-
Página do Juliano Dupont
Me segura qu’eu vou dar um troço
11/09/2025
Artigo de Juliano Dupont reproduzido de sua página Negativo Operante
Todo cronista nos anos noventa citava Francis Fukuyama e a mal-entendida teoria sobre o Fim da História – o suposto triunfo mundial da democracia e do capitalismo após a extinção da União Soviética e a queda do muro de Berlim – até que os terroristas islâmicos arremetessem os aviões contra o World Trade Center e essa tal de História desabasse na sala de jantar dos bem-pensantes. A pax liberalis chegara ao fim.
Como se as guerras em Ruanda, Balcãs, Serra Leoa, Chechênia, Golfo Pérsico e muitos etcéteras, não passassem de um filme de terror transmitido pelos telejornais, sem grandes consequências para o mundo ocidental. Eram assuntos para o teatro da indignação, da mera exaltação moral sem consequências práticas, guerras irrelevantes exceto como estatística ou como um Grand Guignol no palco da sociedade do espetáculo. Os seus mortos não faziam cócegas nessa “História”, agora renascida em proporções atômicas – a destruição das Torres Gêmeas era Hiroshima e Nagasaki às avessas, um Pearl Harbor a valer.
A tragédia “humanizou” os americanos. A morte dos nossos próximos dói mais do que a morte de um servo-croata nos balcãs. No suposto centro da civilização opera também o mais primitivo tribalismo, e tragédia é quando nós morremos, não os outros.
A Foto

Cinco amigos se divertem e conversam descontraídos sob o sol glorioso do dia onze de setembro de 2001, enquanto assistem à destruição de Nova Iorque, durante um atentado “disruptivo”, recém inventado por terroristas bastante criativos ao inovarem o uso de aviões comerciais, abarrotados de inocentes, para atacar civis, atingindo o resultado de três mil mortos. Cinco amigos se divertem e conversam descontraídos sob o sol glorioso de setembro em Nova Iorque – numa relax, numa tranquila, numa boa.
O fotógrafo alemão Thomas Hoepker inicialmente não quis publicar a imagem porque as pessoas retratadas “pareciam pouco afetadas pelos eventos”. Hoepker hesitava, temendo a rejeição que a imagem certamente provocaria. A foto seria apresentada ao público pela primeira vez apenas em 2005, no Museu da Cidade de Munique, numa exposição dedicada ao artista, e no ano seguinte, finalmente, apareceria em jornais americanos, detonando uma polêmica.
O casal que vemos à direita já estava separado quando, em 2006, o homem e a mulher escreveram a jornais e saites explicando que não era nada do que estavam dizendo, ao contrário, eles estavam consternados, tristes, discutindo o ataque recém ocorrido. A fotografia não era uma representação fiel do seu encontro, não passando de um registro descontextualizado de um instante em que todos sorriram ao mesmo tempo por uma razão qualquer. Acrescentaram também que eles sequer conheciam as duas mulheres de costas e o homem à esquerda, mas que diante de uma tragédia como aquela estranhos conversavam, querendo se aproximar, para tentar entender o que estava acontecendo, buscando um pouco de afeto diante do horror.
Eu acredito piamente no relato dos dois. O que eu acho esquisito é o comentário de que em Nova Iorque seja estranho conversar com estranhos. É só quando acontece uma catástrofe, então, que eles tomam essa atitude radical e conversam com desconhecidos? Eu estive em Nova Iorque e conversei com alguns “estranhos”. Meto a palavra entre aspas porque a palavra estranho, neste sentido, é muito esquisita, porque ninguém é estranho, são todos seres humanos, e eu conheço mais ou menos esse bicho: come, caga, ama, mata, canta e morre, entre outras coisas.
Acho que a declaração, como a foto, também é um equívoco, mas o fato de o casal ter feito esse adendo indica uma percepção média da vida na metrópole. A sensação de que a conversa com estranhos seja rara é, para mim, a revelação da profunda barbárie vigendo sob a superfície civilizada. Que Nova Iorque se julgue o centro do mundo é apenas um sintoma de seu provincianismo.
A foto, portanto, era uma mentira sobre aquelas cinco pessoas tomando sol e conversando tranquilamente diante da tragédia. Eles estavam preocupados, sim, e o instantâneo era apenas um registro descontextualizado. Mas se a foto é uma mentira sobre o encontro dessas cinco pessoas, ela apresenta, no entanto, uma verdade maior sobre a humanidade, sobre como respondemos ao sofrimento, sobre como nos defendemos do horror e da tragédia, sempre inevitáveis em alguma medida para todos nós. A fotografia é a expressão de uma verdade banal – a de que a vida prossegue, apesar de tudo.

Eu vi a foto pela primeira vez em 2009, quando a professora Fatimarlei Lunardelli me deu o livreto de divulgação da exposição de artes plásticas, acompanhada por uma mostra de filmes, chamada O Riso e a Melancolia, entre os dias 23 de junho e 26 de julho, na Galeria Iberê Camargo e na Sala P. F. Gastal da Usina do Gasômetro. A foto de divulgação era a tirada por Thomas Hoepker em 2001.
Eu estudava cinema na Unisinos e fracassava ao tentar redigir, pelo segundo ano, um trabalho de conclusão de curso sobre a obra de Ettore Scola. Não conseguia ficar quieto e me concentrar para escrever. Sempre fui nervoso, ansioso, angustiado. Passei a infância, a adolescência e a maior parte da vida adulta com uma agitação corporal – o bicho carpinteiro – como se meu corpo fosse muito mais uma câmara de tortura do que um parque de diversões.
Só há dois anos atrás, lendo uma matéria na SuperInteressante (eu sou um dinossauro), descobri que tenho TDHA. Nunca dei muita bola para esses conceitos, ouvia falar, à distância, como se não pudessem se referir a mim. O artigo na revista, porém, contava a minha biografia inteiramente, de forma absolutamente fiel, e cada descrição dos sintomas do transtorno do déficit de atenção me parecia um minucioso autorretrato.
Fiz alguns testes e exames e confirmou-se o problema. Perguntei ao psiquiatra se talvez não fosse um exagero – essa moda de tudo a todos diagnosticar – mas ele me garantiu que no meu caso a patologia ficara bem estabelecida pelos exames, sem margem à muitas dúvidas. Eu até não me preocupei muito e senti um certo alívio, porque acho que, dentre todas, o TDAH seja a menor das minhas patologias. No entanto, por outro lado, lamento tantos anos perdidos, desperdiçados tentando estudar e me concentrar inutilmente, fracassando sempre. Durante os anos escolares, passava os dias antes das provas enrolando, me masturbava umas cinco vezes, protelando ao máximo ter que me sentar para estudar matemática, português, física, geografia.
Na faculdade, eu acabei rodando três anos na matéria dedicada ao trabalho de conclusão. Três anos repetindo e fracassando. O resultado é que dois anos depois, quando finalmente terminei e entreguei o TCC, namorei e me casei com a minha orientadora, a Fati. Como os velhos gregos, defendo integralmente a relação erótica e amorosa entre professores e alunos. É coisa boa o amor entre professores e alunos, e desumano o moralismo castrador, sempre cheio de boas intenções, do neo-puritanismo que infecta de ódio histérico os nossos dias.
O título do TCC era Humor e Humanismo na obra de Ettore Scola. Assistindo às comédias de Mario Monicelli, Dino Risi e, principalmente, Ettore Scola, aprendi que o humor não é contrário ao afeto e ao carinho, estando ligado indissoluvelmente às mais importantes tradições humanistas. O World Trade Center pegando fogo na fotografia daquele grupo de americanos rindo em primeiro plano contra os três mil mortos, um pano de fundo digno de Bosch, ou Breughel, é uma maneira de ver o mundo, de sentir o mundo, de sentir junto com os outros. Rir dos outros com ternura e compaixão. Rir de si mesmo, com a dor, apesar da dor. Rir como uma forma de sentir e sofrer, e seguir vivendo. Rir, não contra, mas apesar de. Rir como triunfo temporário da vida sobre a morte.
O riso diante da tragédia não é negação, não é indiferença, mas resistência e afirmação da vida. Humor e humanismo, eu pensava, o riso e a melancolia, juntos, como na exposição da Usina da Gasômetro, uma coisa não excluíndo a outra, uma coisa junto com a outra, plenamente.
A fotografia de Hoepker não representa sarcasmo, cinismo, indiferença, insensibilidade. Debochado? Sim, mas compassivo, com uma terna ironia. O humor do sobrevivente, na certeza de que continuaremos a viver apesar de todo o mal que nos circunda, e de que rir é uma resposta tão humana e tão válida quanto o choro, mas muito mais sábia que o desespero. Numa entrevista para a televisão, Camus afirma que são os alegres que podem ajudar o mundo, não os tristes e os sorumbáticos. Aqui.
Sarcástico foi o inaudível, mas celebrado, compositor Karlheinz Stockhausen, ao proclamar que os ataques de 11 de setembro seriam “a maior obra de arte de todos os tempos”. Era essa espécie de êxtase diante da destruição, quando eu subia a rua Silva Jardim em Porto Alegre, que ouvi de um colega, descendo, gritando exaltado:
– Tu viu!? Tu viu o que aconteceu!?
Eu não tinha visto nada, era meio-dia, havia recém saído de uma aula e estava com fome.
– Destruíram as Torres Gêmeas! Atacaram os americanos!
Ele tinha o cabelo todo ajeitadinho, se vestia bem, queria fazer medicina, mas até esse mauricinho, que nas aulas de história ridicularizava toda forma de utopia, ficara exaltado diante do ineditismo. O poder americano sempre causou inveja, e mesmo um “neoliberal” exaltava, solidário na vingança dos ressentidos que o ataque parecia representar.
Maior êxtase, quase um orgasmo ininterrupto por dias, teve o nosso professor de história do cursinho. Parece piada, mas não é. Boa parte – se não a maioria – dos estereótipos são retratos fiéis. A caricatura nem sempre é falsa. Tento fazer um retrato fidedigno aqui, mas, sendo a realidade o que é, e as pessoas o que são, parecerá inevitavelmente uma caricatura. Não é minha culpa – é da realidade.
O professor de história espocou um champanhe (a contradição é maravilhosa, eu sei, mas era champanhe de Garibaldi) e comemorou. O ataque terrorista agradava tanto ao seu esquerdismo ressentido quanto o mero fato histórico: o ataque às torres gêmeas era realmente extraordinário, o primeiro grande ataque estrangeiro contra o “império ianque”. Finalmente acontecia alguma coisa nesse tédio de democracia, dizia o nosso professor. A leitura da esquerda, depois dos eufemismos de praxe, em média era essa: “os americanos mereceram”.
Eu fui pra casa e fiquei acompanhando na Rádio Gaúcha. Tinha 18 anos e não possuía televisão, nem computador, muito menos internet. Achava que a internet era uma coisa ruim, em parte intuíndo, corretamente, que com ela iria me distrair ainda mais se a possuísse, ou seja, que ela me possuiria. Eu era um semi-neo-ludita e lia apenas jornais, onde todos os dias os jornalistas celebravam a internet como uma maravilha, uma força democrática descentralizadora do poder com sua estrutura em rede, blablablá.
Os jornalistas e os publicitários sempre me pareceram os mais “moderninhos”, sempre prontos a aderir com entusiamos ao novo. Essa prontidão adesista às novas tecnologias se vende como atitude progressista, mas não passa de conformismo, bastante irracional, como se o novo fosse sempre melhor. Duas décadas depois, os jornalistas e os publicitários estão desempregados porque a internet, que eles celebravam, abocanhou os seus ofícios. Na terminologia de Umberto Eco, eles eram os integrados, e eu, o apocalíptico. Hoje, os jornalistas são apocalípticos desintegrados anunciando o fim do mundo a todo momento nas redes sociais onde trabalham de graça. A história faz justiça às vezes.
Na Rádio Gaúcha, o Ruy Carlos Ostermann recebia o poeta Waly Salomão. Todo artista importante que chegava em Porto Alegre descia do aeroporto direto para dar entrevista ao programa de cultura apresentado diariamente pelo Ostermann às 16h. Coisa impensável, hoje, no rádio comercial. Ostermann, sempre lembrado pelo futebol, era formado em filosofia, um homem de cultura.
E Waly Salomão, que viera lançar um livro na cidade, falava, falava como um camelô, como o poeta-camelô que era, da mesma estirpe de Glauber Rocha, e discutia com Ostermann os fatos inacreditáveis daquele onze de setembro, a mesma data do golpe militar no Chile e do suicídio de Allende em 1973.
Em 2021, a Gaúcha reeditou as emissões radiofônicas daquele dia e lançou um radiodocumentário em formato podcast, mas sem incluir os trechos do programa do Ostermann, que foi o melhor das transmissões daquele dia: um apresentador inteligente, entrevistando um poeta delirante, era muito mais elucidativo e interessante do que os relatos do dono do jornal que estava em Nova Iorque naquele dia e mandava notícias pelo telefone.
Waly Salomão queria lembrar de cor aquele poema do Drummond em que o eu-lírico acusava o interlocutor e a si mesmo de covardia por não explodir a ilha de Manhattan.
Era a Elegia 1938, que termina assim:
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
Era esse o êxtase do meu professor de história. O islã fundamentalista, na sua expressão máxima, o terrorismo, realizara o sonho de muitos comunistas de destruir o centro financeiro mundial, plasmado por Drummond neste poema d’A Rosa do Povo.
Antes do atentado às torres gêmeas já havia alguns antecedentes. São muitos, mas prefiro lembrar os mais relacionados à cultura, como em 1991, contra Hitoshi Igarashi, o tradutor de Versos Satânicos no Japão, assassinado a facadas. Depois, o tradutor italiano do livro de Salman Rushdie, Ettore Caprioli, também atacado a facadas. Em 1993, o editor norueguês da obra, William Nygaard, foi baleado.
Depois, em 2004, haveria o assassinato do holandês Theo Van Gogh por dirigir um filme crítico ao Islã, e seguiriam o atropelamento em massa nas ramblas de Barcelona por um caminhoneiro, o Bataclan, o Charlie Hebdo. Até hoje não sei por que não bombardearam o Vaticano. O WTC de certa forma representava uma catedral, a sede de uma nova fé, a fé no mercado.
Na periferia do mundo, eu continuava a ler os jornais ou assistia à televisão, sentado numa bodega. O Brasil tem outros problemas, outros aviões-bomba, metafóricos ou não, nos destruindo o tempo todo. Nós somos os nossos próprios terroristas, e todo dia tem um avião nos atacando por dentro.
A história não para de desabar sobre nossas cabeças, e ninguém mais cita – errado – o Fukuyama, que não tinha culpa nenhuma. O que os cronistas diziam não era bem o que ele queria dizer de sua mal compreendida ideia. Ou talvez tivesse culpa. Para Mário Quintana, quando o leitor pergunta ao autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro. A frase é boa, mas acho um exagero.
Quem acertou foi Samuel Huntigton com sua teoria do Choque de Civilizações, antecipando que seriam as identidades culturais e religiosas dos povos a principal fonte de conflito no mundo pós-Guerra Fria.
Fukuyama, hoje, em 2025, é um social-democrata. E a história segue.
As Cidades
Um dos meus sonhos, que jamais realizarei, mas continuo a imaginá-lo, seria adaptar para cinema o romance de Ernesto Sabato, Sobre Heróis e Tumbas. Uma das sequências do filme que nunca farei seria um clipe com imagens de diferentes cidades do mundo, não apenas de Buenos Aires, sobrepondo-se de forma indistinta, embaralhando as geografias e as referências culturais das cidades, como se fossem uma só megalópole. O ataque às Torres Gêmeas seria a imagem central, a metáfora central.
A trilha não poderia ser outra exceto essa obra-prima da dupla Piazzolla/Ferrer na insuperável interpretação de Amelita Baltar.
Ciudades, fundadas para odiar. Ciudades, tan altas, ¿para qué? Ciudades, cadáveres de pie. Ciudades, al polvo volverán.
Las ciudades | Letra de Horacio Ferrer e Música de Astor Piazzolla
Y entonces fue que dijimos:
Señor, enséñanos
a levantar ciudades
que sean iguales a los árboles
que llegan a estar maduros
antes de quedarse secos
(Génesis, versículo primero,
capítulo 1972, del futuro testamento).
Ciudades, fundadas para odiar.
Ciudades, tan altas, ¿para qué?
Ciudades, cadáveres de pie.
Ciudades, al polvo volverán.
Si aquí la estrella no se ve jamás,
de aquí la tierra, el ser y el sol se irán,
y reinará la soledad total,
que escrita fue la destrucción final.
Ciudades, fundadas para odiar.
Ciudades, tan altas, ¿para qué?
Ciudades, cadáveres de pie.
Ciudades, al polvo volverán.
Qué lindo será reconstruir.
Querida, te beso hasta engendrar
un hijo con vuelo de albañil en paz.
Qué lindo, te nace una ciudad,
qué calles te sangran por los pies,
qué torre será tu corazón con fe.
Y en cada charco habrá un pequeño mar
y en cada fragua un inventor de sol
y en cada puerta la inscripción astral
y en cada triste un aprendiz de Dios.
Ciudades, ciudades que serán.
Ciudades, sentí su anunciación.
Ciudades, las vengo a construir.
Ciudades, del polvo volverán.
Artigo de Juliano Dupont reproduzido de sua página Negativo Operante