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Cinema
Aurora, de Murnau, na 50ª Mostra de São Paulo
28/10/2026
A exibição de Aurora (1927), obra-prima do cineasta alemão F. W. Murnau, em uma magnífica cópia restaurada em 4K, com trilha sonora executada ao vivo pela Orquestra Brasil Jazz Sinfônica, foi um dos momentos excepcionais da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 2026.
A história é simples: uma mulher da cidade grande (Margaret Livingston), em férias no interior, seduz um homem (George O’Brien) que até então vivia feliz com a esposa (Janet Gaynor). Enredado no jogo erótico e movido pelo desejo, ele consente no plano da amante de matar a inocente mulher durante um passeio de barco. O suspense, a expectativa, o horror da esposa ao perceber as intenções do marido, sua fuga, o arrependimento dele e a reconciliação do casal em meio à balbúrdia da cidade compõem algumas das mais belas cenas da história do cinema.
Murnau já era um diretor consagrado do cinema alemão quando recebeu um generoso orçamento de William Fox, fundador da Fox Film Corporation, para realizar nos Estados Unidos um filme de prestígio para o estúdio, conhecido por suas produções mais populares. Com total liberdade criativa, o cineasta inspirou-se nas pinturas bucólicas dos mestres holandeses e em sua própria experiência com o expressionismo. Aurora destaca-se também pelo trabalho inovador de câmera, com cenas filmadas por duas câmeras, sob a direção de fotografia de Charles Rosher e Karl Struss.

O que mais me encantou, porém, na esplêndida sessão no Cultura Artística — um belíssimo teatro que eu ainda não conhecia em São Paulo — foi a execução da trilha sonora. Descubro que ela foi composta por Timothy Brock, maestro e compositor norte-americano especializado em obras de concerto do início do século XX, criadas para acompanhar filmes mudos em execuções ao vivo. Brock compôs dezenas de partituras, entre elas a de Aurora, executada pela Brasil Jazz Sinfônica em perfeita sincronia com as imagens.
Um dos grandes prazeres da sessão foi alternar o olhar entre a tela e a orquestra, tentando descobrir quais instrumentos produziam os sons que intensificavam as emoções das imagens.