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Página do Juliano Dupont
A Prostituta Sagrada
24/11/2024
Artigo de Juliano Dupont reproduzido de sua página A Prostituta Sagrada – by Juliano Dupont
Ele que o abismo viu: a eternidade programada em 12 tabletes
Uma obra em língua estrangeira, ao ser traduzida, se torna parte da cultura nacional. Poucos países como o Brasil tem a sorte de contar entre a sua fortuna literária com uma edição tão espetacular de Gilgámesh. A proeza é do importante estudioso da literatura clássica, Jacyntho Lins Brandão, por realizar um trabalho inestimável ao verter do acadiano o primeiro poema épico conhecido no mundo.

A Epopeia de Gilgámesh, cujo título original é Ele que o abismo viu, foi escrita em doze tabuinhas de barro pelo autor Sin-léqi-unníni a partir de uma longa tradição oral e escrita que remonta ao reinado de Gilgámesh em Úruk. Ao contrário de tablets eletrônicos com obsolescência programada, os doze tabletes de argila foram preservados por 3300 anos, e estão programados para a eternidade.
Logo no princípio de Ele que o abismo viu, o rapsodo-narrador dirige o leitor a uma pedra lápis-lazúli onde Gilgámesh mandara escrever toda a história de seus feitos. Ou seja, metalinguagem, cuja primazia tantas vezes já foi atribuída ao Quixote, um bebê com pouco mais de 400 anos. Tudo é tradição.
A obra é espetacular não apenas por sua “modernidade”, ou por antecipar temas que se repetiriam em narrativas da Bíblia, como o dilúvio, ou em temas homéricos, como a húbris de um guerreiro, mas – seja lá quem ou quantos forem Sin-léqi-unníni – por sua altíssima qualidade literária.
Enkídu e Gilgámesh
Gilgámesh é dois terços deus, um terço homem. Fadado a morrer devido à sua dimensão humana, a parte homem almeja desesperadamente a imortalidade divina.
Um gigante sobre a terra, Gilgámesh promoveu grandiosas obras para reconstruir o reino de Úruk arrasado pelo dilúvio. Civilizador, instituiu ritos para toda a humanidade. Entretanto dominava abusivamente os súditos, executava seus projetos de construção com trabalho forçado, provocava brigas com os homens, transando, ou estuprando, qualquer mulher que lhe agradasse, fosse ela a esposa de um de seus guerreiros ou a filha de um nobre. Todas as virgens lhe pertenciam por direito, obrigadas a passarem a primeira noite de núpcias com ele, antes dos desconsolados e chifrados noivos.
Os súditos, exaustos, protestam aos deuses contra tal desmedida, que lhes atendem criando a partir do barro um ser tão magnífico que seja compatível em força para combater os excessos de Gilgámesh.
Enkídu é descrito como um quadrúpede peludo, vivendo como um animal entre os animais, mamando em seus seios, pastando nos prados e bebendo em seus cochos. É a nêmesis quase perfeita.
A mera visão da criatura, porém, é tão assustadora aos agricultores e pastores do reino, que são obrigados a pedir ajuda a Gilgámesh. Para educar Enkídu, o rei incumbe a prostituta Shámhat a missão de domesticá-lo e urbanizá-lo através do pão, da cerveja e do erotismo, símbolos da civilização.
Com as gazelas ele come grama,
Com o rebanho aperta-se na cacimba,
com os animais a água lhe alegra o coração.
E viu-o Shámhat, ao homem primevo,
Mancebo feroz do meio da estepe.
Este é ele, Shámhat! Oferece os seios!
Teu púbis abre e teu sexo ele toque!
Não tenhas medo, toca seu alento!
Ele te verá e chegará junto de ti:
A roupa estende, deixa-o deitar-se sobre ti,
E faze com esse primitivo o que faz uma mulher:
Seu desejo se excitará por ti,
Estranhá-lo-á seu rebanho, ao que cresceu com ele.
Abandonou Shámhat os vestidos,
Abriu seu púbis e ele tocou seu sexo,
Não teve ela medo, tomou seu alento,
A roupa estendeu, deixou-o deitar-se sobre si,
Fez com esse primitivo o que faz uma mulher
E o desejo dele se excitou por ela.
Seis dias e sete noites Enkídu esteve ereto e inseminou Shámhat.
Depois de farto de seus encantos,
Sua face voltou para seu rebanho.
Viram-no, a Enkídu, e se puseram a correr,
Os bichos da estepe fugiram de sua figura:
Contaminara Enkídu a pureza de seu corpo.
Inertes tinha os joelhos, enquanto os bichos avançavam.
Diminuído estava Enkídu, não como antes corria.
Mas agora tinha ele entendimento, amplidão de saber.
Voltou a sentar-se aos pés da meretriz.
(trecho de Ele que o abismo viu)
Shámhat
Na Suméria, e depois na Babilônia, as meretrizes constituíam uma classe sagrada. Centro do culto a Ishtar, deusa do amor sexual equivalente a Afrodite, Úruk era uma cidade muito conhecida pela beleza de suas numerosas prostitutas, empregadas nos templos.
Rascunho de homem, Enkídu é o adão primordial, cuja humanização ocorre através da experiência sexual provocada por Shámhat. Depois de dormir com a mulher, o rebanho com que antes vivia o recusa – ele não é mais um deles. Expulso da natureza, agora Enkídu é parte do mundo humano.
Shámhat ensina tudo o que Enkídu precisa saber para ser um homem. Ele fica indignado com o que ouve sobre os excessos de Gilgámesh, então viaja para Úruk para desafiá-lo. Quando chega, Gilgámesh está prestes a forçar a entrada no leito de casamento de uma noiva. Enkídu se intromete e bloqueia a passagem do abusador. Os dois lutam de forma brutal por um longo tempo, e Gilgámesh finalmente prevalece. Depois disso, eles se tornam amigos e partem em busca de uma aventura, na qual Enkídu morrerá tentando salvar o seu companheiro.
A epopeia segue acompanhando Gilgámesh em sua busca pela imortalidade até que, ao fim, aceite sua condição mortal.
Enkídu é o animal que se torna homem. Gilgámesh, um semi-deus. Todo o drama humano está representado nessa solidão cósmica: o abandono da natureza e o anseio pela transcendência.
Shámhat é o fiel da balança, a justa medida entre a bestialidade do instinto e a barbárie da ambição desmedida. Entre o animal e o além-homem, a mulher é que é o Homem: a humanidade em sua inteireza.
Artigo de Juliano Dupont reproduzido de sua página A Prostituta Sagrada – by Juliano Dupont