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Os demônios, de Fiódor M. Dostoiévski.
15/03/2020

Fui surpreendida pelo humor. Nunca pensei que a leitura de Os demônios me fizesse rir – mas fez! É o tipo de reação dificilmente associada ao escritor reconhecido por uma obra densa e pelos sofrimentos que viveu. Dostoiévski nos apresenta personagens e acontecimentos tão inusitados que rimos daquilo que é encenado como farsa. Seu objetivo, no entanto, era ser realista, fazer a crônica daquilo que acontecia na Rússia do século XIX e, assim, escreveu uma obra profética: seu romance foi visionário. O humor advém do absurdo, do non sense trágico das situações que observou no tempo em que vivia e que elaborou como grande literatura, aquela que Sontag diz ser liberdade, que nos chega como “passaporte para entrar numa vida mais ampla, ou seja, a região da liberdade”.
Para introduzir Fiódor M. Dostoiévski, preciso falar sobre cinema. Momentos intensos da história do cinema, de verdadeira genialidade, passam pelos russos. Sempre me impressionou a paixão política de Serguei Eisenstein, Dziga Vertov, Lev Kulechov e outros que se engajaram, através do cinema, na revolução que transformou o mundo, em 1917. Com fé, e convictos da construção de uma sociedade nova, alguns desses cineastas criaram um pensamento poderoso e inovador, formularam teorias estéticas e artísticas que são obrigatórias em qualquer programa de história do cinema. Nos anos 60 surge outro russo genial: Andrei Tarkovski, com um radicalismo oposto. Os filmes sublimes – alguns quase desesperados – que nos legou são manifestos sobre a falta de fé da humanidade. O respeito que Tarkovski nos inspira vem de sua incorruptível crença no sentido artístico do cinema. Foi censurado, perseguido e morreu no exílio, em 1986, em Paris.
Ler Dostoiévski – sobre sua vida e obra – significa encontrar a tradição cultural à qual esses cineastas – criadores de formas e conteúdos originais – se filiam. Mas ao artista não basta ser gênio, é também preciso estar no lugar e momentos certos. E Dostoiévski estava, viveu (1821-1881) no conturbado século XIX , em meio a um fervilhante debate sobre o destino da nação russa, na passagem de um sistema social escravista para uma revolução que, no século XX se tornaria genocida. A literatura, publicada como folhetim, era arena privilegiada desses debates. Nenhum livro foi tão significativo quanto Os Demônios, publicado na revista literária Mensageiro russo, ao longo de dois anos, entre janeiro de 1871 e dezembro de 1872.
Arte e realidade
Toda a obra de Dostoiévski tem um profundo vínculo com a realidade. George Steiner, em Tolstói ou Dostoiévski- um ensaio sobre o Velho Criticismo (SP, Perspectiva, 2006), afirma o quanto os sofrimentos físicos serviram ao autor para enxergar a realidade intensificada. Energia e vitalidade extraordinárias permitiram ao escritor enfrentar anos de prisão na Sibéria e ataques de epilepsia que o esgotavam. Nada tirou dele o imenso interesse por compreender o mundo e o ser humano. “O objetivo da arte é extrair o ideal da realidade”, dizia em sua coluna Diário de um escritor, nas páginas do Cidadão, revista semanal da qual se tornou redator-chefe no final de 1872.
Quando iniciou a publicação de Os demônios, Dostoiévski vivia em Dresden, com a esposa Anna Grigórievna, para fugir da cobrança de dívidas que o levariam à prisão. A falta de dinheiro era um tormento, assim como o jogo, do qual se libertou em definitivo durante a redação do romance cujo sucesso permitiu que retornasse à amada Rússia, em julho de 1871, depois de um exílio de quatro anos. A gênese de Os demônios é a preocupação de Dostoiévski quanto à existência de Deus (ou a fé em sua existência) que ele já havia esboçado no projeto A vida de um grande pecador, com o personagem Stavróguin. A esse projeto original incorporou os acontecimentos da Rússia convulsionada, deslocando o tema da fé de natureza metafísica para a política. O império russo havia chegado a um momento crucial. A pressão por reformas levara o czar Alexandre II, liberal e modernizador, a decretar em 1861 o fim da servidão que fixava os camponeses às terras das famílias aristocratas e latifundiárias. Mais de 20 milhões de servos foram libertados, mas isso não diminuiu os conflitos ou a violência. A insatisfação era geral, grupos revolucionários extremistas colocavam em risco o equilíbrio frágil da sociedade. Em abril de 1866 o czar sofre um atentado – foi o primeiro de vários – até ser assassinado em 1881. Dostoiévski acompanhava tudo pelos jornais, buscava na Alemanha as publicações russas e delas extraiu a matéria-prima para sua criação literária.
O foco narrativo de Os demônios foi organizado a partir da crônica policial. Em 21 de novembro de 1869 o estudante Ivanov é assassinado, sob as ordens do líder niilista Nietcháiev, por discordar dos métodos imorais e violentos do grupo revolucionário do qual faziam parte. Dostoiévski pegou, do calor dos acontecimentos, os elementos para o romance que começou a ser publicado em janeiro de 1871 e no qual o escritor chegou a agregar elementos do julgamento de Nietcháiev, ocorrido em julho de 1871. Essa incorporação é, na opinião de George Steiner, a crítica a ser feita ao projeto. E ressalva: “Por outro lado, raramente as intuições e temores de um profeta tornaram-se melodramaticamente concretizadas diante de seus próprios olhos”. As sociedades secretas, de orientação socialista, que floresciam nos círculos intelectuais de esquerda, sobretudo nas universidades, serviram de inspiração para a trama de feições tragicamente rocambolescas. O anarquismo vigente e a violência dos grupos políticos antecipam o terrorismo do século XX. Não podemos esquecer que o próprio Dostoiévski havia participado, quando jovem, do grupo socialista comandado por Mikhail Petrachévski, razão pela qual foi preso em 1849, condenado à morte, pena comutada por quatros anos de trabalhos forçados na Sibéria.
O cenário de Os demônios é uma pequena cidade provinciana. O enredo inicia e é fechado, depois de 600 páginas e um ano, com o professor e intelectual Stiepan Trofímovitch e a aristocrata latifundiária Varvara Pietrovna. Na altura em que se inicia a história eles tem uma relação de mais de 20 anos, de amizade e de serviços, já que Stiepan foi o educador do filho dela, o jovem Nikolai Stavróguin. É ele o personagem que está na gênese do romance – uma pessoa sem fé, que oscila entre a loucura e a lucidez, capaz das piores vilanias, cuja vida banal não é tocada por qualquer sentido de responsabilidade ou de culpa. A partir desse ser humano desprezível e perdido Dostoiévski faz a crítica moral que se irradia pelos demais personagens.
O capítulo no qual Stavróguin fala com perturbadora franqueza sobre seus atos e sentimentos foi considerado excessivo e recusado por Mikhail Katkóv, redator-chefe da revista O Mensageiro Russo. É um diálogo com o monge Tíkhon – personagem histórico que Dostoiévski introduz no romance – ao qual Stavróguin confessa seus crimes, entre os quais o estupro de uma jovem ingênua, e afirma vaidoso e indiferente: “Gostava do êxtase que me vinha da angustiante consciência da baixeza” e “Sou sempre senhor de mim quando quero, não pretendo alegar minha irresponsabilidade pelos crimes atribuindo-os ao meio nem à doença”. O capítulo censurado foi inserido pela editora Naúka nas Obras completas de Dostoiévski, de onde foi feita a tradução da edição brasileira, na qual é incluído em adendo (SP, Editora 34, 2004). A indiferente crueldade de Stavróguin antecipa os serial killers que proliferam nas narrativas contemporâneas, especialmente audiovisuais, cuja maldade, ao contrário de Dostoiévski, são justificadas em teorias sociológicas ou psicológicas.
Estrutura inovadora
Em artigo que acompanha a edição, o tradutor e especialista em literatura russa Paulo Bezerra destaca o aspecto inovador de Os demônios, que revolucionou a forma romanesca e antecipou a problematização do estatuto do autor. Com o objetivo de se manter na concretude dos fatos, Dostoiévski criou um cronista que narra os acontecimentos e estabelece com o leitor um diálogo direto e confidente. É um intelectual provinciano, possui uma cultura diversificada e expressa pontos de vista próprios. O diálogo com o leitor e humorado e cheio de ironia: “Como cronista, eu me limito a representar os acontecimentos de forma precisa, exatamente como se deram, e não tenho culpa se eles parecem inverossímeis”. Chama-se Anton Lavriéntiev e seu nome aparece numa única passagem, na página 132. Apesar da posição estratégica que ocupa ele não é um personagem, não pertence a qualquer corrente de pensamento e não tem ações. Ele observa e conta, indo e vindo no tempo, tecendo juízos sobre os quiproquós que colocam em polvorosa a pequena cidade e seus personagens vaidosos, ambiciosos, fracos, invejosos e fofoqueiros. A seguir um pequeno guia desses personagens.
- Varvara Pietrovna: latifundiária, viúva de general, aristocrata importante na cidade, amiga e protetora de Stiepan Trofímovitch.
- Stiepan Trofímovitch: intelectual valorizado entre a aristocracia provinciana, é inseguro e melancólico; nutre um amor secreto por Varvara, foi preceptor de Nikolai Stavróguin.
- Nikolai Stavróguin: filho de Varvara, prestou serviço militar, gosta de duelar, é bonito, fascina e seduz, ao mesmo tempo amado e odiado.
- Piotr Stiepánovitch: filho de Stiepan, foi criado distante do pai, é o líder da organização socialista secreta, preconiza o terrorismo como método de ação política, é vigarista e manipulador.
- Lizavieta Drozdov: jovem aristocrata riquíssima, educada em Paris, vítima da sedução de Stavróguin.
- Chigalióv: integra a organização, faz a justificação ideológica do terrorismo.
- Karmanízov: novelista, parente distante de Madame Lembke, esnobe e arrogante, nele Dostoiévski projeta o escritor Turguiêniev, com o qual tinha divergências.
- Aleksei Kiríllov: engenheiro civil, niilista, integra a organização secreta, mas não está interessado no debate, quer se matar e o suicídio deverá servir “à causa”, proclama “Deus não existe!”
- Chátov: cristão, representa a ortodoxia religiosa do povo russo, quer sair da organização, sendo, por isso acusado de traição e alvo de uma conspiração de assassinato.
- Erkel: integra a organização e se submete às ordens de Piotr Stiepánovitch.
- Lipútin: é liberal, funcionário de província, pertence a camada baixa da sociedade, medíocre, mesquinho e fofoqueiro.
- Andriêi Antónovitch von Lembke: militar que recebe o cargo de governador, homem fraco e nervoso, manipulado pela esposa.
- Yúlia Mikháilovna Lembke: mulher do governador, aristocrata vaidosa, quer se projetar na pequena cidade, é manipulada por Piotr Stiepánovitch, promove reuniões literárias que congregam os integrantes da organização.
- Lebiádkin: bêbado e violento, bate na irmã Maria Timofêievna
- Maria Timofêievna: doente, coxa e ingênua, sofre nas mãos do irmão e é objeto de escárnio de Stavróguin, que casa com ela pelo prazer do escândalo.
Dostoiévski viveu profundamente os acontecimentos históricos, participava dos debates sobre o destino da nação russa, defendia a tradição eslavófila contra a influência modernizante ocidental, especialmente francesa. Todas essas questões são contempladas ao longo do romance, debatidas nessa pequena sociedade de província, metáfora da grande Rússia. O escritor se projeta no narrador e, para além de sua função de cronista social, político e histórico, o que temos é um profundo estudo do comportamento humano: contraditório e paradoxal, cuja fraqueza e mesquinhez têm por consequência danos graves e permanentes. Basta uma rápida visada na crônica jornalística contemporâneo e no efeito exponencial que a fofoca alcançou com as redes sociais para constatar a perturbadora atualidade de Os demônios.
Os Demônios
Tradução de Paulo Bezerra
Desenhos de Claudio Mubarac
SP, Editora 34, 2004