-
Página do Juliano Dupont
Canção de amor, fermento da rebelião
23/08/2024
Artigo de Juliano Dupont reproduzido de sua página Canção de amor, fermento da rebelião – by Juliano Dupont
Canção de amor, fermento da rebelião
Se o épico é a narrativa de heróis na guerra, da formação ética com intuito civilizador, como observamos não só na Ilíada e Odisseia, mas em Gilgamesh e no Mahabharata, o lírico parecia uma invenção de Safo de Lesbos até que descobrissem alguns antecedentes: os mais curiosos para mim são os papiros, óstracos e estelas encontrados em Deir el-Medina, cidade egípcia localizada na Necrópole de Tebas.
Tendo existido por quase cinco séculos, a vila foi criada com o objetivo de reunir artesãos para trabalharem na decoração e construção dos templos e túmulos de faraós, rainhas e nobres.
Deir el-Medina possuía um atributo raro no segundo milênio a.c.: era uma cidade com boa parte da população alfabetizada, incluindo as mulheres. Além de poemas líricos, algumas das melhores obras literárias do antigo Egito foram descobertas nesse sítio, incluindo a sátira e a ficção.
E a coisa só melhora: encontraram papiros retratando orgias, com desenhos de lindas cantoras tocando instrumentos de cordas – e fazendo sexo ao mesmo tempo.
O moderno conceito de cantautor (compositor, singer-songwriter) nasce em Deir el-Medina, segundo Ted Gioia. No livro A Subversive History of Music, o autor apresenta a excitante hipótese de que há uma relação estreita entre o fato de que a cidade onde surge a canção de amor, Deir el-Medina, seja também a cidade que registra a primeira greve da história, um conflito trabalhista durante o reinado de Ramsés III, iniciado pela redução de grãos distribuídos aos trabalhadores.
Para Gioia, é preciso redefinir o que é considerado uma canção política. Segundo a compreensão mais ordinária do assunto, a expressão de uma emoção íntima é o exato oposto de uma canção política. Porém, a História revela outra história: poucas coisas são mais ameaçadoras aos donos do poder do que a manifestação de individualismo e do comportamento autocentrado incorporado numa canção de amor.
A expressão pessoal, para Gioia, está ligada a uma expansão dos direitos humanos. Cantar os próprios sentimentos seria um ato subversivo que promoveria um senso radical de individualismo responsável e instigador ao mesmo tempo de uma demanda por justiça social.
Para defender a hipótese, Gioia cita desde as canções de Deir el-Medina e Safo aos trovadores medievais, chegando à Sinatra, Stonewall, Elvis e Beatles – todos estavam “apenas” tocando canções de amor, mas que eram também, à sua maneira, canções de protesto, porque almejavam transformar o mundo, as normas e convenções sociais. Em música, o pessoal é político, e sempre foi assim.
A partir dessa ideia, uma canção de amor deixa de ser uma silly love song para ser transformar numa potente e subversiva invenção, ampliando nosso conhecimento sobre a natureza humana, tornando-se, ao mesmo tempo, uma ameaça política ao contrapor os sentimentos e emoções privados ao oficialismo da narrativa tribal, dedicada a estabelecer e reforçar os laços opressores da coletividade.
Talvez seja um tanto exagerado limitar o épico aos interesses de um nacionalismo (tomando licença para usar um termo anacrônico) e atribuir ao lírico, ou mesmo a uma canção de amor, o poder de subversão.
Há mistura de gêneros, e encontraremos lirismo no épico e epicidade no lírico. A síntese mais revolucionária dos gêneros foi realizada por Walt Whitman – o Homero, o Dante da Democracia. I Sing Myself, cantava o bardo americano. E cantando a si mesmo, cantou toda a humanidade.
Épico ou lírico, o poeta, de todo modo, é um animal perigoso, mesmo sendo pelego da tradição. No quadro de Rembrandt, Aristóteles Contemplando um Busto de Homero, o estagirita está em pé, acariciando do alto a cabeça do poeta, reduzido (ou elevado) a um busto de mármore, transformado em lenda.

Alguns entendem que o filósofo contempla a eternidade de Homero, enquanto ele, Aristóteles, estaria encerrado em sua materialidade terrena, cheio de anéis, colares e adornos vários. Para mim, Aristóteles admira não a glória de Homero, e sim o poder do seu próprio triunfo: foi a verdade da ciência, representada pela obra do estagirita, que venceu na história, ainda que Homero tenha conquistado a eternidade literária.
Para Aristóteles, Homero havia ensinado todos os poetas a mentirem com qualidade – mentem em busca de uma verossimilhança de ordem estética. Mentiras reveladoras de verdades emocionais e psicológicas, mas ainda assim mentiras, ou, na melhor hipótese, mímese. Aristóteles parece dizer no quadro: tua eternidade de poeta depende de mim, o pensador; poetas só triunfam na história porque nós – os teóricos, os cientistas, os filósofos – os legitimamos e os transformamos em mármore, em lenda, em mito.
Se isso é mera especulação minha, com Platão não há equívoco possível: queria expulsar os poetas de sua República, e nem Homero, tão grego, tão cívico em sua ética, poderia se salvar da sanha punitiva do filósofo que inventou o totalitarismo.
Que lugar poderia ter na República, então, Safo de Lesbos, a revolucionária cantora confessional que inaugura o lírico no ocidente, que compunha sua autobiografia em poemas, transformando emoções privadas em música? Ou os revolucionários líricos e grevistas, bravos cidadãos de Deir el-Medina – não seriam a prova, na lógica castrense de Platão, de que o subjetivismo de poetas líricos fosse uma “fraquejada”, um amolecimento do espírito guerreiro e ordeiro necessário à sua República?
Pensando melhor, a canção de amor talvez seja, realmente, o fermento da rebelião.
Enheduana
Tanto Safo quanto os poemas de amor do Egito antigo foram traduzidos por Guilherme Gontijo Flores que, junto a muitos exploradores poéticos brasileiros, como Giuliana Ragusa, Rafael Brunhara e tantos outros, estão nos dando o privilégio de desfrutar da poesia arcaica (tão moderna, tão eternamente contemporânea da nossa sensibilidade).
Entre as traduções de Gontijo, em parceria com Adriano Scandolara, está o caso mais surpreendente para mim, pela ignorância do meio literário a respeito.
No século XXIII a.c, ou seja, há mais de quatro mil anos atrás e quase dois mil anos antes de Safo, a princesa Enheduana, poeta e sacerdotisa da cidade suméria de UR, atual sul do Iraque, compôs hinos em louvor da deusa Inana, que viria a se transformar em Ishtar e outros deuses de outros povos no decurso do tempo.
Ehneduana não é apenas a autora mais antiga – é o primeiro escritor a assinar uma obra cujo nome conhecemos. Seus hinos não tem semelhança direta com o lirismo de Safo, mas já apresenta uma linguagem ousada e, por vezes, obscena.
Feministas e identitaristas, na crista da onda literária, ditando modas e prêmios, raras vezes citam Ehneduanna, o primeiro autor conhecido pela história. Merecia um busto em cada praça, um monumento em todas as cidade do mundo.

Artigo de Juliano Dupont reproduzido de sua página Canção de amor, fermento da rebelião – by Juliano Dupont