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Leituras
Leituras #7 – O processo
30/03/2026
Poucos livros suscitam tantas interpretações quanto O processo, um dos principais romances modernos que Franz Kafka (1883-1924) deixou incompleto e, antes de morrer, aos 40 anos, pediu que fosse destruído. Como é sabido, seu amigo e testamenteiro Max Brod não só deixou de atender como publicou todos os seus escritos. O ano no GPELE – grupo de estudos de literatura conduzido por @gutoleiteoficial do qual tenho a satisfação de participar – começou destrinchando essa incontornável obra da literatura.
Li a consagrada tradução de Modesto Carone, que verteu toda a obra de Kafka do alemão ao português e ganhou, pelo notável trabalho em O processo, o prêmio Jabuti de 1989. A edição da Cia. das Letras [1997] vem acompanhada de trechos inconclusos do romance e posfácio. A absurdidade que se estabelece no início – “Alguém certamente havia caluniado Joseph K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum.” – só aumenta ao longo da narrativa levando o protagonista a uma experiência labiríntica angustiante.


A interpretação mais comum é tomar o relato como uma representação da burocracia na modernidade. A referência de Kafka era a máquina impessoal do império austro-húngaro, porém, com perspicácia, anteviu o nazista e outros terrores. No grupo fizemos analogias perturbadoras com os dias atuais da sociedade interconectada e supervigiada das redes. Assim como Joseph K. se perde em instâncias jurídicas sem conseguir entender o que está acontecendo, somos peças de jogos políticos e econômicos em relação aos quais não temos saber nem poder. Não basta às Big Techs que sejamos contumazes compradores, no estágio tecnológico ao qual chegamos nossos corações e mentes são drenados pela burocracia administrativa onipresente e insaciável.
Para estudiosos – e são muitos os que se dedicaram ao romance – os sentidos de O processo continuam em aberto. Existem linhas teológicas, filosóficas, materialistas-históricas, estético-formais etc., que buscam compreender as metáforas e alegorias desta obra fértil. Simpatizei com a leitura existencialista do filósofo e escritor francês Maurice Blanchot (1907-2003), para o qual o romance alegoriza a consciência sobre a vida, cujo cerne arbitrário se mantém oculto nas ilusões de atribuição de sentidos. Os tribunais percorridos por Joseph K., em contraposição à normalidade cotidiana, apesar da desordem instalada pelo processo, representariam a tomada de consciência sobre o absurdo da vida. A perda da inocência de K. muda tudo e não muda nada, já que a vida segue tumultuada pela angústia de sua dimensão caótica e imprevisível, porém acrescida dessa consciência.
Kafka criou um universo sem esperança, sem mito de salvação ou consolo, um mundo arbitrário e ilógico sintetizado no adjetivo “kafkiano”. Ninguém antes ou depois figurou tão bem no cinema o sentido desta palavra quanto Orson Welles. O filme que lançou em 1962, protagonizado por Anthony Perkins, a partir do romance, expressa na composição dos cenários e ambientes a excruciante angústia interior do personagem.
O processo. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. Tradução de Modesto Carone. Capa: Hélio de Almeida sobre desenho de Amilcar de Castro.