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Cinema
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Leituras #8 – O morro dos ventos uivantes
08/07/2026
A temporada de 2026 do projeto Filmes & Livros, na Sala Redenção da UFRGS, começou motivada por O morro dos ventos uivantes, romance escrito no século XIX por Emily Brontë, que ganhou recentemente uma nova adaptação cinematográfica dirigida por Emerald Fennell. Os atores Margot Robbie (Barbie) e Jacob Elordi (Frankenstein) protagonizam uma interpretação contemporânea detestável para quem guarda na memória afetiva Merle Oberon e Laurence Olivier encarnando os amantes trágicos Catherine Earnshaw e Heathcliff. Esse romance singular — escrito por uma jovem tímida que vivia nas charnecas agrestes do norte da Inglaterra — foi adaptado muitas vezes para o cinema; nenhuma versão, porém, suplantou a de William Wyler.
A família Brontë é um mistério literário. Eram seis crianças – cinco meninas e um menino – criadas no condado de Yorkshire, na vila onde o pai exercia o ministério de vigário. Patrick Brontë e Maria Branwell, incutiram nos filhos o amor aos livros e à cultura: brincar de inventar histórias era a principal diversão das crianças. Algumas morreram ainda na infância; Charlotte, autora de Jane Eyre, viveu até os 39 anos; Emily faleceu de tuberculose aos 30 anos, deixando uma das obras mais originais da literatura inglesa. O morro dos ventos uivantes é um romance ligado às tradições romântica e gótica; seu romantismo, porém, é contido e recalcado, com ecos da tragédia elisabetana, cujo maior expoente foi Shakespeare.
Com uma violência psicológica incomum para os padrões da época, o romance foi mal recebido quando de sua publicação, em 1847 (sob o pseudônimo Ellis Bell), embora algumas resenhas já revelassem admiração por seu estranhamento. Seu valor foi especialmente consolidado após uma palestra do historiador da literatura Lord David Cecil, em 1934, na Universidade de Oxford, na qual ressaltou a força poética e filosófica da narrativa que articula, com notável habilidade, os princípios da cólera e da serenidade sem recorrer a julgamentos morais. Escrito a partir da intuição e da imaginação de uma moça do campo reclusa e extremamente tímida, o livro expressa, em estilo sofisticado, um conteúdo humano profundamente sombrio.
A ordem em que os acontecimentos são apresentados só se tornaria frequente com o modernismo do século XX, cerca de sessenta anos após a morte de Emily. A narrativa começa em 1801 (T1), recua, por meio de um extenso flashback, até 1771 (T2), quando se inicia a história de Heathcliff e Catherine; avança novamente até o presente do relato (T1) e termina, em 1803 (T3), dois anos depois. O leitor é atraído para dentro da trama pelo modo original como a história é narrada pelo Sr. Lockwood, narrador em primeira pessoa, que chega a Thrushcross Grange em 1801 para passar um período de descanso naquela região isolada. Homem urbano e culto, sua atenção é despertada pela rusticidade do ambiente e pela atitude pouco amistosa de Heathcliff, senhor das propriedades locais. Sua curiosidade, porém, logo é satisfeita: a Sra. Nelly Dean, empregada das famílias Earnshaw e Linton havia três gerações, conta-lhe a história de Wuthering Heights. Nelly relata aquilo que viveu e testemunhou, bem como o que ouviu de terceiros matizando sua narrativa com o tom e o modo de falar de cada personagem.
O catalisador dos acontecimentos é Heathcliff, menino órfão recolhido das ruas de Londres pelo sr. Earnshaw e criado com a família em Wuthering Heights. Seu temperamento indômito identifica-se com a personalidade intensa e rebelde da menina Cathy, e ambos crescem como companheiros inseparáveis. As diferenças sociais, porém, revelam-se intransponíveis, e o rapaz de pele escura sofre humilhações e maus-tratos naquela pequena sociedade rural, que abandona quando Catherine – apesar de amar Heathcliff – escolhe casar-se com Edgar Linton, herdeiro de Thrushcross Grange, garantindo assim sua ascensão social. A passagem do tempo não apazigua as paixões e o desfecho, marcado pelo rancor e pelo desejo de vingança, apresenta uma visão sombria da degradação humana provocada pelas injustiças e pelos acasos do destino.
A melhor adaptação para o cinema é a de 1939, dirigida pelo alemão Wyler, que se tornou um dos grandes cineastas de Hollywood entre as décadas de 1930 e 1960. O roteiro de Ben Hecht e Charles MacArthur concentra-se nas relações entre Cathy, Heathcliff e Edgar, interpretados por Merle Oberon, Laurence Olivier e David Niven. O morro dos ventos uivantes foi um dos três filmes de Wyler fotografados pelo genial Gregg Toland, responsável pelos célebres planos em profundidade de campo e pelos ousados enquadramentos em plongée e contra-plongée em Cidadão Kane (1941). Essas mesmas técnicas são empregadas em O morro para simbolizar, por meio da composição das imagens, a tragédia de um amor idealizado e reprimido entre personagens inflexíveis e implacáveis. O filme recebeu oito indicações ao Oscar, vencendo apenas na categoria de melhor fotografia, concedida a Toland.
Além da exibição da versão protagonizada por Merle Oberon e Laurence Olivier, realizada em 02 de abril, exibimos e debatemos a adaptação mais fiel ao romance entre todas as levadas ao cinema, pois inclui a segunda geração de personagens, sobre a qual recaem as consequências dos erros e ressentimentos dos pais. Dirigido, em 1992, pelo britânico Peter Kosminsky, o filme é protagonizado por Ralph Fiennes, que compõe um Headhcliff demoníaco, e por Juliette Binoche, cuja intepretação acentua o coquetismo cruel e egoísta de Cathy. Apesar do luxo da trilha sonora composta por Ryüichi Sakamoto, o filme é bastante convencional e não consegue transmitir a energia destrutiva e sombria que permeia o romance.
Outras versões:
- 1954 – Escravos do rancor, dir. Luis Buñuel – adaptação parcial ambientada no México do século 19. Conta a história de Alejandro e Catalina, vividos por Jorge Mistral e Irasema Dilián;
- 1985 – Hurlevent, dir. Jacques Rivette – versão francesa – apesar da fidelidade ao romance, traz mudanças nos nomes e na abordagem psicológica. O roteiro acentua as percepções difusas das personagens sobre o que é real e o que não é;
- Versões para TV – a mais famosa é a minissérie da ITV, de 2009, produzida por Coky Giedroyc, veterano da teledramaturgia britânica. Protagonizada por Tom Hardy e Charlotte Riley. Aborda todo o enredo do livro;
- 2011 – Morro dos ventos uivantes, dir. Andrea Arnold. Produção britânica com Kaya Scodelario e do ator negro James Howson como Heathcliff. Mais próximo da descrição original reforça o tema da marginalização social;
- 2026 – Morro dos ventos uivantes, dir. Emerald Fennell. Com Margot Robbie e Jacob Elordi. Modifica e distorce o enredo original acentuando uma obsessão sexual entre os personagens.

O morro dos ventos uivantes: edição comentada / Emily Bronté; tradução Adriana Lisboa, Maria Luiza X. de A. Borges; apresentação Rodrigo Lacerda; notas Bruno Gambarotto. 1ª ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2016. Tradução de : Wuthering Heights.