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Página do Juliano Dupont
O vulcão solitário
07/07/2026
[Publicado em O vulcão solitário – by Juliano Dupont]
Ezra Pound: o homem que inventou a própria era
Aos treze anos, Ezra Pound escreveu no diário: “Serei poeta. O maior de todos.”
A depender do critério, realizou sua ambição. Se não pela qualidade, pela grandeza do seu desejo, pela força e pela extensão de sua influência no mundo cultural da primeira metade do século XX, sim, foi o maior. Ele foi o mais apaixonado e o mais violento dos artistas. O melhor amigo. O melhor editor de seus amigos e o mais poderoso divulgador de suas obras.
Hemingway, em 1925, descreveu Pound como alguém que dedicava apenas um quinto de seu tempo à própria poesia:
Com o resto de seu tempo ele tenta aumentar a fortuna, tanto material como artística, de seus amigos. Defende-os quando são atacados, põe-nos nas revistas e para fora das prisões. Empresta-lhes dinheiro. Vende os seus quadros. Arranja concertos para eles. Escreve artigos sobre eles. Apresenta-os a mulheres ricas. Consegue editores para os seus livros. Senta-se durante toda a noite ao lado deles quando pretendem estar morrendo e testemunha seus últimos desejos. Adianta-lhes as despesas de hospital e dissuade-os do suicídio. E ao fim de tudo poucos deles se abstêm de apunhalá-lo na primeira oportunidade.
Arqueólogo inventor de futuros, das ruínas da civilização Pound sonhava com uma arte nova, instigando formas inéditas de criação e apreciação. Vejo suas fotos e todas retratam “O Artista”, o poeta arquetípico, louco, visionário, profeta.

“Se puderes renovar-te num dia, faze-o dia após dia; que haja renovação diária.” Esta frase Pound encontrou num clássico confucionista, o Da Xue (o Grande Aprendizado). Trata-se de uma inscrição lendária gravada na banheira do imperador Tcheng Tang, e possuía um sentido moral e espiritual que servia como guia para o governante: ao se lavar na banheira, também precisaria purificar o caráter todo dia.
Com pouco conhecimento do chinês, Pound comete um erro criativo, uma tradução equivocada, mas fecunda. Em vez de renovar-te, renova a coisa (o it, em inglês), transforma o lema moral em programa estético.
Make it new (faça-o novo; renovar) se tornaria, retrospectivamente, a síntese do programa de ruptura das vanguardas. Mau filólogo, portanto, mas poeta desbravador, com o trunfo que o destino reservou a muito poucos: a rara capacidade de influir diretamente no mundo.
Nada é mais poundiano do que a ironia deliciosa de que a origem desse lema modernista esteja numa (má) tradução do passado remoto chinês. Tão abundante de possibilidades quanto vazio e equivocado, tão frutífero quanto destruidor, o make it new expressa o desejo de Pound de sintetizar todas as culturas do mundo. A megalomania lhe caía muito bem.
Os Cantos representam a tentativa de reunir todas as civilizações, que para ele não passavam do passado greco-romano, da Europa moderna, da história americana, de um Oriente mais imaginado do que conhecido da China e Japão, e alguma coisa da África.
Pound entendia que o passado muda o tempo todo e que a tradição está repleta de possibilidades novas. O poeta é o autor da história emocional e estética da humanidade ao recontar o passado e refundar a tradição, promovendo o grande aggiornamento, explodindo o presente em direção a um futuro radical. O poeta é o civilizador, inaugurador ou reinaugurador de mundos. Assumindo o seu projeto, Pound se imaginava uma mistura de Homero e Confúcio, combinando os Vedas e Dante, o Bhagavad Gita e Calvino, a Bíblia e o Tao Te King.
Ele teve também o grande mérito de redescobrir, ou de reapresentar (make it new!), poetas do passado europeu, como Arnaut Daniel e Guido Cavalcanti. Sua política estética (e polícia estética também) foi replicada no Brasil pelos irmãos Campos, em toda a sua contradição: os mais radicais vanguardistas eram também os tradutores de poesia arcaica, principalmente a pouco lida e obscura.
Ao longo da vida, Pound foi recolhendo e traduzindo poetas orientais e provençais, misturando o canto trovadoresco com as recém-descobertas possibilidades do ideograma como um método de composição poética que, em vez de narrativas lineares, lhe sugere a justaposição de imagens e ideias contrastantes para criar novos sentidos. É uma teoria semelhante à de Eisenstein sobre a montagem cinematográfica.
Bom mesmo são os ensaios O ABC da Literatura e A Arte da Poesia. Pound é um grande prosador, pensador enérgico, cheio de ideias, idiossincrático, polemizador. O Pound poeta, em geral, é uma frustração. “Os Cantos são quase todos inaproveitáveis”, diz Affonso Romano de Sant’Anna em Que Fazer de Ezra Pound, “e de todas aquelas páginas, desfrutamos de um pequeno punhado de versos”. Concordo plenamente.
Os poemas anteriores de Pound são melhores. O Cathay, com suas versões de Li Po, como “The River-Merchant’s Wife: A Letter”, está entre os melhores que escreveu, e sobretudo Hugh Selwyn Mauberley apresenta uma economia nos versos oposta ao gigantismo de Os Cantos.
O que me fascina em Pound, além de ter sido decisivo na publicação do Ulisses de Joyce, no sucesso de Hemingway, e de ter interferido até no destino de Yeats — poeta já totalmente consagrado quando Pound chega à Europa —, entre tantos outros escritores que editou ou fez editar, é a relação com The Waste Land.
A obra-prima de T. S. Eliot era muito mais longa e flácida antes de Pound cortar com precisão a verborragia que a enfraquecia. A versão original foi publicada décadas depois e tem mais do que o dobro da extensão que teria após a edição de Pound deixar os versos de Eliot tinindo, trincando, uma bomba de enorme impacto: páum, páum, pound…
Pound foi o escultor d’A Terra Desolada de T. S. Eliot, e quem se puser a comparar as versões percebará a enorme diferença que a leitura/escultura/edição de Pound promoveu.

Lembro de estar em pé na biblioteca Castro Alves, em Bento, diante daquelas estoicas prateleiras de aço que sustentam os livros na maior parte das bibliotecas do país, lendo a tradução de Ivan Junqueira para A Terra Desolada. Foi uma leitura avassaladora.
Eu não entendia porra nenhuma, mas a música… a música de Eliot era inebriante. Borges dizia (mais ou menos, eu não lembro exatamente) que um poema deve ser sentido antes de entendido pela razão.
Entender um poema é senti-lo, como a música, e Eliot cantava dentro da minha cabeça:
Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera.
Pound como editor era minimalista, e devolveu a Eliot um diamante prismático, refletindo todas as luzes deste misterioso artefato intelectual, uma obra-prima. Eliot sabia disso e marcou no livro a dedicatória famosa:
For Ezra Pound,
il miglior fabbro.
O melhor fabbro (artífice) — com essa mesma expressão Dante se referiu ao poeta provençal Arnaut Daniel, o trovador que Pound resgataria do esquecimento.
No Canto XXVI do Purgatório, o florentino diz: “Este que aponto o dedo […] foi o melhor artífice [fabbro] do falar materno”, significando por materno o vernáculo provençal em oposição ao latim.
Arnaut Daniel é o inventor de uma forma poética composta por seis sextetos, a sextina, com as palavras (em lugar das rimas) finais repetidas em todas as estrofes, e um terceto ao final, a coda. Dante é o mestre que refinou e aprimorou as invenções dos poetas que o precederam, não apenas de Daniel, mas de outros provençais e dos italianos do Dolce Stil Novo.
É famosa a teoria de Pound acerca dos artistas, uma taxonomia de inventores, mestres e diluidores. Os inventores são os que descobrem uma nova técnica artística; os mestres são aqueles que pegam os processos criados pelos inventores, combinam vários deles e os utilizam melhor do que os próprios descobridores; e os diluidores… bom, são os medíocres, em suma, os repetidores das formas estabelecidas pelos tipos anteriores.
Eliot, em relação a Pound, é como Dante para Arnaut Daniel. Dedicar The Waste Land a Pound com a epígrafe de Dante é uma maneira de afirmar, voluntariamente ou não, que ele — Eliot — é o mestre das invenções poundianas.
“Para Ezra Pound, il miglior fabbro” é uma ironia cruel, e às vezes eu acho que não foi involuntária. Eliot sabia que Dante é muito melhor poeta do que Arnaut Daniel. Ao usar a mesma expressão, Eliot estava, apesar do modo elogioso, dizendo de forma criptografada, mas não impossível de decifrar, muito menos por Pound, que ele, Eliot, assim como Dante, era o verdadeiro melhor fabbro.
The Waste Land, um dos mais importantes poemas do século XX, carrega, gravado no pórtico, a lembrança de que a glória de Pound se encontra muito mais na obra dos outros, dos amigos a quem tanto ajudou.
Se Pound como editor era minimalista, como escritor, porém, era maximalista. Os Cantos foram sendo gestados ao longo de toda a vida. Há até um trecho em que Pound confessa não haver maneira de dar um sentido a toda essa obra imensa, de um gigantismo que, ele reconhece, lhe escapou ao controle. Se vivesse mil anos, teria continuado a escrever Os Cantos.
Eliot, em recomendação a poetas iniciantes, pregava o contrário, que o mais importante era escrever menos, cada vez menos. E aí está a sua obra para provar: A Terra Desolada, Os Homens Ocos, Prufrock, os Quatro Quartetos — obras-síntese de uma totalidade, ao contrário das de Pound, com pretensões totalizadoras, mas que me parecem em geral retóricas ou vazias, ou as duas coisas.
São famosas as suas definições de melopeia, fanopeia e logopeia: a música, a imagem e a ideia, os três elementos centrais que compõem a poesia. Na prática, como poeta criador, Pound é o inventor e Eliot, o mestre. Nos ensaios e na sua prática como editor, sim, Pound praticava tudo que sabia e entendia sobre a musicalidade da língua, e o tão famoso e influente estilo minimalista de Hemingway deve muito à sua prosa. Pound estava destinado a ser um inventor, não um mestre.
Outra coisa interessante: ao ouvirmos as gravações das leituras de seus poemas, Eliot é um chato de galochas. Pound, não. Pound, quando lê seus poemas, é maravilhoso, cheio de tesão. Admito que seja pomposo, solene, talvez até meio ridículo em seu falso sotaque inglês, um cockney de americano do meio-oeste, mas Pound declama com um arrebatamento, com uma força que ultrapassa a fraqueza de seus versos. A sua figura é maior do que os seus poemas; o autor é melhor do que a obra e vence na performance. Eliot era um banqueiro, um chato, parecido com a imagem dos contadores que os Monty Python retratavam nas esquetes cômicas, aquele homem formal e burocrático de chapéu-coco das pinturas de Magritte.
Mas tanto Pound quanto Eliot configuram o mesmo tipo de incômodo para a intelligentsia de todos os tempos: são revolucionários conservadores. No caso de Pound, mais do que isso, era um fascista e antissemita dedicado. Eliot, segundo ele mesmo se definiu, era “classicista na literatura, monarquista na política e anglo-católico na religião”. Dois americanos que foram à Europa para salvá-la da decadência, com o modesto objetivo de refundar o Ocidente — nada menos — através da integração de todas as culturas do mundo (as que eles conheciam, ao menos).
Pound envelheceu como uma triste figura. Reacionário cuja obra é altamente revolucionária e moderna, pregava nas rádios italianas a favor de Mussolini e contra Roosevelt. Revolucionário e antiburguês, queria uma economia livre de usura. Antiliberal, era um moralista de bom coração, mas equivocado politicamente. Seu fascismo, assim eu o vejo, era o efeito colateral danoso de sua boa-fé puritana, nostálgica de um capitalismo honesto fruto do trabalho, um capitalismo “não liberal”. O Canto XLV, o Canto da Usura, “era o poema que a esquerda queria ter escrito”, reconheceram muitos de seus críticos.
Mussolini debochava dele. No único encontro entre os dois, em 1933, o Duce folheou Os Cantos e comentou apenas: “divertente”. Pound, sabe-se lá por quais caminhos de sua mente fértil, mas tortuosa, tomou o adjetivo como elogio e prova de compreensão profunda.
Os discursos na rádio italiana acabaram levando-o à prisão pelos americanos no fim da guerra, acusado de traição, então um crime capital. Ficou enjaulado em Pisa — enjaulado mesmo, numa cela ao ar livre feita para gorilas. Não chegou a ser julgado, escapando por pouco da pena de morte.

Declarado mentalmente incapaz de responder ao processo, foi internado por doze anos no hospital psiquiátrico St. Elizabeths, em Washington. Saiu em 1958, depois de uma campanha de escritores, porque, afinal, ficaria feio para os EUA matar ou manter trancado um poeta, mesmo que fascista. Voltou à Europa e permaneceu na Itália, vivendo como um mito, fazendo a figura de um velho sábio.
A Allen Ginsberg, que o visitou em 1967, confessou que seu antissemitismo fora “um erro estúpido e suburbano” e que estragara tudo o que fizera. No fim da vida, em Veneza, o homem que ambicionou falar todas as línguas mergulhou num silêncio quase absoluto.
Ficava dias sem dizer palavra. Há um filme em que Pasolini o entrevista. Pound responde com toda a eloquência que o laconismo e o mutismo permitem.
Ao receber o Nobel em 1954, Hemingway declarou que o prêmio deveria ter sido entregue a Pound. Sabendo das dificuldades financeiras por que passava, mandou-lhe um cheque com uma parcela do dinheiro recebido da Academia Sueca.
Pound jamais descontou o cheque, dizem. Mandou emoldurá-lo. E o pendurou na parede.

Não se movam
Que o vento fale esse é o paraíso.
Que os Deuses perdoem o que eu fiz
Que aqueles que eu amo tentem perdoar o que eu fiz.
Canto CXX, Os Cantos, Ezra Pound.
Ezra Pound, o homem que inaugurou a própria era — a Era Pound, segundo o crítico Hugh Kenner, que no livro com este título situa o poeta americano no centro das vanguardas do século XX. Yeats chamou-o de vulcão solitário. Da biografia inspirada por essa alcunha, The Solitary Volcano, de John Tytell, recolhi alguns dos melhores insultos/elogios que Pound recebeu ao longo do tempo. Não concebo melhor tributo à sua figura.
Dele, disseram as boas e as más línguas:
Fratura trágica,
Catástrofe invertida: não dos céus, mas da terra
Flamejante Savonarola da poesia moderna
Imprevisível bomba de eletricidade
Furacão de relâmpagos bifurcados
Trotsky da literatura
Brilhante, heterodoxo
Vulcão pedagógico cuja matéria derretida se queimou através de uma trágica figura
Sensibilidade descosturada, liberando incontrolável energia
Raiva que perduraria por séculos
Rios de lama, lava incandescente
Voz divina de desaprovação e cólera
Impetuoso
Fausto em botas de caubói
Vingativo
Matéria fervente prestes a explodir
Parteira de novas tecnologias da imaginação
Autoritário,
Imperialista,
Pregador da superioridade moral da beleza
Bomba retórica
Opinioso,
Insolente
Último romântico
Bárbaro americano salvador da Europa
Impaciente,
Mercurial,
Exuberante
A própria figura do Poeta Intransigente,
Quintessência da rudeza
Bruxo, grosso, desafiador
Mestre do ódio,
Antiliberal
Anticomunista
Revolucionário e antiburguês
Fascista antirreligioso,
Inacessível, denso, extremo
Difícil
Irreverente,
Vigoroso lutador contra a mediocridade
Antena da raça,
Antissemita,
Racista,
Escandaloso,
Ultrajante
Poeta louco enjaulado na gaiola dos gorilas,
Arrogante,
Exasperado,
Ensandecido.
Vulcão solitário.

Dica: No Brasil, a editora Demônio Negro publicou Lustra, e a Cobalto, o volume poesia, reunindo as traduções dos Campos, Pignatari, José Lino Grünewald e Mário Faustino. As duas editoras são do jornalista Vanderley Mendonça. Aqui o volume poesia.
Os Cantos foram traduzidos por José Lino Grünewald, mas estão à espera de um novo — make it new — e muito corajoso, tradutor.
[Publicado em O vulcão solitário – by Juliano Dupont]