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Página do Juliano Dupont
Um monumento mais duradouro que o bronze
22/05/2025
Artigo de Juliano Dupont reproduzido de sua página Negativo Operante
Enquanto a filosofia se ressente dos choques entre diferentes escolas de pensamento e das inevitáveis incoerências de um mesmo pensador, a arte se refestela em obras amalgamadas por emoções e ideias antagônicas, revelando nossas verdades mais inconciliáveis, onde todas as contradições tem validade mesmo que contrárias umas às outras.
O pensamento sente, o sentimento pensa. Os artistas se contradizem, e podemos apreciar todas as suas versões conflitantes.
O que é um poema? É uma performance, encenada em verso, dos variados e complexos dramas que nos habitam.
Nem tudo de mim morrerá…
Horácio (65 a 08 a.c.) sobrevive em modo discreto em relação à fama adquirida pela sua formulação do carpe diem, síntese de uma ideia ao mesmo tempo hedonista e estoica.
- Enquanto falamos, já invejoso terá fugido o tempo:
- colhe cada dia, confiando o menos possível no amanhã.
(Horácio, Livro I, ode 11, Odes, editora 34, tradução de Pedro Braga Falcão).
Hedonista porque, ao insistir em nos lembrar da morte, propõe o desfrute do tempo presente; e estoica ao demandar temperança na economia dos prazeres, para que os gozos de hoje não virem os tormentos de amanhã.
O carpe diem não expressa um desejo orgíaco, e sim a ética epicurista: nossa riqueza se mede por tudo aquilo a que podemos dispensar. Ao contrário do entendimento vulgar que o percebe como libertino e luxurioso, o hedonismo epicurista é estoico, baseado na premissa de viver o prazer com um mínimo de posses e um máximo de renúncia.
Se no carpe diem a lembrança da morte é um convite ao abandono de todas as preocupações que nos atormentam inutilmente para curtir a vida com sabedoria, isso não abranda a angústia de desaparecer por completo da memória humana, aniquilado eternamente na História.
Queremos a eternidade, seja através da procriação, da arte, dos monumentos. Talvez não oposta ao carpe diem, mas complementar, seja a tentativa de sobreviver através da memória. Usando o bronze da estatuária imperial como metáfora do poder da poesia para eternizar a si próprio, Horácio encerra com pretensão triunfal um de seus livros de odes, tentando vencer a morte protegendo-se do esquecimento pela glória literária.
- Erigi um monumento mais duradouro que o bronze,
- mais alto do que a régia construção das pirâmides
- que nem a voraz chuva, nem o impetuoso Àquilo
- nem a inumerável série dos anos,
- nem a fuga do tempo poderão destruir.
- Nem tudo de mim morrerá […]
- […]jovem para sempre crescerei
- no louvor dos vindouros […]
(Horácio, Livro III, ode 30, Odes, editora 34, tradução de Pedro Braga Falcão).
O poeta encomenda e celebra a própria fama aos pósteros. A esperança manifesta de que a obra resistirá à corrosão do tempo se repetirá em muitos artistas ao longo da história, e o mote de Horácio será glosado através dos séculos pelo estro de gigantes.
Shakespeare fez as mais lindas variações do mote horaciano em sonetos que lamentam a destruição de tudo pelo tempo, mas que, através de sua arte, ganham a eternidade no poema.
Soneto 55
- De mármore não sei, nem de áureos monumentos
- Que sobrevivam ao meu canto poderoso:
- O tempo mancha a pedra, enquanto em meus acentos
- Tu sempre ostentarás um brilho vigoroso.
- Quando estátuas a guerra infrene derruir
- E as próprias construções das bases arrancar,
- Não poderão espada ou fogo destruir
- Este arquivo imortal que te há de relembrar.
- Indiferente a morte e a olvido hás de viver,
- E encontrará guarida o teu louvor supremo
- No olhar das gerações que se hão de suceder
- Até que o mundo atinja o seu momento extremo.
- Assim, até o juízo em que despertarás,
- Em meu verso e no olhar dos que amam viverás.
(trad. de Péricles Eugénio da Silva Ramos, editora Hedra).
À ideia de eternidade artística do pagão Horácio, Shakespeare, poeta da cristandade, acrescenta a ideia do Amor.
Soneto 18
- Te comparar com um dia de verão?
- Tu és mais temperada e adorável.
- Vento balança em maio a flor-botão
- E o império do verão não é durável.
- O sol às vezes brilha com rigor,
- Ou sua tez dourada é mais escura;
- Toda beleza enfim perde o esplendor,
- Por acaso ou descaso da Natura;
- Mas teu verão nunca se apagará,
- Perdendo a posse da beleza tua,
- Nem a morte rirá por te ofuscar,
- Se em versos imortais te perpetuas.
- Enquanto alguém respire e veja e viva,
- Viva este poema, e nele sobrevivas.
(tradução de Geraldo Carneiro em O discurso do amor rasgado, Ed. Nova Fronteira, 2013)
O amor se apresenta em uma dimensão que os romanos não praticavam nem em verso nem em filosofia, ganhando proporções metafísicas com o cristianismo, e Shakespeare, como Petrarca antes dele, expressará nos sonetos a síntese desses mundos sobrepostos ao tentar imortalizar no poema a mulher amada.
No 19, a mesma toada:
- Mas, velho tempo, mesmo que o trates com maldade,
- meu amado, nos meus versos, terá eterna mocidade.
(Sonetos Completos, Ed. Movimento, tradução de Elvio Funck).
E no 60:
- […]
- O Tempo transfixa a flor da beleza da juventude,
- traça paralelas naquela formosa fronte,
- e devora tudo o que há de mais belo na natureza,
- pois nada vive senão para sua foice colher.
- Mesmo assim, meus versos em tempos futuros viverão,
- cantando teus louvores e resistindo do tempo a destruição.
(Sonetos Completos, Ed. Movimento, tradução de Elvio Funck).
No soneto 64, o bardo perde as esperanças e contradiz os outros sonetos em que busca a imortalidade, reconhecendo a aniquilação promovida pelo tempo, aceitando a morte e o olvido:
- […] nada podemos fazer,
- senão chorar por ter aquilo que tememos perder. (Elvio Funck)
Aqui o pessimismo estoico do Eclesiastes vence o triunfalismo de Horácio, dando um farewell à eternidade platônico-cristã do amor. Mas logo depois do 64 ainda tenta uma esperança no milagre: a tinta negra no papel preservará o seu amor no soneto 65 (Ninguém: só se um milagre faz-se impor,/ E em tinta negra esplende o meu amor).
Soneto 65
- O bronze, a pedra, a terra, o mar sem fim,
- Se a morte impõe a todos seu rigor,
- Como a beleza há de durar assim
- Se não tem mais que a força de uma flor?
- Será que o sopro do verão perdura
- Contra o assédio dos dias de tormenta,
- Se nem a pedra se conserva dura
- Nem os portões de aço se sustentam?
- Terrível reflexão! Como ocultar
- Do Tempo a sua mais cara riqueza?
- Seu pé veloz que mão há de parar?
- Quem lhe proíbe o desgaste da beleza?
- Ninguém: só se um milagre faz-se impor,
- E em tinta negra esplende o meu amor.
(tradução de Geraldo Carneiro em O discurso do amor rasgado, ed. Nova Fronteira, 2013.)
Reaparece na primeira linha do soneto 65 a metáfora horaciana do bronze sucumbindo à morte, ao contrário do poema em si, imortal. Shakespeare é como Horácio capitulando diante da destruição do tempo, mas postulando a eternidade na criação artística.
Outros exemplos assomam à memória.
Fernando Pessoa é o mais multifacetado conjurador de todas as contradições. Seus heterônimos contradizem-se uns aos outros, e mesmo dentro da obra de cada um deles encontramos antagonismos e incongruências. O próprio Tabacaria é a performance desta contradição: tudo vai se extinguir, ele diz, inclusive o poeta e o poema. De uma perspectiva cósmica é verdade, tudo vai explodir e desaparecer, mas na História o poeta transcendeu o tempo e será eterno.
Na famosa transcriação de Haroldo de Campos e Boris Schnaidermann da Flauta Vértebra de Maiakóvski ocorre o mesmo tipo de performance em verso. O poeta anuncia que vai se matar:
hoje executarei meus versos na flauta de minhas próprias vértebras.
E o resultado é um lindo suicídio, eternamente vivo no poema – sacrifício cuja representação ocorre a cada vez que o relemos ou o recitamos de memória.
No Cântico Secular, Horácio escreveu:
- Almo Sol […] possas tu,
- nada maior ver do que o urbe de Roma.
Roma ruiu. O poeta romano sobreviveu, na eternidade provisória da literatura, porque cantou em forma imortal a ambição da Cidade Eterna.
O passaporte mais garantido à posteridade não é a escultura ou o bronze de heróis: é o poema, que viaja do passado chegando ao presente através da nossa leitura, angariando mais vida em direção ao futuro.
Artigo de Juliano Dupont reproduzido de sua página Negativo Operante