-
Página do Juliano Dupont
Cartinha ao Papai Noel
25/12/2025
[Publicado em Cartinha ao Papai Noel – by Juliano Dupont]
Roberto Muggiati já contou algumas vezes (aqui e aqui, por exemplo) sobre o dia em que recebeu, em Curitiba, um postal enviado por Jack Kerouac da vilazinha onde morava, carimbado pelo correio às 18h e 30m do dia 24 de dezembro de 1959. Muggiati se pergunta: “Será que Jack não tinha coisa melhor a fazer naquele dia – logo ele, tão católico – do que mandar um cartão para um obscuro correspondente do outro lado do continente?”.
A biógrafa Ann Charters registra que, nesse mesmo dia, Kerouac pôs para tocar A Paixão Segundo São Mateus, de Bach, e escreveu uma carta para Allen Ginsberg.
Kerouac devia estar de bobeira naquelas horas mortas que antecedem as festas. Em 1959, já era um alcoólatra dedicado. Aos 37 anos vivia solitário, com a mãe, em pleno auge do sucesso de On the Road.
Northport, onde residia, fica na ilha de Long Island, estado de Nova Iorque. Olho as fotos no google e sonho com o silêncio dos quintais e com a elegância de sua arquitetura vitoriana (leio tudo no wikipedia; para mim, arquitetura vitoriana não quer dizer nada – eu olho as fotos e me bastam).
Nunca gostei de Kerouac e concordo integralmente com a boutade cruel, mas precisa, de Truman Capote, quando disse que On the Road “não é literatura – é datilografia”. Tenho enorme simpatia por Jack Kerouac, apenas não aprecio sua obra, acho-o um mau escritor, embora reconheça sua importância.
Compaixão, mais que simpatia, é o que sinto pela solidão que projeto em Kerouac, pelas aflições no tempo do Natal e do Ano Novo. Se imagino Kerouac solitário, bem posso estar certo, mas é principalmente porque, provavelmente, é assim que me sinto.
Kerouac é um escritor medíocre? Não, eu sou. Kerouac, solitário? Não, eu me sinto assim. Talvez ele o fosse, e também coisas muito piores – não sei. Sei que o que eu digo a respeito de um outro fala, em verdade, sobre mim mesmo.
Não faço o bem que eu quero, mas o mal que não quero, escreveu São Paulo (Rm 7, 19). Frase que me perturba, pelo excesso de luz, revelando nossas sombras. Kerouac era católico – disto o Peninha não gosta de lembrar, muito menos de seu apoio à Guerra do Vietnã e de seu reacionarismo vulgar. Naquele dia em que enviou o postal para Muggiati, ouviu Bach e escreveu uma carta para Ginsberg, me pergunto se Kerouac foi também à Missa do Galo.
Associo a Paixão de São Mateus com Pasolini e Tarkovski, aos filmes que a plasmaram na memória. No youtube, por alguns anos, era o Erbarme Dich na versão de Karl Richter, com a contralto Julia Hamari, o vídeo com mais visualizações desta obra, um excerto de um filme-concerto para a televisão em 1971. Transbordando emoção profunda, o close em Julia imprime um páthos e, embora o Erbarme trate do arrependimento de Pedro em haver negado Cristo por três vezes, na filmagem a cantora se parece mais a Maria no Magnificat, ou uma pietá, a de Michelangelo ou a de Babenco, quando Marília Pêra amamenta Pixote num quarto miserável depois de abortar e jogar o feto no lixo de um banheiro imundo.
Devo estar à toa também eu, na modorra deste dia 24 abafado e nublado aqui em Bento, escrevendo estas mal traçadas para resistir ao Nada.
Depois do calor, a chuva. Depois da chuva, o sol entre nuvens. Que me importa? Os passarinhos cantam, e são tão chatos quanto as motos que cruzam, como enxames de insetos gigantes e extraterrenos, as ruas da cidade.
Querido Papai Noel,
escrevo-lhe esta depois de mais ou menos 35 anos. Confesso lembrar de ter-lhe enviado apenas uma carta, no princípio de minha alfabetização. Foi uma tarefa a pedido da professora, seguida por outras que enviávamos acompanhadas de presentes aos necessitados, pelo serviço de caridade iniciado exatamente durante minha infância, o Papai Noel dos Correios.
Depois disso, escrevi apenas bilhetes para a família, ou diretamente comunicava meus desejos à mamãe. Eu já sabia, mesmo criancinha, que os pedidos de presentes seriam interceptados pela mamãe antes de serem expedidos à Lapônia.
(Por que escrevo Mamãe, se nunca na minha vida disse mamãe, papai, vovó, vovô, titio e titia? Eu sempre falei apenas mãe, pai, vô, tio, tia. Mamãe era coisa ouvida em novelas e filmes – quem falava mamãe e papai eram pessoas que moravam no Rio de Janeiro ou em Los Angeles – na versão Herbert Richers. Escrevo mamãe para combinar com Papai Noel, mas fique registrado que acho frescura, não passando de um artificialismo necessário à coerência estética desta missiva.)
Papai Noel, confesso que a pedido da família já me travesti com roupas vermelhas, longas barbas brancas e gorro pontudo com pompom branco, exclamando ho ho ho para alegrar as crianças. Espero ter-lhe feito justiça.
A confissão mais difícil agora: eu perdi a crença no Sr. antes de perder a fé em Deus. Com Deus a crise foi muito profunda, não ocorrendo o mesmo com a descoberta de sua inexistência, Papai Noel. Sem o Sr., eu continuava a ganhar presentes no Natal, então não fez muita diferença o fato de o Sr. não existir, exceto como ficção, fantasia, lenda, mito, algo assim. Apesar de o Sr. não existir, atualmente julgo um incômodo ofensivo essa sua onipresença de fantasma onipotente, aparecendo em todos os lugares nos fins de ano.
Escrevo a presente carta não para lhe pedir presentes. Não quero tampouco lhe pedir a Paz no Mundo, nem triunfo do Amor Universal: seria falso e piegas, além de impossível, seria tão kitsch como se emocionar ouvindo Imagine de John Lennon, que também toca muito nessa época do ano com outra música em versão da Simone.
O Sr. não existe, e mesmo assim lhe escrevo: sou fraco e covarde, minhas ideias são todas periclitantes, sou um homem atormentado, escrevo por desespero, e me dirijo ao Sr. como quem rezasse, mas com a intenção de acertar as contas. Eu era ressentido, rancoroso e vingativo. No passado eu sonhava em perdoar a quem me tinha ofendido, em dar a outra face e amar o próximo, mas achava esse tal de próximo um distante, e o perdão não me parecia uma vontade deste mundo. O perdão, hoje, me parece natural – não por virtude ou sabedoria adquirida com a idade, mas por impotência e preguiça. A vingança, o ódio e o ressentimento nos custam muita energia. Não é perdão, então, o que sinto – é indiferença. A indiferença é uma grande virtude, raramente louvada como merece.
O que eu queria lhe pedir, Papai Noel, antes de mudar de ideia – porque eu sinto muitas coisas contraditórias ao mesmo tempo -, o que eu gostaria de ganhar de presente neste Natal seria a anulação de todos os desejos. Entenda: meu desejo é não desejar. Os desejos me consomem – da carne ao espírito – e me tornam infeliz, seja quando realizados, seja quando frustrados.
Quando realizados, os desejos disparam a busca por novos objetos de desejo que logo me enfadam; quando não são conquistados, me frustro, e os desejos frustrados – a maioria – me deixam numa miséria emocional profunda.
Quero de presente: não desejar mais presentes. Acho que o Sr. nunca leu os zen-budistas, contudo lhe digo mesmo assim: eu desejo o não-desejar. Um paradoxo ineludível.
Mas não seria isso, Papai Noel, pedir a própria morte? A vida não é exatamente esse atravessamento confuso de emoções, sentimentos, desejos? Ou o asceta, ao dominar o campo de batalha interior, atinge uma consciência elevada, o satori, a ataraxia, a Graça? O asceta realmente consegue superar a distinção entre o sofrimento e a alegria, ou não passa de um fugitivo da existência? O asceta é um homem plenamente realizado ou um auto-exilado da vida?
É o que me pergunto, e desta forma nem o desejo de não desejar consigo lhe pedir, por que não tenho segurança em minha vontade, nem na minha vontade de não ter vontades.
Talvez a resposta equilibrada esteja não em abolir o desejo, coisa impossível, mas em dar-lhe uma direção. É o que tentarei fazer, Papai Noel: informar (dar forma) aos afetos que me disputam, mas também neste ponto imediatamente brota a suspeita da minha arrogância: eu controlo ou sou controlado por meus desejos? Tenho vontade ou a vontade me tem?
Como o Sr. pode ver, as coisas que em adulto desejo e não desejo, tudo aquilo que me atormenta, as perguntas e dúvidas que pululam em minha mente, escapam do seu poder. O Sr. é simplório, apenas atende as necessidades materiais comezinhas dos que têm dinheiro para comprar trapos, trecos, tralhas e bugigangas que poluem a nossa vida. O Sr., Papai Noel, é uma versão degenerada dos Reis Magos, e eu não sou o messias. Com uma origem remota em São Nicolau, muitas tradições – cristãs e pagãs – foram se combinando ao longo dos séculos até chegar a versão atual do seu personagem criada pela Coca Cola.
Me pergunto de que forma comemoravam os meus antepassados ao dia de Natal? No Dia de Reis, ou no 24 e 25, apenas sem o Sr. ali de vermelho, barbado como um Javé decaído, mas risonho? Toda a memória do Natal antes do Sr., Papai Noel, foi destruída, e os rituais religiosos foram substituídos pelos ritos comerciais, pela Liturgia do Consumo. Até os ateus e agnósticos comemoram o Natal – é fácil trocar Cristo pelo consumismo hedonista mais abjeto representado pelo Sr., Papai Noel.
Eu não me tornei um comunista, mas agora que sou grandinho, Papai Noel, acho que concordo com a canção dos Garotos Podres. Li na Folha de São Paulo do último fim de semana que os autores estão sendo acusados de incitação à violência por uma canção escrita há 40 anos contra o senhor.
Afinal: o Sr. existe ou não? Se não existe, quem age em seu nome? Como o Sr. entra na justiça brasileira sendo um cidadão da Lapônia? O Sr. tem procuradores aqui e em todos os países do mundo?
Os Garotos Podres queriam ter escrito Papai Noel, Filho da Puta, mas quando lançaram a música, em 1985, ainda havia censura, então trocaram para Velho Batuta. Sei que a música lhe é ofensiva, mas não me parece calúnia, só uma difamação bastante justa e exata.
Segundo a denúncia, a letra de Papai Noel, Velho Batuta seria uma forma “subliminar da cultura da violência” e “atacaria crenças religiosas cristãs”.
O Sr. é ou não é cristão? Se for, acho-o contraditório, talvez até muito hipócrita e oportunista. O Sr. deve se lembrar da famosa passagem, citada nos quatro evangelhos canônicos, quando Jesus expulsa os vendilhões do Templo. Não lhe atormenta na consciência a suspeita de que sua imagem serve aos mais poderosos vendilhões do mundo, e que o Sr. trabalha hoje nem para Deus nem para César, mas para o deus do dinheiro e do consumo? Isso não é apenas hipocrisia, Papai Noel – é a mais profunda corrupção dos ideais evangélicos. Jesus não apenas “sugere” por meio de parábolas misteriosas, não: ele brada muito claramente contra o dinheiro e contra os ricos, alertando que só para aquele que entregasse todos os seus bens aos miseráveis é que se abriria o Reino dos Céus. Não é que o cristianismo seja marxista – longe disso; o marxismo – e todos os socialismos – é que são profundamente judeu-cristãos, mesmo que o neguem.
Há dois mil anos, numa aldeia periférica e insignificante de uma província desimportante do Império Romano, nasceu um judeu pregador itinerante, curandeiro e exorcista, que clamou contra os ricos e defendeu os pobres, os marginais e até os criminosos e as prostitutas. O que tem o Sr., Papai Noel, a ver com este revolucionário? Nada.
Outra coisa: o Sr. poderia usar bermuda e regata aqui no Brasil. Mas não. Ao contrário, o Sr. se apresenta como se estivesse no Polo Norte. Além de hipócrita, o Sr. é um janota ridículo. O Sr., Papai Noel, não entra pelo buraco de uma agulha, ao contrário dos camelos, que talvez entrem. O certo é que o Sr. jamais entrará no Reino dos Céus.
Papai Noel, velho batuta
Rejeita os miseráveis
Eu quero matá-lo
Aquele porco capitalista
Presenteia os ricos
(Cospem nos pobres)
Presenteia os ricos
(Cospem nos pobres)
Mas nós vamos sequestrá-lo
E vamos matá-lo, porque
Aqui não existe Natal
Aqui não existe Natal
Aqui não existe Natal
Aqui não existe Natal, porque
Papai Noel, velho batuta
Rejeita os miseráveis
Eu quero matá-lo
Aquele porco capitalista
Presenteia os ricos
(Cospem nos pobres)
Presenteia os ricos
(Cospem nos pobres)
Publicado em Cartinha ao Papai Noel – by Juliano Dupont