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Página do Juliano Dupont
Cartas não de amor
16/03/2026
[Publicado em Cartas não de amor – by Juliano Dupont]
Zoo, ou Cartas não de amor – Viktor Chklóvski

O que me interessou neste livro amoroso, desde o título, foi a condição imposta pela musa ao cortejador: que não lhe escrevesse cartas de amor.
Qualquer assunto, menos amor.
O teórico e crítico de literatura Viktor Chklóvski estava apaixonado pela escritora e intelectual Elsa Triolet, os dois russos amigos do poeta Maiakóvski, exilados em Berlim no início dos anos 1920.

Elsa lhe implorou em carta:
Querido, amado. Não me escreva sobre o amor. Não é preciso. Estou muito cansada. […] O cotidiano nos aparta. Não te amo nem te amarei. Tenho medo do seu amor, um dia você há de me injuriar pelo fato de agora me amar assim.[…] Talvez o seu amor seja grande, mas é infeliz.
Das 30 cartas que compõem o livro, sete são de Elsa. Viktor reescreveu e transformou a correspondência numa espécie de romance epistolar, e achei muito curioso que, décadas antes de Truman Capote batizar A Sangue Frio como “romance de não-ficção”, alguns teóricos russos classificassem Zoo, ou Cartas não de amor como um “romance documental”.
Se amor era tema proibido, a ausência se faz presente em todo o livro, e quaisquer assuntos sobre os quais Chklóvski disserta se transformam em metáforas do amor: o zoológico, a literatura, as frutas na feira, as avenidas de Berlim, os edifícios de São Petersburgo, o automóvel, a ciência, a vida dos emigrados russos na Alemanha, até esboços de teoria literária se insinuam como metáforas da paixão. Proibido e ausente, o amor está vivo em cada digressão, em cada frase do livro.
Você precisa de um sanatório, meu querido.
Elsa não tem nenhum interesse em Viktor, exceto a amizade, e avisa:
Seja leve – senão, em matéria de amor, vai cair do cavalo. A cada dia que passa você fica mais triste. Você precisa de um sanatório, meu querido.
Chklóvski pareceria o típico apaixonado – bobo -, o adulto que, sob o efeito avassalador do desejo, regride ao jovem ingênuo, não fosse a alquimia deste sofrimento em obra de arte, a transmutação da miséria amorosa em ouro erótico e literário.
Erótico pelo poder de sugestão, desde o princípio do livro, ao tomarmos consciência do veto ao amor, pressentindo que muitos dos assuntos, genéricos na superfície, serão, no fundo, a mais ardorosa expressão do amor proibido. E literário porque as cartas apresentam ideias surpreendentes, compostas sempre em lindas frases.
Sarcástico, para xingar um intelectual russo de quem não gosta, Chklóvski chama-o de “seboso qualquer de língua murcha”. Bobo apaixonado, mas muito criativo, prossegue a relação epistolar inventando e descobrindo assuntos para conquistar a difícil e exigente destinatária. Pretextando falar de um macaco no zoológico, desenha na verdade um retrato de si próprio:
Sem ter o que fazer, o macaco decerto padece de tédio. As pessoas lhe parecem espíritos do mal. E o dia inteiro padece de tédio este pobre estrangeiro num zoo interior.
Viktor sofre, tenta elidir o amor, inutilmente:
Seis horas da manhã.
Eu tenho permissão de lhe telefonar às dez e meia.
Quatro horas e meia, depois mais vinte horas vazias, e entre elas a sua voz.
Estou sentado no quarto da minha doença, penso em você, nos automóveis. Assim é mais engraçado.
E conclui com uma variação ainda melhor que o famoso título de Heny James, A outra volta do parafuso:
Você girou a minha vida como um parafuso sem fim gira uma engrenagem.
Você mergulha até o fundo do mar sem palavras e traz do fundo do mar só areia, que escorre como lodo.
E eu tenho muitas palavras, tenho força, mas aquela a quem digo todas as palavras é uma estrangeira.
O seu mundo para mim não tinha endereço.
Elsa Triolet, além de escritora e intelectual, entrou na história como musa, igual à sua irmã, Lília Brik, por quem Maiakóvski era apaixonado e a quem dedicou Sobre Isto, poema que nós brasileiros muito conhecemos através do trecho em “O Amor” interpretado por Gal Costa.

Chklóvski não aprovava a educação europeia e critica o cosmopolitismo de Elsa, que se tornará uma escritora em lingua francesa, além de esposa do poeta Louis Aragon a partir de 1928:
Ália [apelido de Elsa], perdoe meu amor infeliz; diga, em que língua você dirá a última palavra, na hora da morte?
Eu lhe ofereço vários sortilégios, comparo você com todos. Dizem que as pessoas se recolhem à psicose conscientemente, como a um mosteiro. É mais fácil se imaginar cachorro do que viver como ser humano.
Eu quero rasgar em pedaços e espalhar pela cidade aquilo que eu amo.
E em seguida, passa a fazer o elogio a Marc Chagall e sua capacidade de se manter russo e provinciano mesmo em Paris:
Na arte é preciso ter cheiro próprio, e cheiro de francês só francês tem.
Viktor conclui irônico, como em todas as outras cartas:
Viver de verdade é doloroso.
Nisso você me ajuda.
Chklóvski redige muito sobre o automóvel, novidade que o fascina, chegando numa das cartas a afirmar que a Revolução de Outubro só fora vitoriosa devido ao seu uso. Refletindo sobre máquinas e tecnologia do início do século vinte diz:
Um instrumento não é um mero prolongamento do braço do homem, mas ele mesmo, o instrumento, prolonga-se no homem. […]
A primeira oração é puro Mcluhan – a tecnologia é extensão do homem – e a segunda é a sua inversão, a descrição da nossa situação atual, em 2026: agora somos nós, os humanos, a extensão dos instrumentos e dos meios que criamos. Segue:
Por mais autêntico que seja um macaco no galho, o próprio galho exerce influência sobre a psicologia. […] A máquina transforma o homem mais do que qualquer outra coisa. […]
Um metralhador e um contrabaixista são um prolongamento dos seus instrumentos.
A estrada de ferro subterrânea, os guindastes e os automóveis são próteses da humanidade.
Aconteceu-me de ter de viver alguns anos em meio a motoristas.
Os motoristas se transformam segundo a potência dos motores com os quais se deslocam.
Um motor de mais de quarenta cavalos-vapor de potência já aniquila a velha moral.
A velocidade segrega o motorista da humanidade. […]
As coisas fazem do homem o que ele faz delas.
As coisas crescem ao nosso redor – agora há dez ou cem vezes mais coisas do que havia duzentos anos atrás.
É necessária uma apropriação individual do mistério das máquinas, é necessário um novo romantismo a fim de que, nas curvas, elas não joguem as pessoas para fora da vida.

Sobre a tecnologia e a ciência, retorna algumas vezes em outras cartas, mais filosófico:
As coisas, sobretudo a máquina, transfiguraram o homem.
Agora o homem sabe apenas colocá-las em funcionamento, e elas então seguem adiante sozinhas. Seguem, seguem e esmagam o homem.
Na ciência, a situação é bem séria.
A necessidade da razão e a necessidade da natureza divergiram.
Havia o alto e o baixo, havia o tempo, havia a matéria.
Agora não há nada. No mundo reina o método.
Método.
O método saiu de casa e passou a ter vida própria.
O “manjar dos deuses” foi encontrado, mas nós não comemos dele. […]
A construção de um novo mundo é hoje para nós muito mais um espetáculo do que obra nossa.
Chklóvski quer voltar à Rússia e na última carta do livro, endereçada não a Elsa mas ao Comitê Executivo Central, implora e lamenta:
Eu não consigo viver em Berlim.
Em razão de todo o meu modo de vida, de toda a minha experiência, estou ligado à Rússia de hoje. Só sei trabalhar para ela.
Não está certo que eu viva em Berlim.
A revolução me fez nascer de novo, sem ela não tenho como respirar. Aqui só é possivel sufocar.
É amarga como pó de carbureto a melancolia berlinense. Não se espantem pelo fato de eu escrever esta carta depois de ter escrito cartas a uma mulher.
Não tenho nenhuma intenção de introduzir no caso uma história de amor.
A mulher para quem eu escrevi nunca existiu. Talvez houvesse outra, boa companheira e amiga, com quem eu não soube me acertar. Ália [Elsa] é a realização de uma metáfora. Inventei uma mulher e um amor tendo em vista um livro sobre a incompreensão, sobre pessoas estranhas, sobre uma terra estranha. Quero voltar para a Rússia.
Tudo o que existiu – passou; a juventude e a autoconfiança foram tiradas de mim pelas doze pontes de ferro. Levanto o braço e me rendo.
Deixem-me entrar na Rússia com toda a minha singela bagem: seis camisas (três comigo, três na lavanderia), boras amarelas, lustradas por engano com graxa preta, e uma velha calça azul, na quel tentei, em vão, fazer um vinco [a calça social com vinco era um dos símbolos da moda europeia para Chklóvski].
Ficaremos juntos, mas em literaturas diferentes.
Duas décadas depois de publicado o livro, em carta de 14 de outubro de 1945, Viktor escreve a Elsa:
Tentei construir minha vida sem você e fracassei. Durante vinte anos escrevi sobre a separação. Ficaremos juntos, mas em literaturas diferentes.
Num dos prefácios ao livro, Chklóvski havia declara, aliviado:
Fiel ao amor: amo outra.
As cartas originais foram destruídas pela esposa de Viktor.

No saite da Ed.34: Zoo, ou Cartas não de amor