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Em Porto Alegre
Leituras
Meu pai e Teixeirinha
12/05/2020

Meus pais saíram da roça para Porto Alegre quando eu tinha seis anos, em 1968. Eles têm a convicção simples de que sempre existem problemas piores do que qualquer dificuldade que se esteja vivendo, não importa o que seja, então não é o caso de se queixar. É uma lição de estoicismo que sedimenta quem sou. Saí da casa deles tão logo pude me sustentar, quando tinha 23 anos e já trabalhava como redatora na Rádio da Universidade e na extinta rádio Pampa, na Rua da Praia. Mas nunca fiquei longe por muito tempo, pois almoçar o churrasco de domingo com a família é uma tradição que se perde em minhas lembranças. Com o isolamento causado pelo covid-19 estamos sem nos ver e sinto uma saudade que se agigantou com a leitura de Teixeirinha coração do Brasil, biografia escrita por Daniel Feix, meu querido amigo e colega na Associação de Críticos. Entremeando a leitura da trajetória desse fenômeno artístico da cultura rio-grandense fui ouvindo suas músicas e vendo os filmes, fáceis de assistir no youtube. O tempo, que perdeu fronteiras no isolamento da pandemia, foi se embaralhando e nas voltas da memória fui me emocionando, pois muito em Teixeirinha me é próximo, familiar e afetivo.
São da década de 30, meus pais: minha mãe Lourdes tem 81 anos e meu pai Luis está com 84 – e embora tenham vivido sua juventude na cidade, em Guaporé onde nasci, assim que se formou a família foram tentar a vida no campo. O pai, que era açougueiro, foi ser lavrador e a mãe, que já tinha sido moça independente como costureira, passou a cuidar das lides da casa, vacas na estrebaria, galinhas no pátio, horta e criança pequena. No fundão onde vivíamos, um lugar isolado chamado Quebra-Dente, num distrito do interior de Soledade, as noites sem eletricidade eram iluminadas por lampião. Da lembrança do pai sentado ao lado do fogão de lenha, enquanto a mãe limpava o feijão para o almoço do dia seguinte, me vem a imagem de um rádio: funcionava à pilha e o sinal era captado por uma antena alta instalada num poste. Aquele rádio – me conta o pai – foi trocado por pedras! Certa ocasião apareceu por aquelas bandas um duvidoso padre que estava vendendo o tal rádio e aceitou fazer negócio em troca de pedras preciosas que meu pai tinha encontrado ao lavrar a terra. Sim, Soledade é conhecida pela extração de pedras preciosas e quando eles se mudaram para lá, em 1962, o município já havia sido imortalizado no Xote Soledade, estrondoso sucesso de Teixeirinha gravado no lado B de seu primeiro compacto em 78 r.p.m, lançado em julho de 1959, pela Chantecler de São Paulo.
Teixeirinha coração do Brasil
O rádio foi o meio de difusão do talento que Vitor Mateus Teixeira revelou ainda na infância, muito sofrida, como tantas vezes cantou em suas músicas, a mais conhecida Coração de luto, sobre a morte de sua mãe quando tinha nove anos. A história dessa canção, pela qual Teixeirinha foi vilipendiado e objeto de escárnio da intelectualidade preconceituosa, abre o livro escrito por Feix. A obra cinematográfica de Teixeirinha – uma notável filmografia de 12 longas-metragens produzidos em Porto Alegre, entre 1967 e 1981 – já havia sido tema de pesquisa por Miriam de Souza Rossini em Teixeirinha e o cinema gaúcho, livro de 1996. Faltava a história da vida desse músico autodidata que se transformou no Rei do Disco no Brasil e, ao morrer, em dezembro de 1985, deixou um legado de 573 músicas gravadas, 64 LP’s, 13 discos de ouro, além de material inédito e álbuns lançados fora do país. Ele foi embora cedo, abatido por um câncer aos 58 anos, mas viveu uma vida intensa e extraordinária que Daniel apresenta em todos os aspectos: das etapas e conquistas profissionais aos relacionamentos e parcerias artísticas. Sua história é também a de Mary Teresinha, acordeonista que foi parceira musical e grande amor de sua vida.
O livro tem a forma de uma grande reportagem e a escrita emula a linguagem da cultura popular da qual Teixeirinha é representante. Esse gesto criativo resulta numa leitura envolvente que pode agradar especialmente ao público fiel do cantor, o que não significa adesão acrítica ao personagem ou abordagem simplificada. Lançado em meados de 2019 pela Diadorim, editado por Flávio Ilha e Denise Nunes, Teixeirinha coração do Brasil esgotou rapidamente a primeira tiragem. Para além de atender saudosos fãs, a obra se impõe como referência pelo rigor da pesquisa, atenção aos detalhes, análise cuidadosa das músicas e acurada interpretação do contexto histórico no qual Teixeira foi um fenômeno de comunicação. Mais de uma centena de entrevistas foram feitas, foram consultados arquivos pessoais, de televisão, rádio e jornais, com visitas às regiões nas quais o artista viveu ou passou, deixando vívidas lembranças entre amigos e fãs. Daniel iniciou a pesquisa em 2004, quando era editor da revista de cultura Aplauso, e de sua extensa e profunda jornada extraiu um relato que, queiramos ou não – para nós meio intelectuais e meio urbanos do Rio Grande do Sul – constitui uma identidade cultural de cujo pertencimento não podemos nos furtar.
Vários números em relação a Teixeirinha são superlativos e não vou me deter neles, para isso recomendo o livro de Daniel. A leitura me levou a perceber uma qualidade comum entre Vitor Mateus Teixeira e Renato Aragão, cuja trajetória e obra pesquisei e está publicada em O Psit! O cinema popular dos Trapalhões. São dois artistas intuitivos com uma capacidade extraordinária de se comunicar com as pessoas simples e transmitir um conteúdo que faz sentido na vida comum do cotidiano. Não são naif – não há neles qualquer ingenuidade que se possa atribuir à arte popular. É curioso que o primeiro filme de Teixeirinha, Coração de luto, uma iniciativa da Leopoldis-Som, produzido em 1966 e lançado em setembro de 1967, seja da mesma época do início da filmografia de Renato Aragão, que em 1965 lançou Na onda do iê-iê-iê, já fazendo dupla com Dedé Santana. Não quero forçar comparações, não se trata disso, mas de apontar a junção entre as mídias modernas e o conteúdo tradicional do trabalho artístico de ambos. Vindo do Ceará para o Rio de Janeiro, Aragão tinha a forte convicção de fazer cinema e televisão, aos quais aliou a tradição circense e o riso do jogo corporal do comediante. Teixeira usou a modernidade do rádio ao longo de toda a sua carreira. Os primeiros programas foram em emissoras na região entorno do Vale do Paranhana, onde nasceu. Foram os espaços radiofônicos, junto com os shows, que lhe permitiram viver só da música a partir da metade dos anos 50. Pelo rádio divulgava sua música, anunciava onde iria se apresentar, dava avisos e mantinha um canal aberto com os fãs. Em 1961 assinou seu primeiro contrato com a Rádio Gaúcha, dando início ao programa diário Teixeirinha amanhece cantando que, como acentua Daniel, se tornou uma tradição do rádio gaúcho ao longo de 23 anos. Ouvi muitas vezes esse programa e em minha memória ecoam os versos melancólicos de Tropeiro velho e Querência amada, que se transformou em verdadeiro hino rio-grandense. Teixeirinha foi um compositor inspirado.
Meus pais fandangueiros
Foto: René Cabrales
A compreensão do sucesso de Teixeirinha passa pelo reconhecimento de sua presença junto ao público: onde houvesse gente, tomava o violão e saía cantando, sempre integrador e se fazendo acompanhar por parcerias musicais. Esse espírito se expressa bem na alcunha Trio Alegre, dos anos iniciais, formado com o gaiteiro Antoninho Rosa e sua segunda mulher Maria Ezi no complemento vocal. As apresentações mais frequentes eram nos bailes pelo interior, mas também em circos, associações comunitárias e nos cinemas. Dos vários causos que Daniel narra há o das peleias com Gildo de Freitas, duelos de trovas que podiam durar horas e eram – no depoimento de Antônio Augusto Fagundes – “[…] das coisas mais lindas que vi na minha vida”. Teixeirinha era bastante autoconfiante e não se mixava de jeito algum, o que incluía o zelo com a indumentária, ainda mais que se tornou representante do gauchismo para todo o Brasil. Uma das boas anedotas é sobre os botões da bombacha: queria que fossem em número superior aos da calça do parceiro Gildo. Comadre Dorilda, que costurou sua roupa até o fim da vida, não teve dúvida, colocou pelo menos 80 para enfeitar a lateral do figurino do artista. Das lembranças de meu pai sobre Teixeirinha vem o relato – incrível! – de uma bombacha branca, cheia de botões, que não tirou durante os três dias em que esteve cantando, divertindo-se e divertindo as pessoas num fandango em Anta Gorda. Meu pai era ainda solteiro, faz tempo, mas ele nunca esqueceu a exuberância daquela vistosa bombacha.
Esse texto é uma singela homenagem ao meu pai Luis Lunardelli, um homem do interior, antigo, que não terminou o primário e decidiu enfrentar as incertezas da cidade grande para que eu estudasse. O ciclo da vida tem aquela insidiosa fase em que os filhos devem se rebelar contra os pais sob pena de não se tornarem adultos – na melhor das hipóteses responsáveis. Isso já passou em nossa relação e me consola que uma parte importante da tarefa parental seja suportar a revolta juvenil dos filhos. A integridade, coragem e tenacidade do meu pai são valores que admiro e por eles procuro orientar minha vida, são o legado mais precioso que me transmitiu com sua presença firme, forte e silenciosa.