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Leituras
Leituras #9 – V13 O julgamento dos atentados de Paris
21/07/2026
Emmanuel Carrère tem o dom da narrativa: sabe contar bem uma história. É paciente e aceita os riscos. Os atentados terroristas islâmicos da sexta-feira 13 (vendredi, em francês, por isso V13), em novembro de 2015, na casa de espetáculos Bataclan e em outros locais de Paris, foram julgados entre 2021 e 2022, ao longo de nove meses. Carrère acompanhou todas as audiências, ouviu os relatos das vítimas, as alegações dos réus e descreveu o trabalho da corte. Sua abordagem daquilo que definiu como “uma vitrine do Estado francês para mostrar que o direito era a resposta apropriada à barbárie” é absolutamente fascinante.
Um dos aspectos mais envolventes de V13 O julgamento dos atentados de Paris é a descrição dos personagens: Carrère é empático sem perder o discernimento; busca compreender antes de julgar. Quanto às vítimas, é fácil: elas sofreram, e seu sofrimento leva o autor às lágrimas e lhe tira o sono. Em relação aos réus, contextualiza o que leva jovens sem propósito nem futuro a morrer pelo Estado Islâmico e especula sobre Salah Abdeslam, o acusado que ajudou a preparar os atentados, mas não se explodiu na fatídica ocasião nem jamais justificou seus motivos. A narrativa descreve a encenação da justiça. Carrère admira o brilhantismo dos procuradores encarregados da acusação e as personalidades exuberantes, de ego poderoso, dos advogados, especialmente daqueles que têm a árdua tarefa de defender os réus, um direito garantido pelo Estado francês.
Sinto-me próxima de Carrère; ele diz o que sente. Desde O adversário (2000), sobre o impostor Jean-Claude Romand, que assassinou a própria família para sustentar uma mentira, o autor escreve em primeira pessoa. Colocar-se na narrativa foi a maneira que encontrou de contar histórias reais extremas, diante das quais considera não haver distância objetiva que lhe pareça confortável. Desde então, também deixou de escrever ficção.
Alguns livros são pessoais, íntimos, caso de Yoga (2020), sobre sua internação psiquiátrica em razão da depressão. Outros abarcam muitas pessoas e eventos extraordinários, como o tsunami que devastou o Oceano Índico em 2004, matando milhares de pessoas. Ele e sua família estavam de férias no Sri Lanka e escaparam milagrosamente, mas presenciaram várias tragédias, que relatou em Outras vidas que não a minha (2009).
Carrère compartilha sua experiência do mundo em uma linguagem simples e envolvente. Não faz autoficção; recusa esse modismo. Utiliza as ferramentas da literatura para escrever o que Capote definiu como “romance não ficcional”. Cobriu o julgamento do V13 para a revista Le Nouvel Obs pela oportunidade de presenciar algo imenso e inédito, além de observar o funcionamento da justiça. Também o interessavam a religião e suas mutações patológicas, capazes de levar pessoas à loucura e a atos extremos. Seu desejo mais íntimo, no entanto, era deixar-se tocar e transformar pela escuta de experiências extremas de morte e de vida.
A maneira como escreveu, manejando com habilidade a imensidão de detalhes e informações dos processos, criando suspense e dando forma à dolorosa experiência dos sobreviventes e dos familiares das vítimas, faz de V13 uma leitura apaixonante, que coloca o leitor diante do teatro da justiça, espetáculo ao qual não é possível ficar indiferente.
