, um pulso seguro onde podemos ancorar o corpo. Da matriz clássica vem a procura do êxtase na criação melódica e harmônica, aparentada em muitos aspectos à música de concerto, ainda que composição instantânea, durante o ato da performance.
As perguntas permanecem: há diferença fisiológica entre as práticas religiosas do transe e as do êxtase, ou seriam a mesma coisa sob diferentes interpretações? Ou práticas culturais distintas produzem fenômenos físicos diferentes? Espero da ciência, e da neurociência em particular, as respostas. Por ora, não posso evitar a especulação.
Artigo de Juliano Dupont reproduzido de sua página O Transe e o Êxtase – by Juliano Dupont – Negativo Operante