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Página do Juliano Dupont
Emil Cioran: Morrendo de rir com o filósofo da Transilvânia
23/03/2025

Artigo de Juliano Dupont reproduzido de sua página Negativo Operante.
Amigos,
a simpática Editora Âyiné acaba de lançar Um apátrida metafísico, uma coletânea de entrevistas concedidas por Emil Cioran entre as décadas de 1970 e 1990. Virtuose do aforismo, do epigrama e do ensaio breve, Cioran é um desses autores que tornam qualquer tentativa de descrevê-lo um desafio — suas próprias palavras parecem sempre dizer tudo, e muito melhor.
Tentei me conter, evitando o amontoamento de citações. Fracassei, mas espero seja um fracasso interessante (um fracasso interessante é o máximo que podemos esperar da vida, numa interpretação bastante ciorânica), que permita ao artista da frase, ao mestre das boutades, brilhar por si. Que a luz da consciência insone de Cioran se infiltre nestas linhas.
A maioria dos excertos abaixo, porém, foi extraída dessas entrevistas publicadas em Um apátrida metafísico, e não de seus livros mais conhecidos — publicados no Brasil, em sua maioria, pela Rocco, com a primorosa tradução de José Thomaz Brum. Boa leitura!

“Conceber um pensamento, um único pensamento, mas que fizesse em pedaços o universo”.
Padroeiro dos fodidos e desesperados, o filósofo Emil Cioran é o mais niilista dos escritores. Muitos prefeririam conceder o título a Charles Bukowski, o que seria um equívoco: o poeta e contista americano acreditava na bebida e no sexo — o que é pouco, reconheço, mas já não é o vazio absoluto —, encontrando algum conforto nesses prazeres.
Cioran é muito mais radical em sua negação, desconfiando — pelo imperativo da coerência — até do próprio pessimismo:
“Se sou um cético verdadeiro, não posso nem mesmo estar certo da catástrofe”.
Para ele, a autodestruição de um porra-louca como Bukowski é tão inútil e artificial quanto a positividade tóxica que a gente vê em toda a fofopatia que anda solta por aí.
Há pelo menos uma concordância entre autores de resto absolutamente diferentes: a fé na escrita como forma de autossalvação. No caso de Cioran, escrever foi uma crença vivida mas não professada, talvez a sua única fé, apenas relutantemente assumida.
Muito além do ceticismo iluminista — um ceticismo instrumental em favor da razão — o seu é um niilismo cósmico que duvida do valor da vida em si, maldizendo o universo inteiro.
Quase o universo inteiro: para Cioran, a existência perfeita é a da pedra. “Evoluir” do mineral ao orgânico já seria o princípio da decadência…
A fascinação que sua obra exerce começa pelos títulos, que contém e revelam toda a sua cosmovisão: Nos Cumes do Desespero, Silogismos da Amargura, Breviário da Decomposição, A Tentação de Existir, O Livro das Ilusões, e o que eu acho mais engraçado: Do Inconveniente de Ter Nascido.
Não apenas romeno, Cioran era da Transilvânia! Rășinari, a pequena cidade onde nasceu em 1911, pertencia ao moribundo império austro-húngaro, contando na vida ordinária da aldeia com a presença dos idiomas alemão e húngaro, além do romeno.
Cioran foi uma espécie de teólogo ateu. Obcecado pelos principais problemas da existência, considerava-se descendente dos Bogomilos, ancestrais dos Cátaros, seita herege segundo a qual o universo seria a criação de um deus perverso e injusto, ou, na melhor hipótese, de um deus incompetente do segundo escalão.
Nos tempos de estudante, Cioran ganhou uma bolsa e foi viver em Paris. A tese que se comprometeu a escrever jamais seria concluída. Detestava a universidade, da qual apenas se servia para comer de graça, até que um dia, aos 40 anos de idade, recebeu o aviso dos diretores da Sorbonne informando que ninguém com mais de 27 anos poderia frequentar a cantina dos estudantes. Definindo-se como um “parasita da universidade”, Cioran confessava que perder os benefícios do RU foi a pior das calamidades financeiras em sua vida.
Depois de uma década vivendo em Paris, decide abandonar a língua materna e adotar o francês em definitivo. Escrever em romeno, pensava, seria o equivalente a não escrever.
Quando lhe questionavam os motivos, repetia: “Por que escrever numa língua que ninguém lê?”.
Tão elevado e denso é o pessimismo em sua obra que às vezes ela me parece cômica, atingindo o ridículo pelo tamanho acúmulo de desgraças. A pergunta me parecia inevitável: seria ele um sátiro das trevas, um bufão dos abismos? Em suma, um humorista?
Os aforismos de Cioran são profundamente negativos, mas repletos de vitalidade e humor. Sombrios e assustadores? Sim, muito, mas também excitantes, e até alegres, eu ousaria dizer, em razão de sua principal virtude: são escritos com elegância e um requinte estético poucas vezes alcançado em filosofia — gênero de literatura nem sempre aprazível na forma.
O pensamento de Cioran se apresenta burilado como uma joia. Diamantes de lucidez cortante, os aforismos cristalizam a síntese de longas reflexões. Dizia: “Não explico nem demonstro. Quem faz isso são professores. Eu apenas publico as conclusões”.
Na esteira da poética fragmentária de Nietzsche, Leopardi e dos moralistas franceses, Cioran é um mestre literário. Lê-lo pode ser doloroso, até mesmo insuportável se o fizermos de maneira ininterrupta, todavia sempre nos deslumbrará com sua prosa musical sublime, repleta de inusitadas perspectivas, tristes porém grandiosas, capazes de chacoalhar nossa maneira ordinária de perceber o mundo e a vida.
“Pode-se duvidar de absolutamente tudo, afirmar-se como niilista e ainda assim se apaixonar como o maior idiota”.
Tive uma certa surpresa — quase uma decepção -— ao descobrir que Cioran não apenas fora casado por mais de cinquenta anos com uma professora de escola, Simone Bouée, mas também tivera amantes!
Claro que não há nenhuma contradição entre casamento e infelicidade, antes o contrário. A surpresa é o relativo ineditismo de um filósofo casado, quando a maioria histórica deles foi composta de solteiros — e de celibatários, em parte voluntária, mas em grande parte (suprema desgraça) involuntariamente. E logo o mais pessimista deles seria casado? Um cínico diria que justamente por isso…Tudo indica, porém, que Cioran era feliz no casamento, mantendo uma vida doméstica tranquila num pequeno mas belo apartamento da rua Odéon em Paris.
Tudo bem, vá lá; mas amantes!? E, se não bastasse, jovens, inteligentes e lindas, como a professora de filosofia Friedgard Thoma. Um homem assim não pode ter sido tão infeliz. Ele nos enganou: o desgraçado, afinal, gostava de viver.
“Os sentimentos nem sempre estão de acordo com o que pensamos”, defendia-se quando o acusavam de alegria. “O paradoxo da minha natureza é que tenho uma paixão pela existência mas ao mesmo tempo todos os meus pensamentos são hostis à vida”.
Além das mulheres, tinha bons amigos. Apesar do desprezo à vida mundana do ambiente literário, mantinha charlas frequentes com Michaux, Ionesco e Beckett. Frequentador de bibliotecas públicas, era conhecido e muito benquisto pelos bibliotecários de Paris. Conversava com as pessoas na rua, com as pessoas simples, com qualquer um. Amigo dos clochards, dos vagabundos, durante muitos anos manteve uma relação intelectual com um mendigo que frequentava sua casa, a quem chamava de “o maior filósofo de Paris”.
José Thomaz Brum, tradutor de vários de seus livros ao português, conta em um prefácio da gentileza e do interesse que o “maior dos pessimistas” manifestava em cartas perguntando sobre o Brasil. Cioran era muito educado (apesar de alguns rompantes explosivos), se vestia bem, e foi charmoso mesmo na velhice, com uma basta, vistosa cabeleira.
Nas poucas entrevistas que concedeu, recém publicadas em Um apátrida metafísico (Editora Âyiné), é frequente que lhe perguntem sobre o paradoxo de nunca ter se matado e, ainda mais contraditório, ter continuado a escrever e a publicar constantemente livros onde defende “a total falta de sentido de tudo”. Em A Tentação de Existir, encontramos uma de suas joias: “Toda palavra é uma palavra a mais”.
Se ele detestava tanto assim o universo e a vida, por que insistia em viver, por que escrevia livros e, pior, os publicava? Por que aumentar os livros e as palavras?
Porque “todo livro é um suicídio adiado”, respondia, “escrever é um desafogo extraordinário. Publicar também. É uma parte de sua vida que você torna exterior. Desprende-se ao mesmo tempo de tudo aquilo que se ama e sobretudo daquilo que se detesta. A expressão é uma libertação. Escrevo para me desfazer de um peso”.
E arrematava com humor:
“Não se escreve quando se sente vontade de dançar. Tudo que escrevi era uma cura para meu próprio uso”.
Cioran argumentava que era justamente a “possiblidade do suicídio” o que lhe mantinha vivo. A mera contemplação da ideia de poder abandonar a vida já lhe servia como consolo suficiente e razoável para suportar a existência. Se tudo andasse mal, dizia, sempre teria este poder sobre a própria vida, escolhendo a hora da morte.
Os mais desesperados entre os suicidas potenciais — grande parte de seus leitores — costumavam procurá-lo para pedir apoio em seu ato final. “Não posso negar que ajudei muita gente. Impedi que muitos se suicidassem”, confessa Cioran, explicando como se dirigia a eles:
“Se você ainda consegue rir, não cometa suicídio; se não consegue, então sim. São as últimas palavras que posso dizer a alguém que me consulta. Enquanto você pode rir, mesmo que tenha mil razões para se desesperar, é preciso continuar. Rir é a única desculpa da vida, a grande desculpa da vida!, e devo dizer que mesmo nos grandes momentos de desespero eu tive forças para rir. Essa é a vantagem dos homens sobre os animais. Rir é uma manifestação niilista, assim como a alegria pode ser um estado fúnebre”.
Acho que foi essa espécie de humor, um tanto mórbido, que salvou Cioran de si próprio, da extrema lucidez, da vigília constante, da razão insone, da consciência ininterrupta com que analisava tudo.
Cioran pegava o touro pelos chifres. Mirava o abismo, e na longa queda que foi a sua vida não tergiversou, regalando, artista da palavra e do pensamento, os mais terríveis — e tanto mais terríveis porque belos — aforismos jamais escritos.
Um dia Cioran decidiu parar de escrever. E cumpriu a promessa: “Para que multiplicar os livros? Já caluniei bastante o universo.”

Sobre a Filosofia:
“Tão estranha é a condição da filosofia que nada nela é mais instrutivo que seus fracassos. Sua forma de afirmar é negar. Só fala para calar ou desmentir as palavras vigentes. Não busca nem a persuasão, nem o doutrinamento, nem a transmissão de nenhum conhecimento positivo: sua única tarefa é o desengano. Só ensina a descrer de tudo o que se pretende poder ensinar”.
Pierre Jusseau
O primeiro grande leitor de Cioran que conheci foi um amigo, Pierre Jusseau. Francês nascido em Argel, viera trabalhar em Bento nos anos 70 pela Maison Forestier, cujo escritório ficava embaixo da casa de minha vó.
Pierre havia sido aluno nos tempos de escola de alguns antigos professores de Camus, um dos quais aquele a quem o escritor homenageou ao receber o Nobel. Eu achava a história extraordinária, porque li quase toda a obra do argelino, e as cidades da Argélia, especialmente as descritas nos seus contos-ensaios de Núpcias, O Verão, me marcaram profundamente e me acompanham até hoje.
Quando lhe perguntávamos ao Pierre porque continuava a morar em Bento, quando poderia muito bem morar em Paris, as respostas variavam. Mas a melhor, e a mais ciorânica, era: “A estupidez é a única coisa igualmente distribuída no mundo. Tanto faz.”
Um dia ele me contou que lutava boxe em Paris com Jean-Marie Le Pen, o criador da Frente Nacional, e com Angelo Rinaldi, membro da Academia Francesa. Anos depois, lendo sobre Cioran, descobri que Rinaldi foi um dos primeiros intelectuais importantes a celebrar publicamente o valor literário da obra de Emil Cioran.
Participávamos Pierre e eu de um grupo de leitura. Um dia, acho que estávamos lendo A República e debatíamos algumas das ideias metafísicas e espirituais intrometidas dentro das teorias políticas de Platão, provavelmente usando a palavra “alma”, quando Pierre se dirigiu a mim, num momento de pausa entre as discussões, para me contar que estava lendo o Sidarta.
Achei esquisito, porque o livro de Hermann Hesse é geralmente lido quando somos jovens, e Pierre já havia ultrapassado os 60 anos. Ele olhou fundo dentro de mim e disse:
— Hesse escreve o tempo todo a palavra “alma”, “alma”, “alma”… Eu não consigo entender. O que é alma?
Foi uma das perguntas mais dilacerantes que jamais ouvi em minha vida. A maneira como ele me perguntou. Porque ambos éramos descrentes, ambos niilistas, eu e ele, quase anedóticos leitores de Cioran. Não acreditamos em alma. A pergunta cortava porque a vida seria muito mais fácil se acreditássemos na ilusão de uma alma. O olhar dele me pedia não uma resposta, mas uma comunhão – uma comunhão entre desesperados.
Poucos meses depois, Pierre morreria de um câncer fulminante. Fazia todo o sentido ler o Sidarta na velhice. O budismo era a única religião pela qual Cioran nutria alguma simpatia, e o Sidarta de Hesse é a mais bonita versão da história de Buda.
Pierre era um gastrônomo pantagruélico, e cozinhava extraordinariamente bem. Comungava com ele também a paixão por Michel Onfray, o que nos levava à leitura dos antigos, como Lucrécio, Epicuro e cia. Na sua casa na Garibaldina, pendurava na parede as cópias que fazia de grandes artistas. Pintava super bem. Apontava uma de suas cópias – de um van Gogh, por exemplo – e dizia: “Este é o original, a cópia tá no Louvre.”
Acho que aprendemos com Cioran a manter um olho no fundo do abismo e outro no ridículo de tudo, inclusive o ridículo da filosofia. Pierre era engraçado, como todas as pessoas inteligentes. Sabia rir e fazer rir.

Artigo de autoria de Juliano Dupont reproduzido de sua página Negativo Operante.