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Página do Juliano Dupont
Dentro do buraco tudo é abismo
05/06/2025
Artigo de Juliano Dupont reproduzido de sua página Dentro do buraco tudo é abismo – by Juliano Dupont
Aos 13 anos de idade perdi deus, fumei maconha e rodei de ano na escola. Nesta ordem.
Quase uma Cristiane F., exceto pelos detalhes fundamentais: nunca sequer vi um grama de heroína, nasci no Brasil, e pra mim o David Bowie não vale nem a metade do que dizem por aí.
A frase também é um belo presente a um pastor evangélico: “Tá vendo, é isso que acontece…”.
E o que aconteceu depois?
É preciso antes entender o “um pouco antes” e o “um pouco depois”.
Dos nove aos quinze eu havia me tornado uma espécie de semi-marginal. Semi porque antes de eu me tornar um perigoso marginal, um delinquente, um facínora, o inimigo público número 1, antes de eu me tornar um marginal absoluto chegaram as forças da repressão: a escola, a família, a Igreja organizaram um comitê de salvação, não a salvação da minha alma, irremediavelmente perdida, mas ao menos a salvação da comunidade, num esforço de conter o meu corpo, sempre uma bomba prestes a explodir, um vulcão descontrolado
Eu era uma granada destravada pulando da mão assustada da professora para as mãos vingativas da coordenadora pegagógica e do diretor até chegar de volta pra casa, sendo que a granada pulava como batata quente também no sentido anti-horário ao descrito acima, da minhã mãe ao meu pai à professora à coordenadora pedagógica etc, vocês pegaram a circularidade da coisa.
Resumindo: não deu tempo de me tornar um assassino estuprador porque antes de eu finalmente progredir na carreira, e passar da sala da direção escolar para a Delegacia de Polícia, a repressão funcionou.
Num determinado momento eu percebi que não iria vencer as forças da opressão pelo vandalismo ou pela marginalidade vulgar e irracional. Não adiantava mais eu quebrar os vidros do colégio nem tocar fogo no banheiro, nem fumar umas coisas por aí. O melhor era dirigir essa energia descontrolada para a vida intelectual, desconhecida para mim até os 14, 15 anos.
E no fim do processo virei o sub-intelectual metido a besta que agora escreve essas linhas. Besta, mas inofensivo, coisa que muito lamento. Lamento mais ser inofensivo do que besta. Preferiria muito mais ser uma besta ofensiva, afinal, de que serve ser uma besta? É ou não é?
Mas isso é o processo completo, digamos, mais ou menos compreendendo o show do Nirvana no Hollywood Rock que assisti num sítio em uma colônia e o show do Yes em maio de 98 no Opinião em Porto Alegre. Eu fui do grunge ao Baghavat Gita, e quando cheguei aos 15 eu já havia abandonado até o cigarro. Fui precoce, um cometa, um marginal fracassado – humildemente vos peço que me perdoeis.
Vocês tão achando isso um tanto digressivo e derivativo? Vocês acham que a vida é uma linha reta? Prestem atenção, me acompanhem.
Depois que perdi deus, fumei maconha e repeti o ano na escola aconteceu o amor. O amor, porém, teve consequências intelectualmente menos profundas do que a perda de deus.
Eu nunca vou escrever um best-seller dizendo essas coisas. Não fosse o meu empreguinho público eu tava fodido, eu sei, vocês não precisam ficar dentro da minha cabeça me lembrando disso o tempo todo.
O amor é mais importante que deus, o amor é deus, é o sentido da vida, blablabá etc e tal e tao.
Não tenho muita certeza, porém, se o amor não é nada além de uma ideia atribuída a múltiplos e diferentes sentimentos e sensações corporais – exatamente como a ideia de deus, um constructo artificial da cultura, por sua vez um epifenômeno da biologia. Um fenômeno físico, sem transcêndencia.
Não é do amor, portanto, que pretendo falar. Eu quero falar do Papai Noel – de quando perdi o Papai Noel aos 9, antecipando a perda deus, aos 13.
Eu já intuía que o velho barbudo não existisse, mas ficava na dúvida, eu era criança, não tinha argumentos nem capacidade de raciocinar e, principalmente, não sabia o que me levou um bom tempo para entender: o fato de que é impossível provar a inexistência de algo. Quem deve apresentar provas é quem afirma a existência de dragões, Papai Noel, Iemanjá ou Deus.
Estávamos caminhando no centro. Naquela época crianças caminhavam na rua o tempo todo sozinhas, livres, aprontando de tudo. Passávamos em frente à uma loja que existe até hoje, a Rainha do Mar, na Júlio de Castilhos 251, Bento Gonçalves. No instagram informam: “Artigos Religiosos em Geral. Trabalhamos com Imagens Bahia – Qualidade | Católica |Afro |Umbanda”. Assim tudo junto sem a conexão sintática as vírgulas os pronomes e as preposições que a gente espera.

Lado a lado, dois amigos caminhando como caminham as crianças, em saltos alegres pra lá e pra cá, em eterno jogo da amarelinha. Não sei em que rumo estava a conversa só me lembro da minha cara de paspalho enquanto o Duda dizia:
– Tu sabe, né, Juli, que Papai Noel não existe?
– Claro, claro, imagina – eu dizia tentando disfarçar minha ignorância, mas por dentro me sentindo traído, entre o enfurecido, o perplexo e o aparvalhado.
A família me enganou todo esse tempo! E a Coca-Cola, o capitalismo, a Igreja…não, não pensei tudo isso, mas já me sentia o corno da história aos 9 anos.
Papai mente, mamãe mente, professora mente, padre mente, avós mentem, a Xuxa mente, a Rede Globo então nem se fala. Todos mentem com a melhor das intenções: é pelo bem da criança, para sua felicidade, dizem.
Felicidade? À custa de ser enganado – isso eu já pensava na época – isso não! Não quero felicidade assim, mentirosa. Eu quero a verdade, não a felicidade. Eu quero a vida, não a mentira, a vida, dolorida, que seja, mas inteira, verdadeira.
Na verdade mentem para te dominar, eu percebia, para adestrar, para te transformar num cidadão respeitador das tradições mais estúpidas.
Foi uma ironia do destino, uma ironia divina, me aprontar essa de perder a primeira fé bem em frente a uma loja esotérica. A Rainha do MAR – numa cidade que fica há quase 700m de altitude e há 250km do litoral mais próximo, e o litoral mais próximo não vale nem a visita.
Em frente a essa loja de incensos, imagens de santos, e toda sorte de apetrechos místicos para benzeduras e macumbas várias eu cheguei ao fim da infância e quase atingi a idade da razão, mas essa só atingiria mesmo quando desacreditei de deus.
O Papai Noel não existia, então. Era libertador deixar de ser trouxa, ao menos nisso. A minha cuca de ex-criança (depois disso eu já era uma ex-criança, não uma criança desesperada, mas já era um ex-esperançado), a minha cuca estava funcionando a pleno vapor e exalando fumaça pelas fuças eu matutava: eu dei a todos eles a minha boa fé, a minha boa vontade, e me enganaram, me enganaram profundamente.
A partir de agora é melhor eu ficar desconfiado, me manter desconfiado desconfiando sempre. Na dúvida, o melhor é continuar duvidando, com as certezas da dúvida.
Se perder o Papai Noel foi libertador, perder deus, bom, aí o busílis foi grande. Foi a queda num abismo de que nunca me recuperei – eu e a civilização ocidental, nada menos. O abismo é grande, devastador, é o gigantesco Nada me tragando para o vórtice cósmico de buracos negros infinitos. Coisa linda de escrever mas difícil de viver.
Em torno do buraco tudo é beira – ficam citando por aí uma frase do Suassuna que eu aposto que ele roubou da tradição popular.
Sim, em torno do buraco tudo é beira. É… – responde o coro.
– Mas dentro do buraco tudo é precipício, eu acrescento, e esse é o detalhe fulminante.
Chupa essa, Suassuna.
Dentro do buraco tudo é abismo.
N’As Portas da Percepção, Huxley escreve:
“o real é um presente perpétuo criado por um apocalipse em contínua mutação”. No final é isso: o apocalipse como consolação. Mas isso só no final.