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A Névoa existencial de Unamuno
28/06/2018

Miguel de Unamuno expressou na literatura questões filosóficas do seu tempo. Nascido em Bilbau, em 1864, fez parte da chamada Geração de 98, safra espanhola de grandes intelectuais como o poeta Antonio Machado e o filósofo Ortega Y Gasset. Foi dramaturgo, ensaísta, romancista e professor de filosofia, inclusive reitor da Universidade de Salamanca, de onde foi afastado pela ditadura franquista em 1936, ano de sua morte. De sua vasta obra e vida intensa, com passagens pela política e acalorados debates sobre a identidade espanhola, permanece Névoa (Niebla) romance escrito em 1907 e publicado em 1914.
A inteligência de Unamuno se expressa numa obra que fica entre a tradição e a ruptura, articulando com extrema habilidade uma narrativa que parece simples apenas na superfície, mas toca em questões humanas fundamentais. E faz isso com notável bom-humor. O protagonista da história é Dom Augusto Pérez, um rapaz que, ao sair de casa numa manhã, sem ter um destino definido, tem sua atenção capturada por uma bela jovem que passa. Ele a segue e o resultado é um apaixonamento na melhor tradição das novelas românticas. O relato que Unamuno faz, e que prefere chamar de nivola, em lugar de novela ou romance, tem a estrutura de uma comédia de erros, no caso, uma comédia dramática. A história se desdobra entre as dúvidas de ser ou não amado e o desejo que nele despertam outras mulheres. Agora que descobriu a paixão Augusto vê encanto onde antes sequer percebia as mulheres, que agora existem.
Existência é a palavra-chave em Névoa. Miguel de Unamuno é tido como um filósofo existencialista cristão. O que significa? O Existencialismo, consolidado como pensamento no século XX, principalmente na obra de Martin Heidegger O ser e o tempo (1927), implica em abandonar os argumentos da tradição metafísica essencialista. A pergunta sobre a substância do ser, o que é, só é possível porque, para ser é necessário, antes, existir. Existimos no mundo e somos (pré) ocupados pelas coisas do mundo. Essa é a condição humana que Unamuno desenvolve no livro, numa sofisticada estrutura narrativa em que reflete sobre o processo de criação artística.
Augusto Pérez vive, como se poderia dizer, “no mundo da lua”, é um metafísico, não tem materialidade. A paixão por Eugenia produz o sentimento que lhe dá vida. Ela, por sua vez, namora Maurício, o que não impede que considere as investidas do jovem apaixonado e o leve a um sentimento de dúvida e frustração, aspectos de nossa miserável condição humana. Conversa com amigos, pede conselhos, está exausto e tem desejo de se suicidar. Mas antes que isso aconteça, visita o próprio autor da obra da qual é personagem. Vai a Salamanca e encontra Miguel de Unamuno no escritório onde o professor e escritor de filosofia desenvolvia seus trabalhos. Estupefato descobre que não pode morrer, pois não existe!
O recurso à metalinguagem permite ao escritor o exame do tema filosófico. Só há de morrer quem está vivo. A vingança do personagem é informar ao seu algoz, aquele que domina a pena e o seu destino, que ele, ser de ficção, produzido pelo imaginário, pela mente criativa do homem, poderá viver para sempre. Já o destino do encarnado escritor, está selado. A consciência da finitude produz o que Heidegger chamou de “angústia”. Somos para a morte. Enquanto isso, podemos nos divertir com as peripécias do melancólico Augusto Pérez.
Metalinguagem
A narrativa começa no Prólogo, aquilo que a teoria literária chama de paratexto é, aqui, já o próprio texto. A apresentação de Névoa é feita por Víctor Goti que se apresenta como amigo do personagem Dom Augusto e realiza a tarefa a convite de Unamuno. O jogo de falsidade e verdade que o escritor estabelece com o leitor se instala de imediato como uma dúvida sobre o que existe – pode ser referenciado no mundo -, e o que é ilusão, produto da mente que imagina.
Víctor é mais do que amigo, é confidente de Augusto. Tem status diferenciado em relação aos demais personagens, pois através dele o escritor examina o ato da escritura. É Víctor, como alter ego de Unamuno, que apresenta a “nivola”, gênero que o escritor inventa e com o qual apresenta Névoa aos leitores. O nome também joga numa dimensão simbólica por referir o estado de enevoamento mental do protagonista.
O livro tem dois níveis narrativos. O principal envolve o apaixonamento de Augusto e os dilemas daí decorrentes. Esse dilema é o das relações afetivas e emocionais entre homens e mulheres, desdobrado em uma série de narrativas introduzidas ao largo da linha narrativa principal. São pequenos contos, narrados com extrema habilidade, de modo a oferecer variações na abordagem do problema do casamento. São historietas cômicas que introduzem pontos de vistas diferentes ao problema de Augusto com as mulheres. Sim, a voz predominante é masculina! Os homens são reféns do sentimento e das mulheres. Elas destroçam o coração dos homens que, afinal, parecem estar sempre em busca da mãe.
Névoa é um livro que se lê com prazer. Cenas rápidas, como se fossem esquetes teatrais ou marcações de um roteiro pronto para filmagem, produzem o efeito engraçado ao qual se pretende a novela satírica de Unamuno. Para além do humor – e junto com ele – o tema é a dimensão trágica da vida para a qual buscamos pontos de equilíbrio, ainda que instáveis e transitórios. O amor e a arte podem ser bálsamo para a inexorabilidade da finitude.