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Página do Juliano Dupont
O Sacrifício da Alma
07/09/2025
Santana em Woodstock, sábado, 16 de agosto de 1969, às 14h 30m, realizando o sacrifício de um milhão de almas – com o auxílio xamânico de Michael Carabello e Jose Areas nas congas, David Brown no baixo, Gregg Rolie no hammond, e Michael Shrieve no melhor solo de bateria
Artigo publicado originalmente em O Sacrifício da Alma – by Juliano Dupont
Procuro uma música que faça comigo o que costumava fazer na infância e na adolescência, me arrebatando num transe de possessão, como se atingido por um raio.
Tomar ayahuasca foi como o raio atingindo o highlander, um orgasmo não em ondas de espasmos, intensos mas curtos, não, era um raio sem fim, o raio eterno e constante, como Saulo na estrada de Damasco mas sem a conversão, só o raio, apalermado e fixo num só instante, uma luz vindo do céu mais brilhante do que o Sol, refulgindo em volta de mim e dos que iam comigo, era o big bang explodindo no meu sistema nervoso, um só orgasmo semelhante a uma tortura, uma tortura de prazer na eternidade.
E procuro na música o contrário, como quem, na velhice, esperasse do destino o presente de um amor tardio, calmo e profundo, não de tempestades superficiais, o amor derradeiro, de carinho e cuidado, de afeto antes da partida, beijo de despedida, amor no leito moribundo, me sentindo com antecipação como um ex-condenado em pena comutada, onde a luz e a música me consumissem, em que eu me desfizesse em partículas musicais, e depois de morrer ressuscitasse como música, ou que pelo menos nos instantes antes da morte e do nada eterno de onde vim e ao qual retornarei, nesses poucos instantes se projetasse aquele almejado filme da vida, e eu revisse tudo e todos, como ao final de 8 e 1/2, tudo e todos, e que todos me perdoassem e que eu perdoasse a todos, e então, antes de morrer, sobreviesse uma sensaçao de eternidade, eu virando uma melodia, dissolvendo-me no ar, me desintegrando em átomos, em fragmentos musicais na sinfonia do Todo, melodias enlançando-se a outras melodias como serpentes fantamas namorando pelo ar, ou, de novo, o raio, que o universo no instante derradeiro me atingisse como um raio, como o raio do highlander ao revés – um raio de paz, amor e afeto, e eu me fosse embora como na Gymnopédie, dentro da Gymnopédie, transformando-me na Gymnopédie, ou me dissolvesse no Köln Concert, e morrer, depois de gozar o tudo e o todo, sem perceber, dissolvido no gigantesco não-eu, ou numa música inaudita, como dentro de casa ouvindo o fim da chuva sobre a grama, as últimas gotas, e então o cricrilar, o cigarrear e o pio do primeiro grilo, da primeira cigarra e do primeiro pássaro emergindo depois da tempestade, entre os meus últimos suspiros e os primeiros sinais da vida que continua, entre as últimas gotas da chuva que arrefece e morre suavemente para que as criaturas renasçam e eu parta como rio dissolvido no mar.

A música é um acelerador de partículas emocionais, uma bomba incontrolável, portanto perigosa – Platão estava certo, na perspectiva de um talibã. Amamos a música porque amamos o perigo, porque amamos o animal que somos e o demiurgo a que aspiramos ser.
A música é uma droga. Não um pensamento, um logos, uma forma discurso – a música é um narcótico poderoso. O único narcótico de que dispunha na infância. Fuga de si, fuga do pensamento em direção ao irracional, mas também o encontro com outras dimensões do ser, um alargamento dos mundos, expansão dos eus no mundo lá fora, o gigantesco não-eu.
How can we know the dancer from the dance?, diz Yeats num verso – como distinguir a dança do dançarino? A maior integração entre música e ouvinte é a do dançarino. A música nos possui e nos consubstanciamos, tornamo-nos uma coisa só.
Música é mistificação, ilusão. Música é religião até em baile funk. Quando todos são um e o Um é tudo, eu ouvia pela primeira vez no Led Zeppelin IV, e era a nostalgia do absoluto, o anseio pelo sagrado, pela comunhão, pela celebração coletiva – parada nazista, parada gay, terreiro de umbanda, estádio de futebol, show de arena, culto evangélico ou missa do papa, Woodstock.
Depois de ouvir tantos discos, como recuperar o prazer virginal? O prazer do difícil tem secado a seiva em minhas veias – Yeats de novo. Como se manter interessado quando tudo parece um “déjà ouvi”? Tudo soa como a uma conversa ouvida milhares de vezes. Felicidade é “nascer burro, crescer ignorante e morrer de repente”, dizia Bruno Tolentino.
Como um Gauguin no Taiti, como Pasolini na África, procuro vampirescamente a energia no que não é europeu. Doente de civilização, espero de alguma alteridade a salvação, a seiva vital, como os que esperam dos bárbaros a salvação no poema de Kaváfis. Mas quando os bárbaros somos nós, a salvação é um sonho possível ou apenas delírio de um moribundo?
O músico é um xamã, um misto de sacerdote, exorcista, hipnotizador e curandeiro, um para-raios dos desejos e rivalidades da turba, celebrando o sacrifício no altar do palco em nome da congregação.
O ato sacrificial, segundo René Girard, nasce como resposta à violência acumulada de desejos e rivalidades que ameaça desintegrar a comunidade. Para restaurar a ordem, a multidão elege um bode expiatório: uma vítima inocente sobre a qual projetam toda a culpa e agressividade reprimidas. Ao sacrificá-la, canalizam e dissipam a violência interna, reconstituindo a coesão social.
O roqueiro encarna essa figura ambígua: é ao mesmo tempo sacerdote e vítima. O palco é o altar onde conduz a liturgia profana, encenando a própria morte através de uma catarse emocional, pela autodestruição performática. A plateia é a comunidade em êxtase hipnótico transferindo as paixões, as angústias, os desejos e a violência coletiva sobre o corpo do artista.

O roqueiro é o cordeiro de Deus, aquele que absorve a violência da multidão e a transforma em espetáculo, em redenção estética ao encenar a própria morte. A comunhão se consuma no sacrifício simbólico do roqueiro que morre por nós.
Na encenação da própria morte e da própria ressurreição em nome da congregação, o músico é ao mesmo tempo o assassino e o assassinado, o sacerdote e o sacrificado.
Nós já não precisamos morrer, não há mais nenhum pecado a expiar: o músico, como Jesus, morreu por nós na liturgia profana oficiada sobre o palco.
A violência coletiva é consumada no assassinato coletivo do bode expiatório – o mundo agora está em paz.
Artigo publicado em O Sacrifício da Alma – by Juliano Dupont