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De Dostoiévski a Tsípkin através de Sontag
14/02/2020

Apenas sete dias separam a publicação de Verão em Baden- Baden da morte de seu autor Leonid Tsípkin, no dia 20 de março de 1982. Ele tinha 56 anos e o primeiro fascículo de seu livro havia sido publicado num periódico semanal de emigrados russos em Nova York, Nóvaia Gazeta. A leitura deste romance íntimo e envolvente é uma experiência que não se esquece. Cheguei ao livro pelo arrebatado entusiasmo de Susan Sontag no ensaio Amar Dostoiévski incluído na coletânea Ao mesmo tempo (2008), reunião de seus últimos escritos. O prazer da leitura é indissociável do conhecimento do contexto em que se situa o autor e sua obra. A edição de Verão em Baden-Baden, da Companhia das Letras (2003), traz o belo ensaio de Sontag com dados biográficos desse escritor que viveu uma vida difícil na União Soviética, cerceado e perseguido até seus últimos dias.
Leonid Tsípkin tinha um talento que se revelou cedo, chegou a cogitar a carreira literária, mas seguiu o percurso dos pais médicos, judeus russos da cidade de Minsk, onde nasceu em 1926. Várias pessoas da família morreram, assassinadas pelo stalinismo ou na perseguição aos judeus durante a Segunda Guerra. Fugitivo em mais de uma ocasião, Leonid foi um sobrevivente para o qual a literatura foi, sem dúvida, companheira de uma jornada existencial difícil. A escrita foi constante, desenvolveu-se concomitante às atividades médicas, sem qualquer tentativa de publicação. Temia problemas com a KGB – estava certo em se proteger. Verão em Baden-Baden só veio a público porque um exemplar do manuscrito foi contrabandeado para fora da União Soviética pelo jornalista Azari Messerer, que conseguiu sair do país em 1981. Essa e outras histórias são contadas por Sontag em seu artigo.
Vamos ao livro, uma jóia de amor à literatura!
Fiódor Dostoiévski é o personagem central. Mas, não é o principal. Podemos dizer que é sua mulher, Anna Grigórievna. Mas, também não. Quem sabe o próprio escritor, narrador em primeira pessoa, cuja jornada interior acompanhamos num complexo fluxo de consciência. Acontece que os três personagens se sobrepõem, são imbricados na fascinante teia dos sentidos construídos pelo escritor, como se habitasse a mente de seus protagonistas. Nenhum é principal e todos são, pela voz desse autor onisciente que penetra nos temores profundos dos recém-casados. Supõe seus medos e angústias e dessa substância extraiu a matéria-prima para criar uma obra de ficção que reflete o temerário momento que ele próprio, Leonid, vivia.
A base a partir da qual se estrutura o livro são as memórias escritas por Anna Grigórievna Dostoievskaia, casada com o escritor em fevereiro de 1867, que registrou os dias passados em Baden-Baden, entre junho e agosto daquele ano, quando rumavam de Dresden a Genebra. Estava grávida, eles enfrentavam dificuldades financeiras, mesmo assim o escritor não conseguia reprimir a atração pelo cassino local. O vício tiranizava Dostoiévski, sobre isso ele acabara de escrever o romance O Jogador, obra para a qual Anna, em 4 de outubro de 1866, fora justamente contratada como estenodatilógrafa. Não fazia um ano que se conheciam, era a primeira viagem juntos, foram dias de muita dificuldade. Os embates interiores que travaram são vislumbrados pela imaginação de Tsípkin. Foram necessários mais quatros anos para que Dostoiévski abandonasse em definitivo o jogo, em 19 de abril de 1871, depois de perder tudo na roleta, em Wiesbaden. Quanto a Anna Grigórievna, tiveram quatro filhos e sua companhia deu ao escritor o ambiente emocional e uma estrutura que se refletiram na continuidade de sua obra literária.
A leitura de Verão em Baden-Baden exige atenção. Passamos de Leningrado a Petersburgo sem ruptura de continuidade, num espaço-tempo que é o mesmo e é outro. Trata-se de um romance com uma escritura complexa, em que longuíssimos parágrafos e escassos pontos finais reforçam a inexistência de limites da consciência, que percorre livremente o tempo, o espaço, o real, o imaginário, o passado, o presente e o futuro. Sontag nos informa que Tsípkin era meticuloso, obcecado por detalhes, tanto na atividade médica quanto no interesse dedicado à literatura. É obra de uma pesquisa empenhada, mas também de uma rica imaginação que faz cruzar os personagens reais com estados emocionais do narrador, esse protagonista sobre o qual se projeta o escritor.
É emocionante! O narrador percorre os lugares em que viveu Dostoiévski, supõe os gestos, espreita os sentimentos e neste percurso, de amor e admiração por um dos maiores autores da literatura universal, reflete sobre si próprio – intimamente e como sujeito histórico.
