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Cinema
Página do Juliano Dupont
O suplício do isentão
17/07/2026
[Publicado em O suplício do isentão – by Juliano Dupont]
Emcimadomurismo: como me tornei um extremista do meio-termo, radical de centro e fanático da moderação
Vem comigo que no caminho eu te confundo
Nunca me xingaram de moderado. Até a neutralidade ou a indiferença eu manifestava de maneira exaltada. E embora algumas de minhas declarações pudessem ser consideradas de bom senso, o temperamento acalorado e a afirmação destemperada compuseram um quadro a meu respeito que foi definido assim por um amigo: eu sou, às vezes, aquela espécie de louco de quem as pessoas desviam na calçada. Talvez pelo excesso de gesticulação, não sei. O melhor, em todo caso, é não tentar se defender e aceitar os defeitos, mesmo os injustos, que nos atribuem. Como diz Mário Quintana:
Sorri com tranquilidade
Quando alguém te calunia.
Quem sabe o que não seria
Se ele dissesse a verdade…
Porque só nós mesmos podemos saber o quanto somos pior do que nos imputam os outros. O envelhecimento e a busca pela melhor e mais correta resposta moral frente aos problemas da vida, entretanto, foram me conduzindo ao centro do espectro político, coisa que me intriga do ponto de vista intelectual e ético.
A própria ideia de centro e de moderação parece absolutamente repudiada por todos. Vivemos um tempo de altas temperaturas políticas, e o aquecimento moral talvez seja mais intenso que o aquecimento global — o que é péssimo, porque ninguém consegue pensar bem de cabeça quente. A política — é preciso reconhecer — na prática tem pouco a ver com a razão: é antes um efeito racionalizado de nossas emoções morais.
Envelhecer não implica uma inclinação natural à moderação. Alguns envelhecem tornando-se mais rígidos, outros, mais flexíveis. Eu, acalorado e desequilibrado, fui aos poucos me percebendo um moderado, numa resposta defensiva ao clima violento do atual discurso político. Não um relativista para quem tudo é válido, mas alguém que tenta entender e reconhecer as razões dos outros e as emoções morais que fundamentam qualquer ideologia política.
O percurso que me transformou em um extremista do meio-termo, num radical de centro, num fanático da moderação, me atormenta quando me pergunto se isso corresponderia a uma evolução ética, intelectual e racional, ou se eu não seria apenas um isentão covarde, uma espécie de oportunista protegido pela máscara da tolerância.
O Evangelho dos colaboracionistas
Foi ao ler O Reino, livro sobre os primórdios do cristianismo escrito por Emmanuel Carrère, que o problema se instalou na minha cabeça. Num determinado trecho, antepondo as personalidades de Lucas, um moderado do centrão, e Paulo, no papel de exaltado e radical, Carrère descreve assim a personalidade do evangelista:
Homem que pensa que a verdade mantém sempre um pé no campo adversário. Como diz um personagem de “A regra do jogo” [filme de Jean Renoir], todo mundo tem suas razões e a tragédia da vida é que todas essas razões são válidas. O oposto de um sectário.
Tudo isso me parece ótimo, o ápice do bom senso, o auge da tolerância, o antídoto perfeito ao fundamentalismo, ao partidário fanático ou a qualquer militante que acredita possuir a verdade. Muito bem, eu sou isso, eu gosto disso, concordo com a frase de A Regra do Jogo, julgo-a uma abordagem inteligente e compreensiva, uma moral transigente com o interesse dos outros, principalmente em relação aos nossos adversários. Porque é em relação aos nossos adversários, aqueles que pensam diferente de nós, a quem devemos a maior tolerância — afinal, não é preciso tolerância e compreensão para quem concorda conosco.
Carrère também se identifica com essa posição. Mas no comentário seguinte ele põe em xeque essa possibilidade e me deixa angustiado. Ele escreve:
A frase de “A regra do jogo” é o evangelho dos relativistas e, sejamos claros, dos colaboracionistas de todos os tempos.
Dos colaboracionistas de todos os tempos! E só pra lembrar: colaboracionista, para um francês, é praticamente sinônimo de apoiador do regime de Vichy, em suma, um nazista por adesão ou omissão. Carrère escreve isso assumindo-se um moderado, reconhecendo-se nessa personalidade relativista muito próxima do oportunismo.
Identifico-me com Carrère, li quase todos os seus livros publicados em português. Acho que somos parecidos — nos defeitos, não nas qualidades. Ao lê-lo, me reconheço na sua vaidade e no modo afetuoso, embora cínico, com que observa a vida. Gostaria de escrever como ele. Não sonho ser um Tolstói, sonho apenas em ser um pequeno Carrère, que já é pequeno, e mesmo assim… Só não me identifico com sua depressão; isso, desconheço. Mas no seu distanciamento político, essa moderação muito duvidosa moralmente, assim como da angústia moral que ela nos causa, nisto somos irmãos.
O suplício do isentão
A rejeição aos moderados não é nada nova, é bem antiga. Deus vomita os mornos. Numa metáfora sobre os que não têm compromisso nem firmeza na sua fé, em Apocalipse (3, 16), diz:
Conheço as tuas obras, porque não és frio nem quente. Prouvera que fosses frio ou quente. Assim, porque és morno e nem quente nem frio, estou prestes a te vomitar da minha boca. (tradução de Frederico Lourenço, Bíblia -Vol II, Cia das Letras.)
No Inferno de Dante, entre as múltiplas formas de suplício e as criativas maneiras de torturar os condenados, há uma muito curiosa: o destino dos indiferentes, dos mansos, dos isentões, de todos aqueles que, na vida terrena, não tomaram partido em nada, nunca.
Na interpretação de Dante, os isentões não merecem nem as alegrias do Paraíso nem as dores do Inferno, sendo portanto inútil uma temporada no Purgatório (uma espécie de Gramado no Natal Luz).
No Canto III, o mesmo onde lemos a famosa inscrição Lasciate ogni speranza, voi ch’intrate, Dante se encontra na antecâmara do Inferno e ouve suspiros, prantos, palavras doloridas, gritos de ira. Com lágrimas nos olhos, pergunta a seu guia, o poeta Virgílio:
— Mestre, que é isso em meu ouvido,
que gente é essa, louca assim de dor?
— E ele: “Esse mísero gemido
é o das almas aflitas que viveram
sem louvor nem infâmia ter obtido.
Juntas estão dos anjos que cederam,
não sendo fiéis nem tendo rebeldia,
mas somente a si mesmas se renderam.
Do céu foram expulsos porque havia
fealdade neles, e o inferno os barrou
para aos seus réus não darem alegria.”
É o destino dos egoístas, dos insossos, dos homens e mulheres que em vida não defenderam nenhuma bandeira, destino compartilhado pelos anjos que ficaram em cima do muro na revolta de Lúcifer contra Deus. São anjos que, quando o Mal se rebelou, não se aliaram a ele nem a Deus. Por essa razão, ninguém os quer, nem o céu nem o inferno. É um tipo que nos deixa em dúvida sobre o seu cárater, entre o canalha e o egoísta, o indiferente e o parasita. Covardes para assumir sua opinião, nunca se manifestam, vivendo à sombra dos mais corajosos, o que os torna também invejosos dos que agem e assumem posições e responsabilidades expondo-se ao perigo.
O desprezo do poeta por essas pessoas é completo. Para ele, essas almas “nunca estiveram vivas”. Dante impõe uma punição severa: correr incessantemente, nus, atrás de uma bandeira que não representa nada, atormentados pelas picadas de vespas e moscas até sangrar, e depois até que o sangue deles seja, finalmente, coletado por vermes assustadores rastejando aos seus pés.
Há uma palavra antiga em português, usada na literatura dantesca, que resume todas essas: ignavos. Ignavos são os neutros, os indolentes, todos aqueles que não fizeram nem o bem nem o mal.
Virgílio diz:
— Não lhes cabe esperança nem de morte
e a sua vida cega é tão sem graça
que invejam toda e qualquer outra sorte.
Não lhes cabe esperança nem de morte — que verso cruel! O horror de nunca receber a misericórdia da morte, condenados a permanecer no vestíbulo do Inferno durante toda a eternidade sem ao menos a chance de um purgatoriozinho para os purgar da insipidez moral.
E eu apostaria que, em meio aos suplícios e às torturas infligidas, todos esses chatos, no corredor de entrada da casa do demo, devem estar relativizando a própria situação de condenados, defendendo ora a justeza da pena a que são condenados ora a sua injustiça. Estão semi-vivos, sem poder gozar nem sofrer tudo o que é inerente à vida, numa sobrevida vazia, eternamente esperando, mas sabendo que nada acontecerá nunca mais.
Virgílio encerra o assunto, e numa última mirada despicienda àqueles infelizes eternos, diz a Dante:
— não falemos deles: olha e passa.
Evitar o Mal, Praticar o Bem
Esses moderados (eu?) insossos e covardes não são (sou?) uma espécie de Fausto que compactua com o Demo em troca de privilégios. São apenas aqueles que preferem, no silêncio e na maior discrição possível, garantir a sua vidinha, não se incomodar com ninguém nem intervir em benefício de outros se isso lhes trouxer algum prejuízo (de qualquer ordem).
Evitar o mal me parece um excelente princípio, como no adágio médico primum non nocere (primeiro, não cause dano). Mas apenas evitar o mal não me parece suficiente diante das injustiças, e quanto mais próximas, mais somos afetados, emocional e moralmente, pelo sofrimento dos outros (seja por razões altruístas ou egoístas, considerando que uma pode estar disfarçada sob a outra). Se evitar o mal, então, não é suficiente, é preciso, portanto, praticar o bem. Resta saber qual bem e como, porque os fins e os meios não se correspondem necessariamente. E se, ao buscar o bem, não causamos um mal ainda maior.
Como ser um anarco-conservador-liberal-socialista
É possível ser ao mesmo tempo socialista, liberal e conservador dependendo do problema político em questão. Sobre isso há um engraçado e inteligente artigo do filósofo polonês Leszek Kołakowski, Como ser um conservador-liberal-socialista. O leitor o encontrará facilmente procurando na Rede (deixarei também em PDF ao final deste texto, em inglês e espanhol, para quem quiser baixar. Tem apenas duas páginas).
Kołakowski demonstra que não há contradição entre as principais correntes políticas, sendo coerente defender o ceticismo antropológico conservador, as ideias de liberdade do liberalismo clássico, e a procura de igualdade socialista, uma corrente moderando a outra, porque a versão extrema de cada uma delas leva ao desastre. O autor argumenta que essas três perspectivas não são mutuamente exclusivas, sendo possível ser um “conservador-liberal-socialista” simultaneamente, concluindo que essa síntese de ideias não é contraditória, mas uma postura pragmática diante da complexidade da vida política.
Eu apenas acrescentaria ao quadro do Kołakowski o anarquismo, podendo também ele se combinar com os outros três — o ethos anárquico pode temperar nossa caldeirada política. É assim que me entendo, como um anarco-conservador-liberal-socialista, cada um deles em maior ou menor grau conforme a pauta em debate.
Temas diferentes exigem uma reflexão dedicada a cada um deles, usando-se de todo o arsenal filosófico possível, sem adesão em bloco a uma lista de soluções oferecidas por um partido. Só um extremista, fanático, fundamentalista, ou um ingênuo, um tapado, recusaria a hibridação, embora isso seja cada vez mais comum em nosso tempo que condena as mestiçagens, raciais ou ideológicas — a mente autoritária sonha com purezas e transparências.
Muitas combinações políticas são possíveis, e um cidadão teria condições de pensar a respeito e decidir apoiar cada causa conforme seu julgamento moral, sem necessária adesão integral a um bloco exclusivo do espectro político, uma dificuldade que se agravou nos últimos tempos porque, nos partidos e na sociedade, a rejeição à heterodoxia se radicalizou ao ponto da intolerância.
Desconfiar que a verdade não pertence a nenhum partido ou ideologia, nenhum deles detentores do monopólio da virtude, e que nenhum e ninguém pode ter a certeza sobre o que é certo ou errado em termos morais (porque, em última instância, toda opinião política é resultante de uma convicção moral), me parece uma posição sábia, democrática e moderada. (Sei que afirmar ‘ninguém detém a verdade’ é, ironicamente, reivindicar conhecer uma verdade absoluta e não relativa. Mas esta quase certeza me parece a menos perigosa, considerando os outros absolutistas que não se reconhecem como absolutistas. E é meio inevitável fazer uma afirmação absoluta quando se critica o relativismo, embora, pretendo discutir mais adiante, não seja o relativismo o que eu advogo).
As contendas sobre o que é certo ou errado embasando as ações que deveremos tomar devem ocorrer na prática política, aceitando e partindo do princípio que podemos estar errados e que os outros podem estar certos, ou que os dois possam estar certos, ou nenhum, mas que chegarão a um acordo.
Alguns dirão que para o bem do sistema democrático algumas ideologias devam ser banidas e suas manifestações, censuradas. Tolerar o intolerante poderia, nessa visão, eleger a intolerância. Argumento que nunca me convenceu porque, se os intolerantes venceram, é porque muito antes já haviam conquistado a mente de boa parte da população. A solução, me parece, seja que o combate às ideias se faça com mais ideias e não com a supressão de algumas, justamente o que os intolerantes gostariam. São as ações e não as ideias, mesmo as piores, que devemos conter. Em casos extremos, quando a violência irrompe, as forças da ordem devem agir. No caso de um golpe de Estado, uma ditadura, não vejo muito opção entre aderir a contrarrevolução ou a uma adesão omissa ao estado de exceção — ou seja, esperar passar, o que a maioria faz em caso de ditadura, considerando que uma guerrilha de amadores, além de em geral defender uma ideologia pior, sempre perderá para um exército moderadamente treinado.
Universalizando o provincianismo
A política, mesmo quando informada por fatos (verificáveis), não implica uma conclusão ética como se houvesse encontrado uma verdade definitiva. Ela pode, e deve, se embasar na ciência, mas não é científica, porque o seu fundamento é a moral, não os fatos. Os fatos podem e devem interferir e informar nosso raciocínio ético, mas não os determinam, nem deveriam. Tratar a política com a qual simpatizamos como uma verdade moral é uma característica totalitária, a universalização de uma moral partidária, ou, como eu prefiro dizer, paroquial.
Acontece que, ao contrário do imperativo categórico kantiano ou do racionalismo bonachão de Peter Singer, que acredita que a razão, acima dos contextos culturais, possa levar a uma ética com validade universal próxima da verdade científica, o que ocorre é que a moral, fundamento da política, é sempre contextual, geográfica, cultural.
Nada de errado, a meu ver, em ser paroquial, portanto. Errado, e imoral, é pretender universalizar o próprio paroquialismo. É esta a ferida imperialista do Ocidente, oriunda do universalismo monoteísta que, ao acreditar numa verdade única e exclusiva, fundamenta e leva ao imperialismo, usando de uma razão instrumental para impôr a outros povos o seu modelo ético — universalizando o provinciano. O imperialismo hoje não atende mais pelo nome da Cristandade ou de algum império europeu, mas pelo nome de Direitos Humanos — que não passa de uma versão dos Evangelhos laicizada pela Razão Iluminista.
Essa é outra contradição europeia — ao mesmo tempo relativista em seu pretenso multiculturalismo, e absolutista, imperialista, na imposição de seu código de ética a todos os povos do mundo. Vai dar merda, claro, e a velha ordem liberal já está indo pro saco. O que emerge me parece ainda pior, com China e Rússia chegando forte, mas pelo menos escancarando a farsa da democracia liberal: ela fera a soberania dos povos e das nações que não queiram aderir ao “universalismo de seus valores”. Os impérios não seriam melhores, mas tenho alguma dúvida se num império não exista mais autonomia para as cultura locais, ao contrário do modelo do estado-nação que, no caso brasileiro, é muito centralizador, seguindo o modelo francês. O Brasil também funciona um império (Benjamin Moser chamou isso de Autoimperialismo), e nosso federalismo é meramente formal. O problema, então, é o Estado-nação, mas disso eu não consigo ver saída, nem tenho ideia alguma por enquanto, exceto aceitar esse horror.
Um sábio não tem ideia — Contra o relativismo sem incorrer no absolutismo universalista
Para escapar da paralisia do covarde ou da omissão estratégica do oportunista, sugiro uma proposta de François Jullien em Um Sábio Não tem Ideia. Nesse livro, Jullien trata da sabedoria oriental, especialmente o tao, em contraposição à filosofia europeia. Descobri esse livro por recomendação de Hermano Vianna, que, ao lado de Gilberto Gil, usavam-no como um I-Ching durante sua gestão no Ministério da Cultura.
O sábio chinês recusa as dicotomias, o binarismo, o maniqueísmo. Pensam e agem por paradoxos. Não sei se estimulo a leitura do livro, mas há algo dessa sabedoria ao modo baiano também, ao menos no baianismo caetanista e gilista. Caetano é o campeão em afirmar coisas contraditórias, “a força da grana que ergue e destrói coisas belas”, quer dizer: capitalismo é lindo e horrível, dizer o sim e o não ao mesmo tempo. É a sabedoria sino-baiana, minha gente. Gilberto Gil, mais que Caetano, é insuperável na logorreia nonsense, então não sei se não estou desestimulando a leitura do livro…mas lhes garanto que é maravilhoso.
Jullien defende não aderir à ideias fixas, a manter um certo distanciamento próximo da ética estoica ou epicurista, uma ataraxia; porém, ao contrário da negação ascética da vida política, defende que flutuemos entre os polos do debate, absorvendo os argumentos, as razões dos outros, tentanto entender — melhor: ser — o outro, para que diante do contexto de decisão, em momentos de alta pressão política, possamos tomar posição. A decisão não implicará adesão nem conversão a qualquer visão específica do mundo, apenas que, enfrentando um problema numa determinada situação em determinado contexto, julgaremos e decidiremos o que nos pareça o mais correto.
Quando o tempo chega a um momento crítico, a um binarismo excessivo, mesmo o anarquista poderá decidir que é melhor escolher, temporariamente, um lado, elegendo o menos pior. Ou continuar recusando a participação no voto — ficando sempre a dúvida se o seu é um absenteísmo engajado, não uma negação da política, atuando como uma outra forma de afirmação política, ou se é uma covardia.
O direito à abstenção como posição política e o abandono ascético da vida pública, o desengajamento, o distanciamento do mundo, podem ser um busca da ataraxia. Não é uma negação da política, apenas a criação de outra política fora das instâncias oficiais. Política do avestruz, dirão alguns, lembrando que “idiota”, na Grécia, era o cidadão que se recusava a participar da vida pública e política da cidade (pólis), isolando-se em seus próprios interesses privados (idios)…Não percebo vantagem na democracia, entretanto, se a participação for obrigatória. Um direito não deveria ser um dever. Voto obrigatório é, no mínimo, contraditório.
Porque a política também se faz em nível metapolítico (teoria mais à direita) ou na disputa pela hegemonia cultual (gramsciana), e talvez seja aí que se movam as placas tectônicas das massas e os seus desejos. Chamam isso, hoje, de guerras culturais. Gramsci usava a ideia de hegemonia, aceitando essa disputa, e estava certo A direita também é, paradoxalmente, cada vez mais gramscista.
Eu proponho que façamos como um sábio chinês, ou um sábio baiano, não aderindo a nada, a nenhuma igreja, a nenhum partido, observando e analisando cada contexto e cada problema, tentando encontrar os melhores argumentos em meio a barafunda dos discursos e tomando, contextualmente, uma decisão.
Há dois pontos complicados que paralisam o meu raciocínio:
E se fôssemos alemães em 1933? Ou brasileiros em 1937 ou em 1964? Há uma diferença crucial entre moderação e covardia, sem dúvida. Mas faria diferença qualquer ação para impedir o nazismo ou a ditadura? Acho que não.
Outro problema, mais grave: para Desidério Murcho (o nome é broxa, mas o seu pensamento é muito potente), professor de filosofia e escritor, a linguagem humana não evoluiu principalmente para descobrir a verdade.
Evoluiu para enganar”, ele diz, “para criar laços, defender território, impressionar os outros. O raciocínio rigoroso, a lógica, a matemática, a ciência, tudo isso é recente e artificial. É uma construção contra-natura. Por isso é difícil. Por isso cansa. Por isso a ciência só surgiu no século XVII, apesar de toda a inteligência grega. As posições políticas não têm fundamento racional, têm fundamento tribal. As pessoas não escolhem uma posição porque a estudaram e a acharam mais sólida. Escolhem-na porque é a posição do grupo a que pertencem. E depois defendem-na com a convicção de quem descobriu uma verdade.
Se isso for verdade, e há evidências confirmando, então a conclusão é fácil: estamos fodidos. O que é mais uma razão para continuarmos pensando e discutindo. Inútil? Talvez, mas não temos outra opção exceto continuar discutindo.
Aqui os PDFs de Como ser um conservador-liberal-socialista de Leszek Kolakowski
Em inglês, publicação original:
Tradução em espanhol:
[Publicado em O suplício do isentão – by Juliano Dupont]