-
Página do Juliano Dupont
Esquizofonia
22/07/2026
[Publicado em Esquizofonia – by Juliano Dupont]
Música em fone de ouvido é transformar suruba em punheta
Há mais de um século, a maior parte da experiência musical das pessoas realiza‑se por meio de fonogramas — as gravações — num processo que Murray Schafer chamou de esquizofonia: a separação, no espaço e no tempo, entre o som, o produtor do som e o público. Essa dissociação da fonte sonora do contexto em que foi produzida e do contexto em que ocorre a audição é algo absolutamente novo (inaudito!) na história. Com a inteligência artificial, o processo de esquizofonia intensifica‑se: já não é preciso sequer um ser humano tocando um instrumento, sequer operando um computador – o músico foi, enfim, dispensado.
As vantagens de poder ouvir tudo o que se deseja, sozinho em casa, são muitas; seria ocioso arrolá‑las aqui. As desvantagens parecem menores, mas seus efeitos e consequências são profundos. A principal delas é que, ao nos limitarmos a ouvir música pronta, gravada, nossa humanidade se empobrece, porque a música é uma atividade social e uma prática coletiva, e foi assim por milênios. Reduzi-la a trilha sonora em fone de ouvido é transformar suruba em punheta. Nada contra a masturbação — bem ao contrário — mas não dá pra comparar.
Somos condicionados biologicamente a produzir música, como o somos a falar. Todo ser humano saudável passa boa parte da vida cantando ou assobiando (atividade em declínio, admito), vocalizando ou entoando a bocca chiusa uma melodia. Se alguém não o faz, trata‑se, provavelmente, de alguém reprimido e/ou muito infeliz, que prefere “deixar para os profissionais”.
A gravação transformou a música em documento, num processo não muito diferente da mutação antropológica que a partitura provocou ao convertê‑la em texto, em pontos e desenhos sobre um pentagrama.
Assim como a invenção da escrita permitiu maior complexidade de pensamento, ideias e narrativas, a invenção da partitura foi uma enorme vantagem, possibilitando uma planificação arquitetônica inédita e um desenho narrativo muito mais vasto da composição. Essa complexificação promoveu a primeira grande ruptura na história: a especialização radical com o surgimento do intérprete profissional e a separação entre músico e plateia.
Um milênio depois da partitura, a gravação permitiu à música popular fenômenos semelhantes: ao transformar‑se em fonograma, a música passou a funcionar como uma espécie de texto e documento. E com isso não apenas a música erudita da tradição europeia, mas todo tipo de música popular passou a ser interpretada por “especialistas” ou “profissionais”. O amador, figura suspeita, foi coagido a se calar e a bater palmas.
A separação entre intérprete e plateia na música popular, promovida pela invenção do fonograma, diminuiu a prática musical entre pessoas comuns. A música é uma atividade social e uma prática coletiva, eu dizia: não apenas se ouve sozinho em casa, no toca‑disco ou no celular.
Etnomusicólogos dizem que as pinturas rupestres localizam‑se nas áreas com a melhor acústica nas cavernas. Nossos ancestrais eram perspicazes: depois da labuta, reuniam‑se em volta do fogo para ouvir sons, rabiscavam as paredes e dançavam em transe.
Amalgamadas em ritos sagrados, as artes estavam integradas. No mundo secularizado e desencantado, restou‑nos a performance dessacralizada — ou encenada por uma farsesca religião da arte, como no mundo clássico, num “wishful thinking” de desesperados em busca do Absoluto irremediavelmente perdido.
A prática amadora deveria ser mais incentivada, assim como um jogo de futebol entre amigos. A melhor partida, com os melhores jogadores, não se compara ao prazer de jogar uma pelada com os nossos camaradas. Contemplar a música feita por outros é maravilhoso, e o fonograma, numa discoteca ou nos catálogos das plataformas musicais, pode nos servir como os livros em uma biblioteca, não o contesto, mas reduz a música a uma apreciação mental, reprimindo — amputando — o desfrute de uma atividade social entre corpos ofertando-se mútuo prazer.
Apenas ouvir música e nunca a realizar, suspeito, pode ser comparável a assistir a um excelente filme pornográfico: é bom, a gente goza, mas é um gozo solitário. Não tem a qualidade da coisa real, não é sexo. E não é sexo com amor — aí é incomparável.
O mesmo ocorre em relação a dança. Se todos dançássemos, seríamos também muito mais felizes, tenho certeza.
Mas somos preguiçosos, né?, vocês me dizem.
Sim, sim, eu sei.
[Publicado em Esquizofonia – by Juliano Dupont]