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Cinema
Leituras
Leituras #3 – Breve romance de sonho
25/01/2026
Stanley Kubrick era jovem quando leu Arthur Schnitzler, autor cujo interesse por sexo, amor e morte o fascinava. Inúmeras vezes quis filmar a novela “Breve romance de sonho”. Foi seu filme derradeiro, concluído uma semana antes de falecer, em 19 de julho de 1999. O roteiro foi escrito por Frederic Raphael, desafiado a transpor a história de ciúme e fantasias sexuais de um casal burguês na Viena do império austríaco para a Nova York da memória afetiva de Kubrick, nascido e crescido no Bronx.
Americano exilado na Europa como Stanley, o escritor premiado com o Pulitzer narra em “Kubrick: De olhos bem abertos” o longo (e penoso) trabalho de adaptação da novela. Para curiosos desvela sua rotina com Kubrick e assume o fascínio pelo cineasta, mas também reflete sobre as diferenças entre as funções do roteiro e da direção. No mundo duro e implacável do cinema compara seu trabalho de reescrever o roteiro à sina de Sísifo obrigado por Zeus a rolar a pedra até o topo da montanha.
Filmar era a arte de Kubrick. Seus filmes jogam com ambiguidades, as coisas não são explícitas. Seu refinamento visual começava pela depuração da história no jogo de possibilidades do roteiro. Ao longo de dois anos, entre 1994 e 96, eles se encontraram apenas quatro vezes, ocasiões em que Raphael foi levado à mansão do diretor, em Childwickbury. Porém, conversavam quase todos os dias por telefone e fax acerca de mudanças nas cenas, nos diálogos etc. “Um fardo que foi um privilégio”.


O relato de Raphael combina trechos de seu diário, reconstituição de diálogos com Kubrick e reflexões sobre o ofício ao qual trazia sua experiência de romancista, contista, resenhista, autor de biografias e roteiros para filmes e séries. Sua escrita habilidosa suscita prazer e expectativa.
As conversas se restringiam aos problemas da roteirização ou outros assuntos, mas nunca sobre o filme a ser feito. Há sempre uma incerteza se um roteiro se transformará num filme, é uma contingência do cinema, mas no caso, além de Kubrick ser paranoico com sigilo, estava sem filmar há quase 10 anos. Eles se falaram pela última vez em junho de 1996, as filmagens iniciaram em novembro e Raphael soube da morte do diretor por uma notícia na televisão.
Uma das maiores dificuldades da transposição da história do século 19 para a Nova York na qual Kubrick cresceu, é a premissa do casamento. Sem que tenham disso clareza, falta excitação sexual na relação do casal Bill (Tom Cruise) e Alice (Nicole Kidman), afundados num pântano de estabilidade feliz. Quem, nos dias atuais, ainda acredita que um casamento frustrante precisa ser mantido? “De Olhos Bem Fechados” pode ser anacrônico, porém, é para mim um dos grandes filmes do cinema. Ao embaralhar fantasia e realidade toca nas confusões do desejo e em nossas vãs ilusões e isso em nada mudou porque a instituição casamento colapsou. Kubrick fez o mais pessoal de seus filmes e, para isso, contou com a inestimável ajuda de um roteirista tenaz.
“Kubrick: De olhos bem abertos” [Geração Editorial, 1999]