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Leituras #5 – O planeta dos macacos
03/03/2026
O sucesso acachapante da franquia O planeta dos macacos jogou para o limbo o criador original desta poderosa alegoria sobre a selvageria humana. O escritor francês Pierre Boulle (1912–1994) era engenheiro, foi agente secreto no Sudeste Asiático e depois de capturado e preso por dois anos, dedicou-se à literatura. Recluso, não frequentava circuitos literários e apesar de ter escrito 30 obras entre romances e coletânea de contos, é um autor quase esquecido.
A edição da Aleph [SP, 2015] sobre o planeta com macacos inteligentes que dominam humanos que só emitem grunhidos traz entrevista com o autor para a revista Cinefantastique, em 1972; um ensaio da BBC, publicado em 2014, sobre sua atuação na Segunda Guerra e um texto do estudioso de cinema e pesquisador de literatura fantástica Braulio Tavares.
O livro, de 1963, confronta com ironia símios e humanos e especula sobre a formação da linguagem e a aprendizagem por imitação. A neurociência já comprovou a existência dos neurônios-espelho, observado em macacos em 2004, com as mesmas funções no cérebro humano. São células ligadas à visão e ao movimento que permitem o aprendizado, acionadas quando é necessário observar ou reproduzir o comportamento de outros seres da mesma espécie visando a socialização.


Boulle começava a escrever suas histórias pelo final, trabalhando o enredo depois de ter estabelecido o desfecho. Por ironia, justamente o final alterado do livro na transposição para o cinema fez o estrondoso sucesso do filme produzido por Arthur Jacobs, que comprou os direitos antes da publicação. Na época, Boulle era nome quente em Hollywood, havia escrito A ponte do rio Kwai, dirigido por David Lean e ganhador de 7 Oscars. O efeito surpresa do livro se mantém, mas foi resolvido de outro modo pelo roteirista Rod Serling, criador da série The Twilight Zone, que fez a adaptação inicial do livro. O roteiro foi posteriormente trabalhado por Michael Wilson, de volta à Hollywood depois de seu exílio na Europa por ter sido incluído na lista negra macarthista, nos anos 1950, razão pela qual seu trabalho não era creditado, caso de A ponte do rio Kwai. O filme foi inicialmente roteirizado por Carl Foreman, depois substituído por Michael Wilson. Ambos tiveram que trabalhar em segredo, pois estavam na lista negra de Hollywood, refugiados no Reino Unido. Como resultado, Boulle, que não falava inglês, foi creditado e recebeu o Oscar de melhor roteiro adaptado. Muitos anos depois, Foreman e Wilson receberam o Oscar postumamente.
O planeta dos macacos foi liberado para TV em 1973 e foi onde assisti, tinha uns 13 anos e fiquei assombrada com a imagem da estátua da liberdade pós-apocalipse semienterrada na areia. A cena é marcante pelo desespero do astronauta Taylor/Charlton Heston que, em fuga do pesadelo dos macacos, se confronta com o pesadelo maior da destruição da sociedade humana pelos próprios humanos. Na transposição para o filme o personagem principal, um jornalista francês chamado Ulysse Mérou, foi substituído por um astronauta mais afeito à ação e ao combate. Isso mudou o viés reflexivo e crítico que caracteriza o livro, no qual Boulle especula sobre o enigma da emergência da consciência que tornou a espécie humana dominante. A razão, porém, não impede que sejamos animais estúpidos como se não tivéssemos a capacidade do raciocínio, argumento que faz de O planeta dos macacos uma grande história.
O planeta dos macacos. São Paulo: Editora Aleph, 2015. Tradução de André Telles. Pedro Inoue (Arte de Capa).