-
Artigos
Leituras
A Casa Verde de Mário Vargas Llosa
21/01/2019

Durante o X Festival Internacional de Cinema da Fronteira, em novembro último, na cidade gaúcha de Bagé, numa daquelas conversas com amigos que não vemos de longa data, Tabajara Ruas, falando sobre literatura latino-americana, elogiou o romance A Casa Verde, de Mário Vargas Llosa. É um dos seus preferidos, considera obra-prima absoluta da literatura do continente. Fiquei instigada – não conheço – e ainda provocou: “tenho inveja de ti que vais ler pela primeira vez”! Tabajara é escritor, roteirista e diretor de cinema que admiro; aquilo fisgou minha curiosidade e o resultado foi uma estimulante jornada intelectual.
Mario Vargas Llosa tornou-se escritor para revelar demônios que o atormentavam. São palavras dele, escrever é tarefa difícil. O ganhador do Nobel tinha 9 anos, em 1945, quando morou por um ano em Piúra, cidade da região desértica do Peru, na qual conheceu o mar, descobriu que humanos fazem sexo, e o sentimento nacionalista de ser peruano. Em 1957, ao final de seus estudos na Universidade de San Marcos, acompanhou uma expedição que pesquisava tribos da Amazônia à região do Alto Marañon. Na selva conheceu outro mundo. Dessas vivências e das contradições humanas na fronteira entre civilização e barbárie fez surgir A Casa Verde, seu segundo romance, de 1966.
Entramos n’A Casa Verde no fluxo dos acontecimentos, no meio da ação. Um texto sem marcação de parágrafos intercambia livremente personagens, diálogos e gestos; carrega o leitor na vertigem dos fatos. A sequência é cinematográfica. Como se estivéssemos a assistir um filme, vemos duas freiras missionárias desembarcarem de uma lancha, no coração da selva, e, ajudadas por soldados, se aproximarem de um grupo indígena – são aguarunas. Chegam perto, identificam a situação, alguns índios adultos, uma velha com crianças, oferecem presentinhos, trocam olhares, pensamentos e diálogos se confundem no texto que avança num bloco contínuo. Com gesto rápido e certeiro as freiras pegam duas meninas e disparam em fuga. É um sequestro. Confusão, perseguição, luta corporal, sobem na lancha, as meninas esperneiam, o sargento xinga, o motor está ligado, as crianças choram, o grupo parte, amém.
A cena parece vir das brumas do século 17, quando as missões jesuíticas se empenharam na catequização dos indígenas. Não é isso. O romance se desenrola entre os anos de 1920 e 1960, alternando Santa Maria de Nieva, povoado encravado na Amazônia peruana e a cidade de Piúra. Numa estrutura complexa, que mistura ação, diálogos e longos trechos reflexivos, o romance desafia o leitor ao embaralhar espaço, tempo, personagens, fatos e imaginação. A casa verde foi um prostíbulo que atiçou a imaginação dos piuranos e do menino Mário no ano de sua infância na cidade. É um dos lugares onde encontramos os personagens extraídos pelo escritor do fluxo do tempo histórico para as páginas do romance. Tudo no livro parece mágico, com aquele realismo onírico que marca a literatura latino-americana dos anos 60. No artigo História Secreta de um Romance, que acompanha a edição de A Casa Verde, de 1971, pela Nova Fronteira, Llosa nos assegura que foi testemunha de tudo o que escreveu.
O livro é dividido em quatro partes e nelas se intercalam segmentos de diálogos e blocos de ação misturando eventos e pensamentos. Do embaralhamento de tempos e lugares emergem os personagens que, como num quebra-cabeças, vão se definindo. É um processo, ao final, inconclusivo. Ler A Casa Verde é um desafio intelectual – é quase impossível sentir afeto pelos personagens – a atenção do leitor é consumida no esforço de compreender a história. São dezenas, alguns fixados em seus núcleos dramáticos, outros cujas vidas se cruzam. Bonifácia e o sargento Lituma se destacam, mas é difícil considerá-los protagonistas. Ela da selva, menina catequizada pelas freiras, expulsa da missão em Santa Maria de Nieva, cuidada pelo casal Nieves e Lalita, torna-se esposa de Lituma. Ele de Piúra, sargento do exército, acusado de assassinato, orgulhoso de pertencer à Mangachería, bairro miserável de Piúra, famoso pela festa e alegria. O último encontro desses seres desesperados é na casa verde, ela com a alcunha “selvática”, ele um sujeito violento, incapaz de ficar indiferente às provocações de um bêbado patético.
Mário Vargas Llosa foi o sexto latino-americano a ganhar o Nobel de literatura, em 2010. Depois de A Casa Verde vieram obras que projetaram seu talento: Conversa na Catedral (1969), Tia Júlia e o Escrevinhador (de 1977, quem sabe o livro mais lido), outros romances, peças de teatro, memórias e ensaios. Llosa é daqueles escritores que fazem da reflexão de seu ofício ato de criação, o que resultou em Cartas a um Jovem Escritor (2007), no qual discorre sobre as técnicas do romance. O interesse pela estrutura do texto se expressa numa obra sofisticada, que rompe com os pressupostos canônicos da narrativa. Em A Casa Verde, romance do princípio da carreira, a experimentação é tão – ou mais – importante do que o conteúdo. Para um leitor qualquer, que busca na literatura uma interpretação do mundo, é um livro difícil. É compreensível o fascínio para escritores, caso de Tabajara Ruas, pois o interesse pela arquitetura do texto é parte do prazer da leitura.