-
Página do Juliano Dupont
Homeros – e os rapsodos eternos
06/08/2024
Artigo de Juliano Dupont reproduzido de sua página Homeros – by Juliano Dupont – Negativo Operante
A “questão homérica” inquietara por séculos inúmeros intelectuais e artistas, além de eruditos e helenistas diretamente envolvidos com o problema de saber se Homero fora um só homem, ou inúmeros poetas compilados sob o mesmo nome.
No início da década de 1930, um professor de Estudos Clássicos em Harvard procurou testar suas teorias a respeito da composição dos poemas homéricos observando tradições vivas de poesia oral na então Iugoslávia.
Milman Parry escreveria apenas dois artigos tratando da “questão homérica”, mas foram suficientes para resolver o antigo problema, demonstrando que a poesia homérica era oral no estilo. Ideia que pode parecer simples, enganadoramente óbvia, mas isso é um erro de percepção: é preciso certa genialidade para encontrar um ovo de Colombo.
Na edição da Penguin/Cia das Letras da Ilíada, Peter Jones explica, sintetizando ao máximo, que poesia oral significa em primeiro lugar ser tradicional, desenvolvida no transcurso de centenas de anos de narração; em segundo lugar, significa que se tratava de um tipo de poesia que podia ser composta no calor da apresentação, sem a ajuda da escrita.
Parry escreveu apenas dois artigos porque morreu muito cedo, aos 33 anos, com um tiro no peito. Não se sabe se foi suicídio – intencional ou acidental – ou se foi a própria mulher, lelé da cuca, que disparou um tiro de espingarda contra o coração do marido.
Quem prosseguiu com o legado da obra de Parry foi seu assistente, Albert Lord, publicando em 1960 o livro que é um marco na musicologia e nos estudos literários: The Singer of Tales.

Para solucionar a homérica “questão homérica”, Parry e Lord foram à Iuguslávia procurar rapsodos servo-croatas que, acompanhados pelo guzla, instrumento de uma só corda semelhante à uma rabeca, narravam de cor histórias épicas de longuíssima duração.
Agricultores analfabetos cantavam à população local, igualmente analfabeta, histórias de heróis e mitos semelhantes aos encontrados nas epopeias gregas. Parry intuía que esses cantores poderiam ser um vestígio do que teria sido o canto de Homero – ou dos homeros que vagavam errantes pela Hélade cantando a vida de heróis posteriormente reunidos na Ilíada e na Odisseia.
O mais extraordinário dos rapsodos encontrados por Parry e Lord foi o montenegrino Avdo Mededovic, que cantou durante cinco dias um poema com mais de treze mil versos.
Parry o considerou o mais próximo de Homero em qualidade e quantidade. Mededovic respondeu à surpresa de Parry dizendo que conhecia e tocava canções muito mais longas do que aquela, mas que por respeito à brevidade escolhera uma de apenas 13 mil versos.
Aqui, um trecho em filme de Mededovic cantando:
Apoiando-se em formas fixas de poesia – com metro e estruturas padronizados – o poeta oral vai repetindo e improvisando sobre temas tradicionais, ancorando-se em repetições de palavras, expressões e versos, além do uso de recursos como o nome-epíteto também usados por Homero na Ilíada.
Nome-epíteto é o modo como alguns personagens, Aquiles e Heitor por exemplo, são apresentados e reapresentados ao longo da narrativa, sempre com um epíteto ou expressão, recurso constante e repetitivo ao longo do épico, tais como “divino Aquiles de pés velozes”, “glorioso Heitor”, ou clichês como “tombou com um estrondo e sobre ele ressoaram as armas” etc, reiterados ao longo da Ilíada.
Um quinto de Homero é repetição. Há repetição não só de palavras e expressões, mas de padrões de ação, tijolos de construção de cena que fazem parte do “kit” do poeta oral. “Composição anular” é como chamam a repetição de palavras e ideias que levam o poeta de volta ao lugar em que começou, como um anel, podendo agrupá-los em diferentes anéis simultâneos, variando descrições e símiles.
Além do uso de formas fixas e estruturas padronizadas, nenhum dos rapsodos iuguslavos conseguia cantar o seu épico sem o acompanhamento do guzla, que os punha no clima musical, também repetitivo e constante, próprio ao encantamento, ao transe, a uma hipnose poética.
A poesia era uma técnica mnemônica a serviço da transmissão de histórias épicas, envolvendo heróis e mitos, com o intuito de promover uma educação cívica em defesa dos valores da tribo, além do prazer, talvez a razão primordial, de ouvir uma narrativa acompanhada de música.
Os cantores servo-croatas, e o Homero iuguslavo, Mededovic, serviram à Parry e Lord como prova de que “Homero” é a transcrição de diferentes aedos, o resultado literário de um longa tradição oral. Perceberam os poetas iuguslavos como uma espécie de elo perdido, testemunhando no presente a tranformação de uma cultura oral para a cultura literária.
A teoria oral é a prevalecente nas questões homéricas, diz Peter Jones, e a maioria dos estudiosos acredita que um só poeta surge no fim de uma tradição narrativa oral de centenas de anos, e que o mérito artístico de Homero (um único homero) está na maneira singular em como reelaborou esse material tradicional, dando-lhe forma definitiva em literatura.
Ainda que haja interpolações e incoerências tanto na Ilíada quanto na Odisseia, fica-se com a impressão de que o Homero compilador deu uma unidade estética ao variegado conjunto de narrativas épicas.
No Brasil, o paralelo mais direto com esses rapsodos e poetas ancestrais encontra-se nas diferentes formas de repente que ainda se ouvem pelas ruas, aldeias e favelas do país: a cantoria e o cordel nordestinos, a pajada gaúcha, o répi urbano.
No caso de Homero, o esquema rítmico e métrico era o hexâmetro datílico. Herdeiro da tradição lusa, o formato mais popular no Brasil é a redondilha, que inclui a rima, inexistente na Grécia e Roma antigas. Tal como a conhecemos, a rima é uma invenção da Idade Média europeia.
Homero e outros poetas da tradição oral são estudados e compreendidos como fundadores da literatura. Eu acho que fazem igualmente, ou até mais, parte da história da música.
É frequente que passe por elogio quando as pessoas dizem que Bob Dylan ou Chico Buarque fazem literatura em suas canções – como se fazer literatura fosse um aval, uma forma de valorização da música popular, subentendendo que “literatura” é superior, situada vários degraus acima na óbvia hierarquia que existe no campo beligerante das artes.
Eu penso que é Homero, Dante, Shakespeare que elevaram a literatura à esfera da música. Foi Walter Pater, no ensaio A Escola de Giorgione, que disse o conhecido porém mal citado adágio de que “Toda a arte aspira continuamente à condição da música”. Atribuir qualidade literária à música pode não ser elogio; o inverso, sim.
Como é frequente que sejam os professores de literatura a estudar a canção popular, acabam falando do que (às vezes) entendem: a letra. E como na música o estudo ficou por séculos limitado à história da música concertística europeia, apenas no século vinte começou-se a desenvolver a musicologia, empenhada em entender esta arte como um fenômeno antropológico mais amplo, com a obra pioneira de Alan Merriman, John Blacking, John e Alan Lomax.
As ideias e descobertas de Milman Parry e Albert Lord ajudam a resolver certo imbroglio presente nas artes que são, acima de tudo, performance. Porque tanto a música e a poesia são, essencialmente, performáticas, como uma peça teatral cuja realização só é possível no tempo presente. Ao lermos um poema precisamos representá-lo, dar-lhe vida no palco, nem que seja no palco imaginário da nossa cabeça.
Artigo de Juliano Dupont reproduzido de sua página Homeros – by Juliano Dupont – Negativo Operante