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Leituras
Leituras #6 – As boas mulheres da China
26/03/2026
Não existe regime político, geografia ou período histórico que salvaguarde as mulheres da violência de gênero. Na China de Mao Tse Tung eram estupradas em nome da “reeducação” promovida pela nefasta Revolução Cultural. Os relatos dessas e outras opressões foram ouvidas com inestimável compaixão e amorosidade pela jornalista Xue Xinram [@xinranxue2024]
No contexto da abertura política, iniciada em 1983 por Deng Xiao Ping, Xinran fez de seu programa de rádio “Palavras na brisa noturna” um meio de conhecimento da intimidade das mulheres chinesas, solapada por tradições antigas e décadas de totalitarismo político e repressão sexual.
Entre 1989 e 1997 discutiu – com cautela, pois ainda vigiada pelo controle estatal – a condição feminina na China moderna, abordando vida íntima, violência familiar, opressão e homossexualismo. Reuniu alguns desses relatos em As boas mulheres da China: vozes ocultas [Companhia das Letras, 2003], publicado na Inglaterra, para onde mudou-se em busca de liberdade de expressão.
Poucas vezes a leitura de um livro me abalou tanto.


Jornalista que é, Xinran reportou os fatos. Percebeu, com seu programa, que havia um enorme anseio das mulheres para falar. Tornou-se conhecida por viajar para entrevistá-las, ouvir seus relatos e contá-los pelo rádio. As histórias apresentadas em 15 capítulos têm em comum a memória da humilhação e do abandono: estupros, casamentos forçados, desilusões amorosas, miséria e preconceito.
No formato do jornalismo literário da melhor qualidade, Xinran apresenta mulheres de idades e condições sociais diferentes. Com notável habilidade reconstitui os sentimentos e as emoções e toca o leitor ao fazer emergir pessoas destroçadas simplesmente por serem mulheres.
A TV Cultura, em seu programa Roda Viva, entrevistou Xinran, em 2009, quando a escritora veio ao Brasil apresentar seu livro na FLIP – Festival Literária Internacional de Paraty. Pode ser vista no YouTube – https://cultura.uol.com.br/videos/13755_xinran-xue-07-09-2009.html