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Página do Juliano Dupont
Wayne Shorter: Gravidade Zero
30/06/2026
[Publicado em Wayne Shorter: Gravidade Zero – by Juliano Dupont]
Princípio da Incerteza
Nos laboratórios de Stanford, os físicos observam a realidade paradoxal dos quanta, embasbacados com o Princípio da Incerteza de Heisenberg e a dualidade onda-partícula. Dos microscópios passam aos telescópios e contemplam os confins do cosmo, assombrando-se diante de buracos negros expelindo jatos de energia e matéria azulada que viajam na velocidade próxima à da luz atingindo 3.000 anos-luz de comprimento. Pasmados à beira dos abismos limítrofes ao universo conhecido, os cientistas se perguntam: “O que se passa na cabeça de Wayne Shorter ao improvisar? Qual a relação entre o acelerador de partículas e a obra, a vida e a sabedoria do saxofonista, compositor e improvisador?”. Ou ao menos se perguntavam, antes de sua morte.
Leitor culto, mestre das aporias e aforista paradoxal, Wayne aparece no documentário Wayne Shorter: Zero Gravity, da Amazon Prime, especulando sobre o que vem depois do fim do mundo, nas intersecções do multiverso. Não há muita ordem no cosmo, ele nos garante, exceto uma ordem instável, temporária e contingente. Sobre os amigos no laboratório de física em Stanford, comenta:
Eles dizem que a maioria das leis que supostamente deveriam coincidir com a gravidade aqui, essas coisas não coincidem de forma alguma. … A ciência vai daqui até lá. Agora, além daquele ponto, é totalmente diferente. Eles disseram que é assustador, mas excitante.
Além do mundo conhecido, o cenário é assustador, mas excitante — como a música de Wayne Shorter. Os cientistas queriam falar sobre improvisação para tentar descobrir os segredos do universo e o que encontraram foi o reflexo especular do universo no jazz. Da mesma forma, Wayne encontrava metáforas cósmicas para sua música.
Às reiteradas perguntas sobre criação artística, jazz e “música negra”, Wayne Shorter sempre me pareceu um monge zen, respondendo por meio de koans, histórias e anedotas várias. Lançava mão de humor aforístico, misticismo budista e filosofia pura, tecendo analogias com a ciência de ponta, citando diálogos de filmes e criando pensamento e música a partir de origens disparatadas.
O pianista Danilo Pérez, no documentário, evoca a noite em que Wayne lhe telefonara recomendando que sintonizasse a televisão em determinado canal para assistir ao filme em exibição. Tratava-se d’A invasão das aranhas gigantes. “Sob qualquer critério, aquele era um filme horrível”, diz Pérez, “mesmo assim, Shorter comentava aspectos da obra, extraía uma sabedoria qualquer daquela besteira”.
Se antes de eu assistir ao documentário Wayne parecia um monge zen, agora ele me parece um santo, um possuído que entrava e saía do êxtase todo dia, a toda hora. O filme acerta na terminologia mística e iniciática ao chamar os três episódios que o compõem de três Portais.
No primeiro portal, já decolamos para o infinito: ouvimos, sobreposta como a de um espírito, uma frase de Wayne, e os primeiros a falar diretamente à câmera são Joni Mitchell, Herbie Hancock, Carlos Santana, Sonny Rollins e o astrofísico Neil deGrasse Tyson – um elenco tão bom que parece mentira.
A tradição como atualização permanente
Shorter ouvia de tudo em sua formação musical, citando Yma Sumac, Stravinski, Charlie Parker. Ao sair do exército tornou-se compositor e “diretor artístico” do Jazz Messengers de Art Blakey. Pouco depois seria o principal compositor do notório quinteto de Miles Davis da metade dos anos 1960, ao lado de Herbie Hancock, Tony Williams e Ron Carter.
A dimensão de Wayne como compositor revelou-se de forma marcante quando Miles Davis, quatro dias antes de morrer, telefonou para ele — como João Gilberto, Miles relacionava-se melhor com as pessoas via Embratel — pedindo que lhe escrevesse uma música, acrescentando: “uma peça para orquestra, mas com uma janela de onde eu possa pular fora”. Miles desejava, de forma indireta, que o seu réquiem fosse escrito por Wayne Shorter.
Mesmo quando ainda estava no quinteto de Miles, da metade dos 1960 até a virada da década, Shorter lançaria álbuns solos importantes como JuJu, Speak No Evil, Odyssey of Iska e Moto Grosso Feio. Nunca embarcou no free jazz; mesmo assim, ouvimos alguma aspereza nessa fase: uma música sofisticada, complexa e exigente para o ouvinte.
Em 1971, Shorter associou-se ao tecladista Joe Zawinul para criar o Weather Report, um dos mais importantes grupos do subgênero a que se convencionou chamar de fusion. Apesar do nariz torcido dos conservadores, tradicionalistas e fundamentalistas da “jazz police”, assim como já havia ocorrido em relação ao jazz-funk-rock de Miles a partir de In a Silent Way, o Weather Report faz algo bastante tradicional na história do jazz.
Parece contraditório, mas não é: a música pop moderna, o rock, os ritmos latinos, africanos e orientais misturados ao jazz nos anos 1970 participam de uma forma de atualização da tradição . O que seria a tradição no jazz, conceito em si mesmo oximórico? A tradição é a ênfase no ritmo, no groove, no blues, é o eco da África e das tradições populares negro-americanas, caribenhas e europeias que fundaram o jazz.
O jazz teve uma dramática inflexão na metade dos anos 40 com o bebop, uma resposta cerebral ao swing e a todo o jazz dançante que vigoravam até então. A radicalização máxima dessa intelectualização ocorreria no free jazz, justamente durante o auge do segundo quinteto de Miles com Wayne Shorter. Se, por um lado, a antinomia entre intelectual e corporal é falsa — é possível ser ambos e, talvez, nenhum —, por outro, é uma antinomia que existe, principalmente em relação à compreensão europeia de música. Uma música da razão, absoluta, contraposta a uma música telúrica ancorada no corpo e na dança.
O Weather Report, melhor do que qualquer outro grupo do período fusion, representava a absorção de todas as inovações da vanguarda jazzística, mas sempre estribadas no ritmo e nas fusões da música popular e pop do mundo à sua volta. Wayne é como Miles, a síntese desse conflito, vértices do passado e vórtices do futuro.
Em Miles, a mistura pode ser, às vezes, um tanto dolorosa. Agharta, Pangea, Dark Magus, ou mesmo o groove eterno de On the Corner, apesar de — soi-disant — dançantes, com frequência soam quase como música de vanguarda barulhenta. A música de Wayne é igualmente ousada, mas sem a rispidez, a rudeza e a antipatia raivosa sempre à flor da pele no Miles elétrico. A música do saxofonista é amorosa, um lindo colapso estelar, um cataclismo cósmico no qual queremos imergir, num mar de sons.
Globalista e universalista, o jazz tem por tradição a atualização permanente. Oposto ao neoconservadorismo de Wynton Marsalis e Stanley Crouch, bem como às teorias racialistas de Amiri Baraka, Wayne rejeita toda terminologia. Domina a tradição europeia clássica e o jazz, mas recusa qualquer identificação com um estilo. Nomear é matar.
O fato de uma arte ser indefinível pode muito bem ser o atestado de sua vitalidade. O que é o jazz? O que é o jazz contemporâneo? A impossibilidade de responder a essas perguntas é a prova de sua força, da mudança permanente em torno de uma identidade inapreensível, mas onipresente.
Wayne foi jovem até morrer. Talvez tenha se tornado, à medida que envelhecia, cada vez mais jovem, como prova seu último quarteto, de uma ousadia, vigor e coragem para explorar o desconhecido como poucas vezes se ouviu na história do jazz.
O último quarteto – uma audiometáfora do universo
No ano 2000, quatro anos após a trágica morte da esposa Ana Maria e da sobrinha na queda de um avião, Shorter arregimenta o que viria a ser o seu último ensemble, o melhor da história do jazz recente.
No quarteto de Shorter, os extremos do caos (a desordem) e do cosmo (a ordem) se reconciliam, engendrando um Caosmos. Audiometáfora do universo, o quarteto se equilibra entre a ordem e o caos imprevisível que emerge da interação das criatividades individuais — entre si, mas também com a plateia e o mundo —, caos e harmonia entrelaçados. É um grupo à altura do próprio segundo quinteto de Miles, do qual Wayne fazia parte, ou do quarteto de Coltrane no tempo de A Love Supreme.
“Estou buscando o ilimitado; a constante”, confessa Wayne Shorter. “Quando improvisamos, estamos no momento. Para mim, o momento, um momento, é igual à eternidade, e temos a eternidade para fazer o que chamo de ‘a aventura final’. A vida é a aventura final.”
Com Danilo Pérez ao piano, John Patitucci no baixo e Brian Blade na bateria, a impressão que fica é que esse quarteto foi a síntese de toda a evolução do jazz, incorporando todas as invenções vanguardistas à tradição, no sentido de um aggiornamento a partir de uma ideia arbitrária e inventada da tradição.
Nos álbuns Without a Net ou Footprints Live!, ou em qualquer apresentação do quarteto disponível no YouTube, tudo o que é violento e abrasivo na música de vanguarda e no free jazz parece soar leve em sua música ou, melhor dizendo, integrado à nossa natureza, numa conformação biológica nova e bastante ampliada de nossa contemplação da beleza.
Eu acho que a minha rede de modo padrão se altera a cada compasso quando ouço a música desse quarteto. É a tradução sonora de uma verdadeira expansão de consciência, oferecendo a experiência psicodélica em que o cérebro é forçado a abandonar seus caminhos habituais para flutuar na gravidade zero, com o uso dessa substância insubstancial, etérea, chamada música. Com o uso do espaço, do silêncio, das harmonias complexas, esse grupo cria uma forma de narrativa muito incomum.
Gravidade zero não existe, mas a música, sim, parece criar a impressão de queda livre, de ausência de gravidade, como em Aung San Suu Kyi (pelo YouTube), que nos joga num bungee jump e depois nos suspende em câmara lenta em pleno ar flutuando sobre o abismo.
Danilo Pérez perguntou um dia: “quando vamos ensaiar?”, ao que Wayne respondeu: “Não dá para ensaiar o desconhecido, Danilo”. O pianista declara, no documentário, que “Wayne nunca compôs uma canção. Ele compôs a trilha sonora de sua vida ao longo do tempo.”
Wayne Shorter manteve até o fim a mente deslumbrada de uma criança e a artesania máxima de um gênio. Para ele, jazz era treinar o medo, um desafio permanente: “jazz means: I dare you”, era uma de suas definições.
O caminho mais longo é o mais curto
Numa entrevista para a revista Jazziz, Shorter afirma: “Pesado, pra mim, é leve [em inglês, ‘light’ é trocadilho entre ‘leve’ e ‘luz’]. Vou fazer 70 anos, e parece que tudo vai ficando cada vez mais leve. Tudo o que eu digo parece dar uma volta enorme. E estou descobrindo, cada vez mais, que o caminho mais longo é o mais curto.” (Link aqui)
No mundo jornalístico atual, as curiosidades são outras: em uma entrevista disponível no YouTube, a repórter quer saber de Shorter como era ser um “músico negro” em determinado tempo num determinado lugar dos E.U.A. Wayne não entende: “Ser o quê?”, ele pergunta. “Um ‘black musician’”, repete a jornalista. “Ah… um músico negro…”, e ele então desvia e começa a contar uma de suas anedotas filosóficas.
Gravidade zero pode não existir, mas nem Wayne, com toda a sua sabedoria fluida e imaterial consegue não ter gravidade. O amor e o afeto que todos sentem por ele são onipresentes em todo o filme, a começar pela diretora Dorsay Alavi, amiga que registrou a convivência com o músico por vinte anos.
O amor tem gravidade. No caso de Wayne Shorter, o amor tem muita gravidade, uma gravidade na qual peso, luz e leveza se confundem ou são uma coisa só. Expansão e contração do universo em nossos ouvidos, sua música é ordem e entropia, big bang e apocalipse, nascimento e morte no eterno ciclo de criação e destruição do cosmo. Wayne entendeu isso tudo, e deu forma ao mistério.
[Publicado em Wayne Shorter: Gravidade Zero – by Juliano Dupont]