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Em Porto Alegre
Página do Juliano Dupont
Um Passeio pelo Centro
20/12/2025
[Publicado em Um Passeio pelo Centro – Negativo Operante]
As escrituras estão prontas desde o dezembro do ano passado. Embromei o quanto pude até não me aguentar mais. A papelada na escrivaninha, ofendida pela desfaçatez, reagia descarada e insolente fazendo corpo mole, me olhando de revesgueio, até esta quarta-feira quando tomo a decisão, recolho os documentos e pego um Uber para a Secretaria Municipal da Fazenda de Porto Alegre.
Claro que fiquei fuçando no saite da prefeitura antes para descobrir o que, e como, eu poderia fazer o que eu tinha de fazer, uma coisa enfadonha como tudo aquilo que envolve a burocracia, mas com um nome bastante perverso, sugerindo o filhote monstruoso de uma desbragada luxúria com a tortura mais terrorífica: uma AVERBAÇÃO. Tomado por um acesso insuspeitado de esperança – a esperança com frequência é uma emoção que ataca os desesperados, passe o paradoxo – fui até o departamento, melhor dizendo, fui até a REPARTIÇÃO, localizada na travessa Mário Cinco Paus, curioso nome de um jornalista que perseguiu, em 1911, quatro anarquistas russos que assaltaram uma casa de câmbio na rua Uruguai, cuja história foi contada por Rafael Guimaraens em A Tragédia da Rua da Praia.
Peguei o bilhete, entrei na sala de espera com ar-condicionado a 20°C combatendo os 35°C lá de fora, e me sentei confortavelmente em bancos estofados ao lado de outros bravos cidadãos que, como eu, precisavam resolver suas pendências financeiras, cumprindo seus deveres cívicos antecipando a paz de uma consciência tranquila.
Fiquei ali sentado com uma provável cara de apalermado, num engano d’alma ledo e cego, lembrando que quando eu era contínuo (em português castiço se diz office-boy), dos 11 aos 15, a gente esperava em pé em todos os bancos, exatorias, Correios, foros etc, e nenhuma casa ou apartamento de Bento Gonçalves possuía ar-condicionado, muito menos em REPARTIÇÃO pública.
Falando em contínuo, por que perder a oportunidade e não lembrar do Neville d’Almeida? O Anibal Damasceno Ferreira achava uma merda, mas eu gosto daqueles filmes inspirados nas obras de Nelson Rodrigues. Tenho uma cena na cabeça com a Regina Casé humilhando um pretendente, chamando-o de “Contínuo! Seu contínuo! Você não passa de um contínuo!”, mas o que encontrei foi esta, igualmente maravilhosa, em Os 7 Gatinhos:
Esses filmes do Neville muito contribuíram para minha formação cultural, mas também, e talvez principalmente, para a minha educação onanística, quando assistia ao Cine Brasil da tevê Bandeirantes, apreciando Sônia Braga, Lucélia Santos, Vera Fischer, Christiane Torloni e – talvez seja uma idiossincrasia – a Nina de Pádua. Importante também é registrar a Silvia Bandeira, que, apesar de nunca ter trabalhado num filme do Neville d’Almeida, fez um strip inesquecível em Bar Esperança – O Último que Fecha, um dos filmes brasileiros mais lindos de todos os tempos.
Eu disse onanística, mas isso é um equívoco em relação a Onã (Gênesis 38:8-10). Vai lá e confere. Onã não é um masturbador, é apenas alguém que “deita o sêmen no chão”, para não engravidar a cunhada. Ou seja, onanismo seria a prática do coito interrompido, não a da masturbação, exceto pela punheta nos instantes finais para ejacular. Venceu na história a interpretação de que onanismo seria masturbação, quando, como se percebe claramente lendo o versículo, não passa do bom e velho “eu tiro na hora”.
Como eu ia dizendo, em Bento não tinha ar-condicionado em lugar nenhum, porque não era preciso, os prédios ainda não eram esses horríveis caixotes de aço e vidro de hoje em dia, e à noite sempre refrescava para abaixo dos vinte graus.
Não sei como era em Porto Alegre. Sei que agora, sentado no banco relativamente fofinho de uma sala refrigerada, tudo me pareceu bastante civilizado. Uns 20 minutos depois toca o sinal, eu olho pro telão indicando o meu número, acompanhado por uma voz feminina (I.A) que o anunciava em alto e bom som (para que ouvisse caso fosse cego), pedindo para me dirigir ao guichê 4.
Que momento! É agora, suspirava no meu íntimo, que eu, cidadão respeitável e, enquanto esperava o atendimento, efetivamente respeitado, tratado à base de ar-condicionado e banco fofinho (embora sem o anedótico pão-de-ló), poderia regularizar minha situção na Fazenda do Município, AVERBANDO o que havia para ser AVERBADO. Averbemos, averbemos, eu repetia, como quem rezasse em silêncio, haverbemus, haverbemus…
O funcionário foi muito gentil. É um cara legal, coisa que qualquer um veria antes mesmo de se sentar diante do balcão, aquele cara que de longe a gente já sente que é um boa praça, o tipo sorridente emanando boa vontade, o exato oposto do burocrata estereotípico. A nossa conversa durou uns dois minutos, durante os quais ele me explicou, com polidez e afeto, que eu deveria voltar pra casa e fazer tudo pelo saite ou pelo aplicativo da prefeitura. Claro que sim, concordei, é óbvio. Afinal, por que alguém ainda cogitaria, em 2025, resolver uma pendência com a prefeitura…na prefeitura?
No setor privado, canalhamente, transferem o trabalho para o “usuário” (como se fosse um drogado), obrigando a clientela a não apenas pagar, mas a trabalhar para a empresa da qual compra o serviço. E no setor público cada vez mais ocorre a mesma forma de despersonalização, de terceirização, de transferência, o que é, no mínimo, muito pouco cívico. Se eu tenho dificuldades com a tecnologia, me pergunto o que não sofrem os velhos, desesperados nas filas dos bancos e das repartições tentado entender como resolver os seus problemas através de um celular embaçado com a tela estilhaçada.
Funcionários públicos recebem hordas de cidadãos aparvalhados e, ao invés de lhes resolver os problemas, indicam o uso de saites e aplicativos, para que o próprio infeliz, um idiota tecnológico como eu, faça o trabalho que ele, o funcionário, deveria fazer, e que o poder público teria a obrigação de oferecer e realizar através de seus contratados.
No futuro, restarão apenas as enfermeiras e os cuidadores, num grande asilo público?
Trabalho há quinze anos no setor público, três no município em Bento, 12 no serviço federal, na Ufrgs. Aprendi algumas coisas. Pensei, meditei, refleti, e finalmente é chegado o momento. Tenho algo importante a declarar. Atenção, Universo (vocês três que ainda estão me lendo aí do outro lado):
– Tudo o que é dito de bom sobre o serviço público é verdade. Tudo o que é dito de mau, também.
Formulando dessa forma não corro o risco de ir para a cadeia. A ver.
Saio da Secretaria da Fazenda e passo pelo Mercado Público. Nos bares entre o Chalé da Praça XV e a Borges de Medeiros ocorre um encontro de sambistas e chorões toda quarta-feira às 15h e 30m. Fiquei ali escutando alguns minutos e tava bom, gostei especialmente da fritação do solista, com um cavaquinho elétrico mandando brasa. A eletrificação, na linhagem principiada por Dodô e Osmar, depois com o Armandinho da Cor do Som e Pepeu nos Novos Baianos, já é algo integralmente enraizado no samba. Eu gostei porque tinha uma distorção no cavaco parecida com a do pedal fuzz, provavelmente involuntária, decorrente da baixa qualidade do amplificador e do caixa de som, uma baixa qualidade que neste caso é pra mim um acepipe estético de sonoridade bem setentista, lembrando aquelas guitarras abelhudas, sabe? Bem abelhudas, tipo essa da rapeize crazy people d’A Bolha:
Saio do samba e, do outro lado, entre o Chalé e o Mercado, assisto de longe a um culto evangélico mambembe – não encontro melhor definição -improvisado nas escadinhas do Largo Glênio Peres, com dois violonistas cantores, mais um pastor, fazendo uma música que me parecia sertaneja, intercalada por louvores exaltados, numa pregação ao mesmo tempo furiosa e amorosa com o rebanho de desgarrados que os ouviam, espalhados de forma desordenada. Eram miseráveis, bêbados, nóias, desesperados, putas, trabalhadores precariados, infelizes de toda sorte, aqueles que já perderam tudo, menos a esperança. Eram os esquecidos de sempre, esperando a parúsia.
José Hildebrando Dacanal disse numa de suas últimas entrevistas: “Se não fossem os evangélicos, a bárbarie brasileira seria ainda maior”.
Sigo o caminho, passo pela padaria Haiti, e vou até a Ninja Som, na Coronel Vicente, comprar uma estante para partituras. Lá encontro Victor W. Thomas, e retomo a conversa iniciada há sete meses atrás, quando ele me indicou suas músicas. Fui para casa e escutei os fonogramas e gostei da qualidade dos arranjos para metais e piano, e ainda em maio retornei à loja e lhe dei minhas impressões. Espantado fiquei quando ele me revelou que, tirando o seu violão de náilon, todo o resto era MIDI, samplers de instrumentos reais, compostos por ele em seu notebook através de um tecladinho. Acho que nem o ouvido treinado de um bom produtor conseguiria perceber a diferença. Eu não percebo. “Chega de singles”, me diz o Victor, “agora estou preparando um álbum”.
Do Mercado Público tenho duas recordações sonoras marcadas no meu coração. A principal é a do carro dos sonhos. Rogério Bernardes, o confeiteiro mágico, fazia o seu anúncio de camelô de forma encantadora. Era hipnótico ouvi-lo declamar:
É o carro dos sonhos freguesia. Sonhos de creme, sonhos de chocolate, sonhos com mumu e goiaba ao sonho. Sonhos bem fresquinhos e deliciosos.
Sonhos bem fresquinhos e deliciosos. Sonhos por apenas um real e cinquenta.
E a promoção: leva quatro sonhos, paga só cinco reais,
leva quatro sonhos por apenas cinco reais.
O que me intrigava especialmente era a sintaxe da oração “goiabada ao sonho”, poética e misteriosa. Depois de um tempo, apaguei a gravação que o filho do Rogério me mandou por whattsapp. O leitor pode ouvi-la, entretanto, através desta música da Supervão, banda de São Leopoldo que compôs uma canção em homenagem ao carro dos sonhos do Mercado Público de Porto Alegre.
A outra lembrança sonora, igualmente melancólica, é a de é ouvir Kraftwerk, Spiegelsaal (hall of mirrors), saindo potente de um porta-malas aberto naqueles domingos de inverno no centro abandonado e deserto
Esta do Kraftwerk eu não sei se é memória minha ou se é uma memória de meu amigo Joel Carbonera, que me relatou isso há muitos anos e, depois de ouvi-la, talvez a tenha adotado como minha. Quer dizer, pode ser que eu apenas lembre do que ele se lembra e me contou, uma memória adotiva que se internalizou involuntariamente, ou eu também caminhava pelo centro e tinha um maluco lá que sempre tocava Kraftwerk para as ruas escuras e desertas do centro à noite. É tudo possível, inclusive que tudo não passe de fantasia.