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Cinema
Em Porto Alegre
Mrs. Dalloway na Sala Redenção
20/08/2025
Sob o auspicioso gênio literário de Virginia Woolf a jornada do ciclo de estudos Filmes & Livros iniciou na Sala Redenção. O objetivo deste programa que realizo em parceria com a equipe da Difusão Cultural da UFRGS é exibir e falar sobre filmes baseados em livros. Começamos, em 4 de agosto de 2025, com As horas (2003), de Stephen Daldry, adaptado do livro homônimo de Michael Cunningham, por sua vez inspirado por Mrs. Dalloway (1925), de Virgínia Woolf. Nas próximas edições, sempre na primeira segunda-feira de cada mês, vamos examinar as versões fílmicas de A vida invisível de Eurídice Gusmão, da Martha Batalha, e Anna Kariênina, de Leon Tolstói. O texto que segue é resultado das reflexões suscitadas pelo primeiro encontro.
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As imagens de As horas, de Stephen Daldry, compõem meu catálogo interior de cenas inesquecíveis do cinema; assisti quando estreou em Porto Alegre, numa sexta-feira véspera de carnaval, em 2003. Arlequins e Colombinas não me comovem a ponto de entrar na folia atrás de um trio elétrico, e foi na companhia de Mrs. Dalloway, publicado em 1925, que passei aqueles dias carnavalescos por vários motivos guardados na memória. É benfazejo iniciar esse programa – que tem o propósito de examinar e comparar as linguagens do cinema e da literatura – com as excelências de Woolf, Cunningham e Daldry. No ensaio A espécie fabuladora, a canadense Nancy Huston vincula a onipresença das narrativas à necessidade humana de atribuir significados: “o sentido é a nossa droga pesada“. Histórias ouvidas, lidas ou assistidas nos ajudam a ordenar em alguma medida o caos e a confusão da existência. A fabulação dá conta de nossas dimensões inatas, seres que somos dotados de consciência e imaginação.
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Os avanços técnicos da revolução industrial do século XIX atenderam ao nosso anseio arcaico por histórias. O cinematógrafo, que poderia se desdobrar em variadas formas expressivas, se fixou como narrativa quando os pioneiros entenderam que esse seria um bom negócio. A necessidade de manter a atenção e emocionar os espectadores impulsionou a linguagem e o cinema se transformou numa máquina excelente de mostrar histórias. A literatura acusou o golpe e obrigada a se reinventar adentrou o mundo subjetivo de personagens dos quais passou a descrever as angústias, os sentimentos, desejos e estados emocionais difíceis de serem representados nos filmes. O pioneirismo no uso do fluxo de consciência é do francês Édouard Dujardin (1861-1949), uma técnica de escrita que marcou os estilos de Marcel Proust, James Joyce, Samuel Beckett, John dos Passos e William Faulkner e que ganhou, com Virginia Woolf, sofisticação e a qualidade que a inscrevem entre os principais nomes da literatura no século XX. Em Mrs. Dalloway, além dos protagonistas, 116 personagens laterais compõem um painel multifacetado do ser humano no transcurso de um único dia do mês de junho, de 1923. Numa prosa poética conjugada com ritmo e harmonia, o mundo criado por Virginia Woolf começa com a frase “Mrs. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores. Afinal, Lucy tinha muito que fazer“. Em movimento contínuo o leitor entra e sai da mente de criaturas excitadas e assombradas pelos acontecimentos do início do século: a industrialização acompanhada da expansão e melhorias das cidades foram seguidas pelas catástrofes da 1ª Guerra Mundial e da gripe espanhola. As emoções e os sentimentos daquela época de vertiginosas transformações fazem de Mrs. Dalloway um dos principais romances sobre a modernidade.
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O livro de Virginia Woolf é o fio de Ariadne que liga os três tempos narrativos concebidos pelo escritor norte-americano Michael Cunningham em As horas, pelo qual ganhou o prêmio Pulitzer, em 1998. Em 1923, no subúrbio de Londres, Virgínia escreve Mrs. Dollaway ao mesmo tempo em que se debate com o sofrimento mental que acabaria por levá-la ao suicídio, em 1941; no final do século XX, em Nova York, Clarissa Vaughan, editora bem-sucedida, prepara uma festa em homenagem ao amigo Richard que ganhou um prêmio importante de poesia e está morrendo de AIDs; no meio deste arco temporal, em 1949, em Los Angeles, a dona de casa Laura Brown, casada com um herói da 2ª Guerra, mãe de Richard e grávida, começa a leitura de Mrs. Dalloway. Cunningham também concentra os acontecimentos em um único dia, numa escrita em fluxo de consciência e em diálogo intertextual de espelhamentos e duplicações entre personagens, situações e temas instigando os leitores a buscar conexões com a vida da escritora e sua obra literária. Especula sobre o valor e o significado da literatura: para Virginia, escrever é um jeito de não sucumbir ao sofrimento psíquico, possivelmente genético, que lhe produzia dores de cabeça insuportáveis; para Laura, a leitura é refúgio de um mundo que é incapaz de enfrentar e para a editora Clarissa, é seu meio de vida, atravessada e envolta pela literatura. Vale lembrar que Virginia e seu marido Leonard Woolf também foram editores, fundaram em 1917 a Hogarth Press, responsável por mais de 500 publicações em 30 anos.
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A adaptação de As horas é bastante fiel ao original de Michael Cunningham. O roteiro escrito pelo premiado dramaturgo inglês David Hare preserva a estrutura do romance que abre com o prólogo de Virginia dirigindo-se ao Rio Ouse, em 28 de março de 1941, onde mergulhou com pedras nos bolsos (há, portanto, quatro tempos narrativos). Filmar fluxos de consciência é difícil, dado o desafio de materializar na tela abstrações e sentimentos. Stephen Daldry mantém a essência do livro com recursos estritamente visuais articulados com excelência na montagem. A composição dos personagens se dá desde a escolha do elenco – não apenas por competência, mas também pelo tipo físico capaz de informar o caráter. Meryl Streep, com seu corpo robusto e atitude firme dá forma ao pragmatismo das Clarissas, tanto como a amiga dedicada de Richard Brown quanto a esposa do político Richard Dalloway nela espelhada; para ambas os desejos da juventude são lembranças intensas, porém débeis para se sobreporem ao chamado da vida que segue. Laura é o contrário, atormentada pelas trivialidades do dia-a-dia, incapaz de gerir o cotidiano, possui sensibilidade exacerbada ao ponto da angústia paralisante. A aparência frágil de Julianne Moore, sua fala suave e a inquietação do olhar triste dão ao espectador acesso ao seu dilacerante sofrimento interior descrito por Cunningham. Uma das soluções dramáticas mais interessantes do filme foi construir pela fotografia, direção de arte e montagem uma associação entre as sensibilidades de Laura e Virginia Woolf, ambas acossadas pelas lides domésticas. Há diversas alternâncias de planos entre Nicole Kidman (que atuou com um nariz postiço para se assemelhar à Virgínia Woolf real) e Laura/Julianne Moore. A principal associação entre elas é uma sequência sobre o tema dominante da morte enfatizado mais pelo filme do que no livro: mostra Virginia no instante em que lhe ocorre não matar sua personagem Clarissa Dalloway seguida da cena em que Laura, sozinha no quarto do hotel onde foi com a intenção de tirar a vida, desperta assustada, abraça sua barriga grávida e reconhece a impossibilidade do ato extremo. É uma sequência forte, poderosa metáfora visual que engendra o tema dominante do suicídio, entrelaçando ficção e realidade: o filme inicia ao som da água de um rio do qual a câmera se afasta abrindo um plano em que se vê Virginia Woolf caminhando em direção à margem (sabemos o que aconteceu, seu corpo foi encontrado três dias depois); Laura, porém, escolhe viver, decisão tomada ao despertar do pesadelo em que está se afogando nas águas que inundam o quarto do hotel. É um plano visualmente exuberante montado em sequência e exemplo de como a linguagem do cinema opera as metáforas visuais.
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O enredo original de Cunningham ganha potência e beleza na linguagem do cinema. O filme explora as similaridades dos sentimentos da escritora e da leitora: há uma comunhão entre a artista cujo sofrimento é transmutado pela escrita e a pessoa comum, cuja leitura impede submergir no desespero. Virgínia Woolf tinha interesse sobre o poder da literatura e examinou seu alcance. No mesmo ano da publicação de Mrs. Dalloway, em 1925, lançou a seleção de ensaios O leitor comum, originalmente escritos para o Times Literary Supplement, Dial, Vogue e The Yale Review ao longo de 20 anos de atividade crítica em que analisa autores da literatura inglesa como Geoffrey Chaucer, Jane Austen, George Eliot, entre outros. Os ensaios partem da figura do “leitor comum” (emprestada incialmente de Samuel Johnson) em contraponto aos saberes do crítico e do acadêmico. “Lê por prazer e não para destilar conhecimento ou corrigir a opinião alheia. É guiado acima de tudo pelo instinto de criar sozinho, a partir das miudezas incongruentes que lhe aparecem, alguma espécie de todo: o perfil de um homem, o esboço de uma época, uma teoria da arte da escrita. Jamais cessa de, à medida que lê, fabricar uma trama frouxa e flácida que lhe dê a satisfação temporária de ser próxima o bastante do objeto original para suscitar afeto, riso e discussão.” Há uma distância imensa entre escritores e simples leitores que conjugam, porém, o desamparo comum à espécie dos homo sapiens. Foi para escapar do suicídio, relembra o argentino Ernesto Sabato em seu livro de memórias Antes do Fim (1998), que escreveu O Túnel, iniciando em 1948 sua carreira de romancista.
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Mrs. Dalloway deveria se chamar As horas, título afinal rejeitado no processo dos quatro anos que Virgínia levou para finalizar a obra. São as insuportáveis horas a serem vencidas que levam alguns personagens a sucumbir: Septimus Warren Smith, o duplo contrário de Clarissa Dalloway e Richard Brown, seu equivalente no romance de Cunningham. “Alguém precisa morrer para que se perceba o valor da vida“, justifica Mrs. Woolf no filme, num dos diálogos com o marido Leonardo (Stephen Dillane). Para Walter Benjamin a modernidade traz o fim do “contador de histórias”, espécie de cronista de experiências cujos sentidos se completavam em relatos comunitários, transmitidos de geração em geração. No lugar das Scherazades de outrora impera o romance, cujo formado germinado na poesia épica dos gregos alcança expressão plena a partir do racionalismo iluminista e da sociedade burguesa. A experiência do tempo já não é mais circular e aberta, mas teleológica, vivida como finalidade por sujeitos atomizados. Por isso, afirma Benjamin, o “sentido da vida” é o centro em torno do qual se movimenta o romance, cuja função significativa não é descrever pedagogicamente um destino alheio, mas “[…] porque esse destino alheio, graças à chama que o consome, pode nos fornecer o calor que não podemos encontrar em nosso próprio destino. O que atrai o leitor ao romance é a esperança de aquecer sua vida gelada com a morte descrita no livro”. O medo de ser capturado pelos nazistas levou Benjamin a se suicidar aos 48 anos, em 27 de setembro de 1940, na cidade catalã de Portbou onde aguardava com um grupo de refugiados a liberação para fugir da Europa em guerra.
Stephen Daldry tem uma filmografia pequena, não mais do que cinco filmes nos quais reitera o valor transcendente da arte: em Billy Elliot (2005) é a dança e em O leitor (2008) é novamente a literatura evocada em As horas, bálsamo para o nosso gigantesco desamparo diante da aleatoriedade da vida.
SERVIÇO:
- Mrs. Dalloway (Mrs. Dalloway). Trad. Claudio Alves Marcondes. SP. Ed. Penguin, 2017.
- As horas (The hours). 2002. Dir. Stephen Daldry. Rot. David Hare. Com Nicole Kidman (Virginia Woolf), Stephen Dillane (Leonard Woolf), Miranda Richardson (Vanessa Bell), Julianne Moore (Laura Brown), John C. Reilly (Dan Brown), Meryl Streep (Clarissa Vaughn), Ed Harris (Richard Brown).
- As horas (The hours). Michael Cunningham. Trad. Beth Vieira. SP, Companhia das Letras, 1999.
- O leitor comum (The Common Reader). Trad. Marcelo Pen e Ana Carolina Mesquita. SP. Editora Tordesilhas, 2023.
- A espécie fabuladora (L’epsèce fabulatrice). Nancy Huston. Trad. Ilana Heineberg. PoA, L&PM, 2010.
- Walter Benjamin, obras escolhidas, vol.1. Artigo Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov . Trad. Sérgio Paulo Rouanet. SP, Brasiliense, 2012.