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Página do Juliano Dupont
A Paixão de Rumi e Shams de Tabriz
14/05/2026
[Publicado em A paixão de Rumi e Shamis de Tabriz – by Juliano Dupont]
Um amor violento perpassa o universo
Hei de lançar-me bêbado sem medo
a contemplar a alma do universo:
ou meus passos se apressam ao destino,
ou perco a vida, além do coração.

Um iraniano nascido há mais de 800 anos é o poeta mais lido pelos americanos. Considerando a vendagem das incontáveis edições, em traduções variadas e adaptações de toda sorte — algumas como auto-ajuda -, Rumi é o poeta mais vendido nos E.U.A..
Rumi (1207—1273) sobreviveu não apenas à destruição quase completa da Pérsia — origem do Irã moderno — pelo império mongol no século XIII, mas também à violência da Ordem dos Assassinos (os Hashashins) e das Cruzadas, que percorriam, além da Pérsia, a Anatólia onde viria a passar a maior parte de sua vida. Triunfando sobre o tempo, sua glória se estende aos milhões não apenas como o poeta mais lido pelos americanos, mas como o maior poeta e o mais importante místico do Islã.

A guerra atual contra o Irã sugere uma comparação com as hordas mongóis comandadas por Gengis Khan, mas Trump é demasiado farsesco, e o paralelo talvez não resista à tamanha grandiosidade. A guerra, no entanto, continua.
A vitória de Rumi e da poesia mística persa sobre as intempéries da história não alivia a dor nem evita a destruição das pessoas que sofrem no presente, mas consola. É bom saber que nem Donald Khan nem Gengis Trump vencem na história — os grandes poetas, sim.
O latino Horácio reconheceu sobre a conquista da Grécia por Roma:
A Grécia conquistada conquistou seu feroz vencedor
Ou numa tradução ainda mais cruel:
A Grécia conquistada conquistou o selvagem inculto vencedor.
(Graecia capta ferum victorem cepit, em Epístolas II, 1, 156).
Há outro aspecto, paradoxal apenas à primeira vista: apesar de ser o maior poeta islâmico e de o Irã haver conquistado a alma americana com sua obra, Rumi triunfou também sobre o Islã.
Porque o místico é uma espécie de herege, realizando na carne a experiência espiritual, antes e além dos formalismos de uma religião instituída. Ele encarna o religioso de um modo existencial — ou talvez seja melhor dizer: o místico é a experiência religiosa no seu mais alto grau, a dissolução de si na comunhão com o universo.
Tal radicalidade é intolerável às religiões constituídas, às quais só resta esfriar a mensagem dos profetas através da institucionalização de uma igreja oficial. “Religiosos demais”, além do suportável à vida ordinária, os místicos são diluídos pela tradição, que reduz a experiência religiosa à política, à moral, ao dogma. Comparada à experiência mística, a religião é uma bebida sem álcool — uma cachaça desalcoolizada.
O que fazer, se não me reconheço?
Não sou cristão, judeu ou muçulmano.
Se já não sou do Ocidente ou do Oriente,
não sou das minas, da terra ou do céu.
O mundo é apenas Um, venci o Dois.
Sigo a cantar e a buscar sempre o Um.
Alguns críticos não se pejam e tascam: Rumi é o melhor poeta e o maior místico de todos os tempos. Sobre essas afirmações tenho dúvidas, porque não leio o persa em que Rumi compunha seus poemas, nem o árabe, o turco e o grego com o que os temperava. Difícil, portanto, aquilatar seu valor sendo eu tão ignorante — e não falar nenhuma dessas línguas é uma tragédia cultural. As versões em línguas europeias, porém, são nada menos que maravilhosas.
Batizado como Jalal Al-Din Muhammad, Rumi nasceu numa aldeia do atual Tajiquistão, à época sob jurisdição de uma cidade que se encontra hoje no Afeganistão. Quando as hordas mongóis de Gengis Khan devastaram o Império Persa, a família do poeta mudou-se para Konya, na Anatólia.
Konya foi preservada da destruição graças a um tratado de vassalagem, transformando-se numa espécie de protetorado mongol. Vem de Konya o apelido Rumi — “o romano”, “habitante de Rum” — forma como se referiam à Anatólia romana durante o Império Bizantino.
Descendente de uma tradicional linhagem aristocrática de teólogos, Rumi assume a profissão do pai, lecionando para o sultão e os vizires, pregando a multidões que vinham de toda parte — até mesmo da Índia chegavam excursões à Konya para escutá-lo.
No meio do caminho desta vida, aos 36 anos, Rumi tem o encontro que mudaria o seu — e o nosso — destino. Shams de Tabriz, com 60 anos, era uma espécie de santo, um “louco de deus”, uma personalidade avassaladora. Irrequieto, buscador insaciável, Shams procurava uma alma para compartilhar suas inquietações espirituais.
Foi justamente a respeito desse encontro que o acaso me presentou com um romance arrebatador: O Faminto: os dizeres de Shams de Tabriz, da autora franco-iraniana Nahal Tajadod.

Na juventude quase todas as leituras são formadoras ou deformadoras, mas raramente insignificantes. Tudo nos impressiona, deixando algum tipo de marca indelével. À medida que envelhecemos, acumulando milhares de páginas e volumes no lombo de nossa fatigada alma, a surpresa ou o espanto tendem a diminuir de intensidade. A cada tanto, porém, em meio à rotina tantas vezes banal da vida de leitor, somos atingidos por um raio.
E era um raio que me atingia a cada página de O Faminto, publicado pela editora Ercolano, em tradução de Régis Mikail. Nahal Tajadod conta a história do encontro em primeira pessoa na perspectiva de Shams de Tabriz, alguns anos depois de haver escrito a mesma história do ponto de vista de Rumi em Roumi, le brûlé (Rumi, O Queimado, 2004). Seria ótimo se a editora Ercolano o publicasse também.
Para compor o fluxo de consciência de Shams, a autora dá voz a esse homem que nunca escreveu utilizando-se dos seus discursos recolhidos por seguidores no volume Maqalat — Os Dizeres de Shams de Tabriz, bem como de algumas citações de Rumi.
“Estamos aqui no próprio coração do sufismo”, diz Jean-Claude Carrière na apresentação. Tajadod foi esposa de Carrière — informação não indicada pela editora, o que achei uma falta, considerando a fama do prefaciador.

Shams é um incêndio. Sempre exaltado, tem uma personalidade em tudo oposta à de Rumi. Selvagem, intratável, rude, possui, entretanto, uma sabedoria de luz indômita, de uma explosão incoercível.
(A partir daqui, as citações destacadas vêm todas do livro de Tajadod, exceto quando indicadas). Shams declara:
O fogo era meu elemento e o caos, a minha morada.
Provocador, dizia encontrar sinais do Islã nos infiéis, e não nos muçulmanos. Diante da Grande Mesquita de Damasco, observando os vestígios de um antigo templo romano e a ruína de uma igreja cristã, comenta:
Tal como esses monumentos, nós éramos palimpsestos, misturando todas as religiões, línguas, escrituras, origens. Quem compreendia isso compreendia o mundo.
Muito tempo antes de encontrar Rumi, Shams antecipa o que irá fazer ao comparar o seu próprio ser à carnificina mongol:
Eu me encontrava nas estradas da Síria quando fiquei sabendo da conquista de Samarcanda por Gengis Khan. Eu tinha então trinta e cinco anos. Aconteceu dois dias antes do ano novo. Essa conquista também anunciava, à sua maneira, uma nova era, a dos escudos de carne humana, das pirâmides de cabeças decapitadas, dos cálices repletos de sangue preto.
‘Eles chegaram, arrancaram, queimaram, mataram, pilharam e se foram’, dissera um habitante de Bucara após a passagem dos mongóis.
Essa frase me atormentava. Ela falava sobre mim. Eu procurava fazer o mesmo.
Com quem? Ainda não sabia.
Dois anos depois, quando eu ainda estava na estrada, os mongóis chegaram às portas de Tabriz, minha cidade natal. Os moradores não sabiam para onde fugir. Atrás dos vencedores, terras queimavam dia e noite. Adiante deles, traçavam-se promessas de carnificina.
Finalmente o mundo se parecia comigo: arrebentação, agitação, tremores.
“Eu procurava fazer o mesmo”, diz Shams. E o faria.

Rumi, bem ao contrário, era uma personalidade serena. Teólogo cumpridor da lei, praticava as cinco orações ao dia, o jejum de um mês ao ano, a peregrinação a Meca e as pregações nas mesquitas. Mas não era o suficiente: Rumi aspirava também a uma revelação.
Quando se encontram pela primeira vez, Rumi e Shams passam quarenta dias a sós numa conversação ininterrupta. Outras fontes dizem que o isolamento durou três meses. O número quarenta, porém, evoca o retiro espiritual (chilla) comum ao sufismo, além de evocar os quarenta dias de Jesus no deserto. O que aconteceu realmente entre eles por todo esse período é motivo de muita especulação.
Shams é “sol”, em árabe e em persa. O sol é deus, a origem da luz; a lua, o seu reflexo, o poeta e o poema da criação. Rumi era a lua. Ambos representavam, um para o outro, o Divino Encarnado, como a figura teofânica de Beatriz para Dante. O amor humano dá acesso ao amor divino. Muito além do modelo mestre-discípulo, Rumi e Shams viviam em fusão absoluta.
Descontente, Shams procurava um “abalo brutal”:
Nem mulher, nem lar, nem fronteira. Eu sabia o que não queria. Mas o que eu procurava parecia não ter limites.
Agora, nenhuma comida pode me satisfazer. Vou, venho, corro, grito, pois já não sei mais de que tenho fome. Busco uma comida que não conheço, que talvez não exista.
Esse ponto de encontro entre o céu e a terra, essa chama, esse fogo, eu o conheci. Ele também me buscava. Os sedentos buscam água. A água também busca os sedentos. Maulana e eu havíamos nos encontrado.
Maulana, “Nosso Mestre”, é como Shams trata Rumi — forma como os muçulmanos o chamam até hoje.
Shams recomenda a Rumi o contrário do que pratica: cercar-se da lama da vida, evitar a ascese e o retiro; cercar-se de homens e até de “tomar esposa”.
Em seguida à união com Shams, Rumi deixará de ser teólogo, jurista e mestre espiritual para se tornar dançarino e poeta. O encontro entre eles é conhecido no Islã como “o encontro entre dois oceanos”.
Shams estabeleceu, porém, três condições, conforme a descrição oferecida por Tajadod em O Faminto:
União, mas sob certas condições. A primeira: viveríamos sem hipocrisia, como se um e o outro estivessem sozinhos, cada qual no seu canto. Eu queria ter a liberdade de ir à latrina e peidar como bem entendesse.
Segunda condição: Maulana não me trataria nem como mestre, nem como discípulo. O caminho que eu lhe propunha se encontrava em outro lugar.
Terceira condição: ele se desfaria de seu presente e de seu passado; mas também de seu conhecimento, a menos que se impregnasse inteiramente dele e se tornasse enfim ignorante. Maulana deveria se submeter a provações, aceitar inversões, rejeitar o reinado, perder a propriedade, abandonar os outros, lavar seu coração, esquecer o conhecimento das coisas.
Ele aceitou todas essas condições.
Shams era de família ismaelita, dissidentes islâmicos da Tribo dos Hashashins, cujas práticas rituais de alteração de consciência provavelmente Rumi aprenderia com o amado em sua busca do êxtase místico através da dança.
A partir do encontro com Shams, Rumi divulgou o Sama, dança extática em que dervixes rodopiam em torno de si imitando o movimento dos planetas, ligando o céu e a terra numa dança giratória.
Rumi pergunta se Shams havia chegado até Deus através da dança. Assentindo com a cabeça, Shams lhe responde:
Dança, tu também, que chegarás a Deus!
Na escola e no círculo mais íntimo de Rumi crescem o rancor e o ressentimento. Os discípulos não entendem o que haveria em Shams para o mestre se rebaixar tanto, regredindo ao que lhes parecia a condição submissa de um aprendiz.
Dezesseis meses depois do primeiro encontro, acossado pelo ódio dos alunos de Rumi, Shams abandona Konya e volta a peregrinar sem destino. Os primeiros poemas de Rumi são as cartas endereçadas a um Shams desaparecido.


Um ano depois, procurado pelos mesmos discípulos que o acossaram, Shams retorna a Konya e se estabelece casando com a filha adotiva (ou enteada, segundo outras fontes) de Rumi. Pouco tempo depois do retorno, vítima de uma conspiração, foi assassinado pelos seguidores de Rumi. Para uma certa tradição sufi, Shams teria sido esfaqueado pelo filho de Maulana.
Rumi escreveu sua gigantesca obra — a mais importante da mística islâmica árabe e persa — entre 1245 e sua morte em 1273. Compunha em estado de êxtase: cantava, recitava, ditava; os alunos memorizavam e escreviam.
Contendo mais de 44 mil versos, batiza o volume de O Divã de Shams de Tabriz. Divã — ou Divan — é o nome para uma coleção de poemas. Atribuindo a autoria de seus poemas a Shams, Rumi sugere que apenas os teria escrito sob inspiração do mestre. Num poema, ele diz:
Tornei-me Shams-ud-Din, a luz de Tabriz.
Deixo agora que ele conte minha história,
pois é ele o dono de todas as minhas palavras.
Poemas místicos – Divan de Shams de Tabriz, tradução de José Jorge de Carvalho, attar editorial.
Gazais — forma lírica comum a árabes e persas — terminavam muitas vezes com o nome do autor, como assinatura e também como personagem dentro do poema. No Divã de Rumi, muitos poemas terminam com o nome de Shams ou com a palavra silêncio.
Deus é referido como o Amado — forma comum usada pelos poetas muçulmanos, especialmente os sufis. Na obra de Rumi é difícil distinguir Deus de Shams: o Amado refere-se aos dois. O amor de Shams e o amor a Deus eram um só amor.
Shams diz:
O amor era o fogo e a razão, fumaça. Diante do amor, a razão saía correndo. Submetendo-se a mim, Maulana dispensou a razão, expulsou a tristeza, integrou a alegria.
O amor exige a alegria de estar juntos. Rumi realiza o Amado dentro de si. Não há diferença entre erotismo e deus para o místico.
Shams era água, Rumi, o sedento – o Faminto. Sams queria esvaziar Rumi de si mesmo: “Eu obrava para destruir”.
Eu era a mão que abria sua jaula. A fama era uma jaula. O saber era uma prisão, e Maulana, o detento. Eu era a chave, o libertador.
Não se pode edificar sem destruir, sem incendiar. Eu havia destruído Maulana. Ele ia se consumar e ressuscitar. Com o fim dos trapos, um novo homem, novos versos, um novo poeta.
Para Rumi, Shams era o “relâmpago que abrasa a árvore e a fazia desabrochar”. Rumi era a árvore: ele queria queimar, elevar-se e narrar a combustão.
Três frases curtas contam a história de minha vida:
Eu era cru, eu fui cozido, eu queimei.
Rumi
Rumi confessa a Shams: “Antes, eu estava procurando um ouvinte. Agora, quero que você me liberte da minha própria palavra…”.
Shams conclui:
Meu objetivo final ia enfim se realizar: fazer dele um poeta silencioso.
Rumi arremata:
Calo minha boca.
Direi o resto do poema
de boca fechada.
Poemas místicos – Divan de Shams de Tabriz, tradução de José Jorge de Carvalho, attar editorial.
Em um túmulo, Shams lê um epitáfio: “A vida foi apenas uma hora”. “Para mim”, ele diz, “a vida foi apenas aquela hora passada perto de M.”.
Maulana, meu mistério, não era o que se poderia compreender, mas o que nunca se acabará de compreender. Aceita-se isso quando se vive no amor.
Maulana respondeu ao Amado:
Seja teu amor deste ou do outro mundo, terminará por conduzir-te à outra margem.
Para certo sufismo, afirma Marco Lucchesi, Deus criou o mundo porque desejava que o amassem. O Universo se move na busca amorosa de Deus (o Amado). Um contemporâneo daqueles persas — Dante — escreveu: “O amor que move o sol e as estrelas”.
“A extensão da palavra é estreita, a extensão do sentido é vasta”, disse Shams. Vasta e longa é a arte, breve a vida. E mais breve ainda é a falsa glória de Khans e Trumps.
Rumi foi teólogo, jurista e pregador. Depois de encontrar Shams de Tabriz, tornou-se poeta e dançarino. Ao fim, alcançou o silêncio. A sua música jamais será esquecida.
Para quem quiser continuar:
O Faminto: os dizeres de Shams de Tabriz, de Nahal Tajadod. Pela Editora Ercolano.
A Flauta e a Lua — Poemas de Rûmi (editora Bazar do Tempo), tradução de Marco Lucchesi.
Poemas místicos – Divan de Shams de Tabriz, tradução de José Jorge de Carvalho, attar editorial. Aqui.
Boa leitura.
[Publicado em A paixão de Rumi e Shamis de Tabriz – by Juliano Dupont]